Não há conflito entre os direitos humanos e os dos animais

Por Ezra Klein (Vox)

Novas pesquisas mostram que a preocupação com o sofrimento não é uma situação de soma-zero.

DireitosHumanos-vs-Animais

Direitos dos animais? E dos humanos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Se você se preocupa com os direitos dos animais, inevitavelmente vai se deparar com um monte de perguntas do tipo: e-quanto-a-isso? [Whataboutism] E quanto aos sem-teto [Pt. sem-abrigo]? Ou o racismo? Ou o sexismo? Por que você está perdendo seu tempo com galinhas quando tantos seres humanos estão sofrendo?

Você se depara com o e-quanto-a-isso em todos os assuntos — o termo em si remonta aos argumentos da Guerra Fria — mas eu verifiquei que é particularmente frequente no caso do sofrimento dos animais. As pessoas estão acostumadas a tecer diferentes comentários sobre o sofrimento humano formando uma única matriz de injustiça. Esse é o sentido de muitas filosofias morais e políticas. Mas o sofrimento dos animais é uma categoria diferente: preocupar-se com os animais, dada a angústia vivida por tantas pessoas, pode parecer, na melhor das hipóteses, prioridades equivocadas e, na pior das hipóteses, um insulto insensível às necessidades da comunidade humana.

O e-quanto-a-isso é uma estratégia retórica destinada a paralisar e não a persuadir. Mas funciona porque se aproveita de um medo real: o de que a compaixão é um recurso de soma-zero e o capital político ainda mais. A energia que gastamos em galinhas é energia roubada da epidemia de opióides.

Novas pesquisas de Yon Soo Park, de Harvard, e Benjamin Valentino, de Dartmouth, testaram diretamente essas preocupações. Em uma metade do estudo, usaram os dados da General Social Survey [Pesquisa Social Geral] para verificar se as pessoas que apoiavam os direitos dos animais eram mais propensas a apoiar uma variedade de direitos humanos, um teste para determinar se a compaixão em abstrato é um recurso de soma-zero. Depois, compararam o quão forte eram as leis de tratamento dos animais em cada estado com o quão forte eram as leis que protegiam os seres humanos, um teste para determinar se o ativismo político é um recurso de soma-zero.

A resposta, em ambos os casos, é que a compaixão parece gerar compaixão. As pessoas que favoreceram fortemente a ajuda do governo para os doentes “apresentavam uma probabilidade superior a 80% quanto a apoiar os direitos dos animais face àqueles que se opunham fortemente a isso”, escrevem os autores. A descoberta manteve-se mesmo após o controle de fatores como a ideologia política. Também havia uma correlação entre o apoio aos direitos dos animais — embora o tamanho do efeito fosse menor — e o apoio a indivíduos LGBT, minorias raciais e étnicas, imigrantes não-autorizados e pessoas de rendimentos baixos.

Por outras palavras, a preocupação com o sofrimento humano parecia alimentar a preocupação com o sofrimento dos animais e vice-versa. É o sofrimento, não a espécie, que importa para muitos.

Da mesma forma, os estados que mais fizeram para proteger os direitos dos animais também fizeram mais para proteger e expandir os direitos humanos. Os estados com fortes leis que protegem os residentes LGBT, fortes proteções contra crimes de ódio e políticas inclusivas para imigrantes sem documentos eram muito mais propensos a ter fortes proteções para os animais. Novamente, esses resultados mantiveram-se mesmo quando se considerava “a dependência econômica da pecuária em cada estado, a ideologia política ao nível estadual, a riqueza per capita do estado, a religiosidade dos residentes do estado e a raça”.

Um sistema político que vê o sofrimento humano e toma medidas, tem mais probabilidade de ser um sistema que veja o sofrimento dos animais e tome medidas, e vice-versa.

Park e Valentino não sabem dizer por que existem essas correlações. Talvez a compaixão seja um músculo e se fortaleça com o uso. Talvez, à medida que nos dispomos a testemunhar injustiças e opressões em uma área, nos tornemos melhores, e não piores, a vê-las em outras. Talvez a organização política necessária para lidar com o sofrimento em uma área construa um sistema político mais capaz de lidar com o sofrimento em outras áreas. Nós estamos, de acordo com o termo do filósofo Peter Singer, “ampliando o círculo da compaixão“.

Mas não há contradição entre se preocupar com uma forma de opressão e se preocupar com outras. Não há sequer uma contradição entre tentar aprovar leis que protegem os direitos dos animais e construir uma cultura política que seja mais favorável à proteção dos direitos humanos também. Compaixão gera compaixão. A resposta, tanto na argumentação quanto na prática, para “e-quanto-a-X?” é “sim, isso também”.


Texto publicado originalmente por Ezra Klein na Vox (Future Perfect), a 21 de agosto de 2019

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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