A Promessa do Altruísmo Eficaz

Por Paul Brest

FuturoAE

O futuro está no altruísmo eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pexels).

O movimento de altruísmo eficaz tem o potencial de criar um modelo que sirva de inspiração, que pode mudar as práticas de doação ao longo do tempo.

O movimento contemporâneo do altruísmo eficaz pretende transformar a filantropia de duas maneiras: 1) direcionando a filantropia para os objetivos mais importantes e 2) assegurando que os dólares da filantropia sejam gastos o mais eficazmente possível. Entre os seus proponentes estão o Centre for Effective Altruism do Reino Unido; a organização estadunidense de avaliação de instituições de caridade, a GiveWell; e Eric Friedman, em um recente livro, Reinventing Philanthropy: A Framework for More Effective Giving (Reinventando a Filantropia: Um Enquadramento para Doações Mais Eficazes). Mas ambos os objetivos do altruísmo eficaz enfrentam barreiras significativas.

O pai do altruísmo eficaz é o filósofo utilitarista Peter Singer que argumenta que as pessoas deveriam dar tudo aquilo que não gastassem com necessidades básicas para ajudar os mais necessitados do mundo. Reconhece em seu livro A Vida Que Podemos Salvar – Agir Agora Para Pôr Fim À Pobreza No Mundo, que isso exigiria mudanças drásticas no estilo de vida dos americanos, escrevendo: “Ao longo de muitos anos a falar e a escrever sobre este assunto, descobri que para algumas pessoas tentar alcançar um padrão moral elevado as empurra na direção certa. … [Mas] ao pedir que as pessoas dêem mais do que quase qualquer outra pessoa, corre-se o risco de as afastar. … Para evitar esse perigo, devemos defender um nível de doação que levará a uma resposta positiva.”

Embora poucas pessoas possam vir a reformular radicalmente seus orçamentos, muitos de nós temos um orçamento, explícito ou tácito, dedicado à filantropia. Uma versão menos exigente e possivelmente mais realista do altruísmo eficaz, seria dedicar esse orçamento filantrópico para acudir às necessidades básicas dos mais pobres do mundo.

Mesmo neste domínio limitado, um doador pode ter uma discução filosófica com Singer sobre o valor, por exemplo, das artes ou da educação — em contraste com as necessidades básicas. Mas o argumento de Singer pode, no entanto, levar o doador a reconsiderar seu portfólio filantrópico e talvez reconhecer que algumas doações, apesar de abençoadas por uma dedução fiscal de impostos, não são na sua essência filantrópicas. Por exemplo, como Rob Reich destacou em seu recente artigo do New York Times, “Not Very Giving” , é difícil justificar uma contribuição para as escolas primárias ou secundárias de seus próprios filhos como filantrópica. E os doadores podem ter uma visão cética sobre doações motivadas em grande medida pela vaidade ou reciprocidade, com pouca consideração pela forma como a sociedade melhora.

A fim de dar um passo modesto, os doadores podem reservar uma pequena porção de seus orçamentos filantrópicos para projetos desse tipo, mas devotar a porção maior para organizações que têm o potencial real de impacto social. Se o movimento do altruísmo eficaz influenciar ao menos alguns doadores de elevado patrimônio financeiro nessa direção, isso poderia ter um efeito positivo nas doações dos seus pares em benefício dos pobres do mundo.

E o que dizer sobre o segundo passo do altruísmo eficaz — a eficácia? Os seus proponentes aplicam uma análise custo-benefício nas doações à caridade, de modo que cada dólar filantrópico provavelmente fará a maior diferença possível para melhorar a vida dos pobres. É assim que o site da GiveWell avalia instituições de caridade. E é essa a abordagem da Robin Hood Foundation, que combate a pobreza em Nova York.

A eficácia parece ser um critério sólido para um filantropo que procura alcançar resultados em qualquer área. No entanto, isso também enfrenta barreiras significativas. Por um lado, a análise aprofundada que a GiveWell e a Robin Hood fazem é dispendiosa. Muitos doadores não estão dispostos a pagar por esses custos administrativos quando podem dar fundos diretamente aos beneficiários, ainda que a pesquisa se possa pagar a si mesma muitas vezes, direcionando os dólares filantrópicos para organizações de alto desempenho. Mais importante é que,  infelizmente, a grande maioria dos doadores não está interessada em fazer qualquer pesquisa antes de fazer as suas doações filantrópicas. Muitos parecem satisfeitos com a sensação de calor interior que resulta de doar; de fato, análise demais pode até reduzir o impulso filantrópico. Ao mesmo tempo, os esforços (que incluem a grande maioria das 90 mil fundações nos Estados Unidos) para motivar e ensinar os doadores a considerar a eficácia de sua filantropia, quaisquer que sejam suas metas, não têm um sucesso retumbante.

Em última análise, meu conselho não solicitado aos defensores do altruísmo eficaz é que mantenham o rumo. Embora possa haver poucos doadores a abraçar mesmo uma versão moderada daquilo que Peter Singer prescreve, o movimento tem o potencial de criar um modelo de inspiração, o que pode mudar as práticas de doação a longo prazo. E se a GiveWell puder ampliar o âmbito de suas recomendações e se outras avaliadoras de instituições de caridade, como a Charity Navigator 3.0, continuarem a se mover na direção de reportar resultados, levarão as evidências de impacto à porta dos doadores que não estão dispostos a sair e procurar isso por si mesmos.


Texto de Paul Brest publicado originalmente no Stanford Social Innovation Review, em 28 de outubro de 2013.

Paul Brest é professor emérito na Faculdade de Direito de Stanford, professor na Graduate School of Business e co-diretor da faculdade do Stanford Center on Philanthropy and Civil Society. Anteriormente, foi presidente da Fundação William e Flora Hewlett.

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

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