Entrevista a William MacAskill, membro fundador do Altruísmo Eficaz

Por Joshua Monrad e Sebastian Quaade (The Politic)

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William MacAskill, o que é o altruísmo eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Wikipédia e Pixabay)

“Prefiro não ler as notícias porque acho que, em geral, oferecem um ponto de vista muito tendencioso sobre o que é mais importante no mundo”

William MacAskill é co-fundador e presidente do Centre for Effective Altruism, além de ser o professor associado mais jovem de sempre a lecionar filosofia na Universidade de Oxford. É um dos membros fundadores do Altruísmo Eficaz, um movimento social que promove o uso de evidências e da razão para ajudar os outros tanto quanto possível com o nosso tempo e dinheiro e, através de sua organização afiliada Giving What We Can, assegurou mais de 1,5 bilhões [Pt: 1,5 milhares de milhões] de dólares em compromissos de doações para instituições de caridade altamente eficazes. A pesquisa de MacAskill em Oxford concentra-se nos fundamentos do Altruísmo Eficaz. Presentemente, está a escrever um livro sobre incerteza moral, que pretende lançar no próximo ano.

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The Politic: Você é o mais jovem professor associado de filosofia do mundo, mas provavelmente é mais famoso por seu trabalho no movimento do Altruísmo Eficaz. Embora o movimento tenha crescido muito recentemente, ainda há muitas pessoas que não sabem do que se trata. Poderia nos apresentar a sua versão?

William MacAskill: Sim, o Altruísmo Eficaz é sobre o modo de usar seu tempo e dinheiro da melhor maneira possível para tentar melhorar o mundo o máximo possível e usar evidências e a razão para tentar descobrir, dentre todas as formas de usar seu tempo e dinheiro para fazer o bem, quais são aquelas que fazem o maior bem? E então, finalmente, o Altruísmo Eficaz é sobre agir de fato de acordo com isso e colocar essas boas ideias em prática.

Você é uma espécie de fundador desse movimento, ou pelo menos dos seus fundamentos filosóficos. Como aconteceu formular essas ideias?

Começou quando estava extremamente preocupado com a questão da pobreza extrema, e fiquei muito convencido pelos argumentos de Peter Singer. Ele argumenta que deixar de doar alguns milhares de dólares para uma instituição de caridade que poderia salvar a vida de alguém em um país pobre não é moralmente diferente de simplesmente continuar a andar ao passar por uma criança que se está a afogar em um lago pouco profundo. De qualquer das formas, está a abster-se de fazer uma ação sabendo que esta salvará a vida de uma criança. E considerei esse argumento incrivelmente convincente e isso realmente me influenciou.

Enquanto estudante de graduação em Cambridge, passei vários anos com um grande conflito moral. Em Oxford, comecei a compreender que realmente tinha que começar a viver minha vida de acordo com meus próprios valores. Comecei a doar uma pequena quantia da minha bolsa de pós-graduação, talvez quatro ou cinco por cento na época, e comecei realmente a pensar em como poderia usar minha carreira para fazer um bem maior, mesmo que almejasse ainda ser filósofo e que não tivesse a certeza se teria algum impacto assim. Foi depois de conhecer Toby Ord, outro filósofo, no início de 2009, que assumi o compromisso de doar, ao longo da minha vida, tudo que ganhasse acima de 25 mil libras anuais, depois de deduzidos os impostos — bem, agora são 25 mil libras, depois do ajuste pela inflação desde 2009. E isso significava que, ao longo da minha vida, doaria muito acima de um milhão de libras, no mínimo a maior parte da riqueza obtida na minha vida.

E então, uma vez que se está doando essa quantia, a questão de como se pode realmente aproveitá-la ao máximo torna-se mais óbvia. Assim, juntamente com Toby, co-fundei a Giving What We Can, em que incentivamos as pessoas a se comprometerem a doar pelo menos dez por cento de seu rendimento. E começamos a pesquisar sobre o custo-eficácia de instituições de caridade, onde analisávamos as últimas pesquisas em economia a fim de descobrir quais são as instituições de caridade que estão a ter o maior impacto possível. Foi durante a divulgação que percebemos que a questão de onde se tenta doar e se doa é uma questão maior e mais importante do que quanto se doa, porque a diferença de impacto que se pode ter é uma diferença de centenas de vezes, em vez de, como sabe, talvez poder doar dez vezes mais.

Quais são alguns dos diferentes problemas ou causas que o preocupam por não receberem atenção suficiente, ou quais são algumas das áreas em que o impacto que é possível está sendo negligenciado?

Uma seria a pecuária industrial, onde, especialmente através de campanhas recentes para acabar com o uso das gaiolas por parte das grandes corporações, se pode ter um impacto absolutamente transformador nas condições de vida dos animais da pecuária industrial. Onde até mesmo um dólar evita que duzentos frangos sejam mantidos em gaiolas. E então a segunda, e a meu ver ainda maior, é a redução dos riscos existenciais.

Quase todo o valor que conseguiremos enquanto civilização está concentrado no futuro. É plausível que a civilização humana continue por muitos milhares ou mesmo milhões de anos no futuro, e que todas as grandes obras de arte, todas as grandes realizações científicas, vastos picos do desenvolvimento humano, possam estar todos no futuro. No entanto, é como se tivéssemos entrado numa fase, primeiro como resultado do armamento nuclear e das mudanças climáticas, mas agora cada vez mais como resultado de novas tecnologias como a biologia sintética, a inteligência artificial e talvez a geoengenharia, em que temos a capacidade de realmente causar o colapso civilizacional ou mesmo a extinção humana. Isso seria a perda de quase tudo o que a humanidade poderia esperar alcançar. E assim, dada a importância disso, poderia se pensar que [evitar] isso já seria uma enorme prioridade global. Mas infelizmente não o é.

Voltando ao seu argumento sobre o bem-estar animal, essa é uma preocupação importante para muitos estudantes em Yale. Quais são os métodos que considera mais eficazes para reduzir o sofrimento animal?

Ah, com certeza as campanhas contra o uso de gaiolas por parte das grandes corporações; elas têm sido simplesmente surpreendentes.

Campanhas contra o uso de gaiolas por parte das grandes corporações?

Sim, a maneira como funciona é que organizações como a Mercy for Animals e a The Humane League dirigem-se a grandes empresas — que podem ser o McDonalds ou revendedoras como a Key Foods — e dizem: “Estas são as condições dos animais, como os frangos, na vossa rede de abastecimento. Aceitariam assumir o compromisso de deixar de usar gaiolas, completamente, nos próximos cinco anos?” E muitas vezes, as empresas dizem que sim!

E se estiverem pouco interessadas, basicamente serão pressionadas por essas organizações que lhes mostram que, na verdade, os consumidores realmente não gostam do fato dos animais serem criados nessas condições, que terão todo o prazer em pagar mais para evitar que os animais sejam criados nessas condições, além de mostrarem o tipo de possíveis repercussões. Realizariam uma campanha contra as empresas que se recusam a fazer esse tipo de campanha e a assumir esse tipo de compromisso.

O impacto tem sido enorme. Entre as 50 maiores cadeias de fast-food e revendedoras dos EUA, todas concordaram em deixar de usar gaiolas dentro de cinco anos, e isso é resultado de apenas alguns milhões de dólares de financiamento. E este modelo está sendo repetido, inicialmente por todo o mundo, e depois para outros tipos de alimentos também, como frangos de aviário.

Críticos do Altruísmo Eficaz argumentam por vezes que o movimento não se preocupa com mudanças sistêmicas. O que diz a esta crítica?

Penso que é baseada em um mal-entendido sobre o que fazem as pessoas no Altruísmo eficaz. Ou seja, há uma espécie de sentido amplo e estrito de mudança sistêmica. O sentido estrito é apenas a mudança política. Penso que o sentido amplo deve ser quando se tem um investimento único que nos dá então um retorno contínuo indefinidamente no futuro. Ambos são partes importantes que são fortemente consideradas no Altruísmo Eficaz. Se olhar para o que a Open Philantropy financia, isso inclui a reforma de políticas de imigração, a reforma da justiça criminal, financiamento para a maneira como tratamos os animais, para políticas macroeconômicas, bem como para diferentes formas de instituições científicas.

Se olhar também para organizações específicas dentro do Altruísmo Eficaz, a openborders.info concentra-se explicitamente no objetivo político de tentar aumentar radicalmente a migração através das fronteiras, o Center for Election Science é uma organização focada na reforma de sistemas de voto que na verdade recebeu financiamento do projeto Open Philanthropy, por minha recomendação. E então, se olhar para a 80,000 Hours, suas principais recomendações de carreira incluem trabalhar no governo, trabalhar em políticas públicas e trabalhar em grupos de reflexão.

Há algum outro equívoco [sobre o Altruísmo Eficaz] que queira abordar?

Claro. [Um deles é que] o Altruísmo Eficaz apenas se concentra na pobreza, enquanto que uma parte fundamental do Altruísmo Eficaz é o agnosticismo em relação às causas, o que significa tentar descobrir qual é a causa em que se pode ter o maior impacto. E por isso, muitas pessoas optam por se concentrar em outras áreas, como redução de riscos existenciais, o bem-estar animal e a ciência.

Também se dá o caso das pessoas tenderem a pensar que o Altruísmo Eficaz apenas se concentra em doações. Repito, é muito mais amplo que isso. Certamente enfatiza-se muito a maneira como as pessoas podem usar suas carreiras para fazer o bem, mas também há muita reflexão, quanto às áreas de causas a que damos mais prioridade, sobre quais são as melhores pesquisas que poderiam ser feitas para gerar valor, e quais são as melhores medidas que poderíamos estar a promover?

E depois, um pensamento final, é a ideia errada de que o Altruísmo Eficaz é simplesmente utilitarismo ou simplesmente utilitarismo aplicado. Mas, repito, há uma distinção importante pois o altruísmo eficaz é apenas um projeto em que se tenta descobrir como fazer o maior bem. Não afirma que terá sempre de se fazer o maior bem em todos os aspectos de sua vida e que os fins sempre justificam os meios, que é a afirmação mais forte que o utilitarismo apoiaria.

Na sua opinião, qual é o maior ponto fraco, ou aquele que o Altruísmo Eficaz ignora?

Uau, essa é uma ótima pergunta. [Pausa] Bom, penso que um grande mal-entendido que muitas pessoas no Altruísmo Eficaz têm é o fato de não se considerar como podem ser diferentes os valores de pessoas diferentes. Acho que as pessoas no Altruísmo Eficaz muitas vezes pensam: “Oh, apenas nos limitamos a fazer o maior bem!” e que isso é uma questão meramente técnica.

Mas não costumam perceber que, em nossa análise de como fazer o maior bem, muitas vezes há inúmeros pressupostos éticos e filosóficos a esse propósito, que muitas vezes são largamente bem-estaristas e apenas consideram o bem-estar das pessoas, ao passo que fortes preocupações ambientais seriam desconsideradas. Ou a ideia de que pequenos benefícios para muitas pessoas podem resultar em um grande benefício. Esse tipo de ideia nunca apareceria verdadeiramente no raciocino do Altruísmo Eficaz, e gostaria de ver os altruístas eficazes um pouco mais cientes dos pressupostos éticos que estão usando, apenas para que se entendam as maneiras e razões pelas quais as pessoas possam não concordar com o Altruísmo Eficaz. Acho que é importante não tentar e, portanto, pisar nos sistemas de valores de outras pessoas, para garantir que se esteja a ser adequadamente cauteloso.

Queria saber se poderia nos contar um pouco sobre o seu próximo livro?

Chama-se Moral Uncertainty [Incerteza Moral]. Ainda está em revisão na Oxford University Press. Espero que possa ser lançado no ano que vem, e aborda a questão do que se deve fazer quando não se tem certeza sobre diferentes visões morais — digamos que não tem certeza na escolha entre utilitarismo, kantismo e contratualismo ou, mais especificamente, pensa que é de certa forma plausível que os animais tenham bem-estar, mas não tem realmente certeza disso. Até acha que, provavelmente, talvez não o tenham. A questão é, como agir face a essa incerteza? Temos uma moral muito bem desenvolvida de como fazer isso face à incerteza do que irá acontecer, mas não temos uma boa moral de como fazê-lo quando a incerteza é sobre [quais devem ser nossos valores]. E assim, o livro aborda esse problema, argumenta que deveríamos ver as incertezas empíricas e morais basicamente da mesma maneira, e depois reflete sobre uma variedade de problemas para essa explicação antes de aplicá-la a questões da ética prática.

O que faz para estar informado quanto às notícias?

Prefiro não ler as notícias porque penso que em geral oferecem um ponto de vista muito tendencioso sobre o que é mais importante no mundo. Quando leio as notícias, tende a ser na BBC e às vezes na Vox. […] Todos os dias, os jornais lhe mentem ao dizer: “Isto é o mais importante do que está acontecendo agora”. Se escrevesse um jornal chamado Diário da Realidade, todos os dias teria a mesma capa. Nela constaria que 5 000 crianças estão sendo mortas por mosquitos. Também constaria que, mais uma vez, ainda existem 10 000 ogivas nucleares, muitas das quais estão a postos sem que ninguém faça nada a esse respeito. Mais uma vez, todos os dias, 100 milhões de animais são mortos e torturados desnecessariamente. Seria sempre o mesmo, as mesmas histórias todos os dias.

Se não estivesse no seu emprego atual, o que estaria fazendo?

Eu acho que — duas abordagens muito diferentes — ou seria um empreendedor na área de tecnologia ou um autor, [risos] como um romancista, dependendo do tipo de vida que quisesse. Se quisesse uma vida pacífica, vivendo na natureza, seria romancista. Se quisesse a vida excitante e acelerada, seria um empreendedor na área de tecnologia.

Já pensou em escrever um romance? Muitos ex-filósofos apresentaram suas filosofias por meio da ficção.

Eu poderia pensar sobre isso. Não tenho certeza se sou a melhor pessoa para fazê-lo, mas certamente se olhar para os livros mais influentes de todos os tempos, muitos deles são ficção.

Qual é a pessoa viva que você mais admira?

Não está vivo, mas é o Stanislav Petrov, que desobedeceu ordens e impediu uma guerra nuclear entre a URSS e os EUA.

Que conselho tem para dar a um estudante universitário atual?

Diria que o conselho mais importante é a questão daquilo que fará com a sua carreira. A universidade é um lugar extraordinariamente bom para pensar sobre o que se deve fazer ao longo da nossa vida, por exemplo, qual deve ser o trabalho da nossa vida. É extremamente fraco o investimento das pessoas nesse tópico.

Gastará 80 000 horas trabalhando. Se usar apenas 1% desse tempo pensando em como deve gastar os 99% restantes, serão oitocentas horas. Por isso, se não tiver destinado pelo menos oitocentas horas para tentar descobrir a que deveria dedicar sua vida, provavelmente está a investir muito pouco nessa questão. Assim, meu conselho mais importante seria levar essa questão extremamente a sério. É muito mais importante do que receber ou não mais uma excelente classificação em um de seus cursos.

 


Texto de Joshua Monrad e Sebastian Quaade publicado originalmente no The Politic a 5 de abril de 2018.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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