Uma Carteira de Doação

Investir na bolsa de valores é uma atividade que também lida com alto grau de incerteza. Em vista desse risco, o que os investidores individuais fazem é construir uma carteira de investimentos variada. Assim, eles podem contemplar investimentos mais arriscados nos quais os riscos são maiores mas os lucros, caso ocorram, também, mas sem perder a segurança mais garantida de investimentos mais conservadores, ainda que com ganhos menores. Entre esses dois extremos, é claro, existe uma gama variada de situações intermédias. De qualquer forma, é a partir dessa postura que, na sequência, será construída uma carteira variada de doações.

Dois momentos do Altruísmo Eficaz

Imagine que você tem dois filhos. Jorge tem uma doença grave que o faz precisar de tratamento médico frequente. Ana tem uma inteligência acima da média. Você contempla duas opções. Ir para uma cidade que oferecerá uma melhor qualidade de vida para Jorge mas que não tem um sistema de educação capaz de permitir que Ana desenvolva o seu talento, ou ir para onde Ana terá o máximo de assistência para desenvolver suas capacidades ao passo que Jorge não terá boas condições para viver bem.
Diante desse dilema, se você pensa no presente, a melhor escolha é privilegiar Jorge. Se você pensa no futuro, a escolha parece pender para privilegiar Ana. Essa analogia, dentro de suas limitações, ilustra os estágios diferentes do Altruísmo Eficaz que pretendo discutir na sequência.

Em busca de coerência

Achamos que somos mais coerentes do que somos e, além disso, preferimos seguir tendências de bando do que questionar a sua coerência. Apenas nessa versão simplificada da discussão já temos uma tarefa hercúlea para realizar: diminuir as nossas incoerências com atenção especial àquelas que seguimos por comportamento de bando. Um ponto de partida para isso seria listar as nossas crenças, notar as coerências e incoerências, elencar quais são as mais importantes e tentar agir de maneira coerente com elas. Vamos simular esse procedimento em relação ao altruísmo.

Ajudar como uma obrigação e/ou como uma oportunidade? (3 de 3)

Num primeiro momento vimos alguns conceitos que permeiam a noção moral de obrigação. Em seguida, tratamos da noção de oportunidade. A motivação desses ensaios foi a questão ainda não definida no altruísmo eficaz acerca de como devemos abordá-lo: Seria o altruísmo uma obrigação ou uma oportunidade? Como vimos, ambas as abordagens se encaixam nas práticas dos participantes do movimento. Talvez por isso a maioria declare adotar as duas. No entanto, esse tipo de ecletismo não resolve a questão. Pelo contrário, ele abre mais questões já que a partir disso faz-se necessário definir quais pontos das duas abordagens serão adotados e como eles se relacionarão.

Ajudar como uma obrigação e/ou como uma oportunidade? (2 de 3)

No altruísmo eficaz há uma certa questão em aberto se o altruísmo deve ser visto como uma obrigação ou uma oportunidade. Na primeira postagem discutimos alguns conceitos centrais à noção de obrigação e começamos a pensá-los a partir da posição do altruísmo eficaz. Agora é a vez de fazer o mesmo para a oportunidade. A terceira etapa será uma conclusão a partir das lições extraídas da reflexão anterior.

Ajudar como uma obrigação e/ou como uma oportunidade? (1 de 3)

Há uma variação entre ver o altruísmo eficaz como uma oportunidade ou uma obrigação de ajudar. No censo de 2015 34% consideravam-no como uma oportunidade, 21% como uma obrigação e 42% como ambos. Nessa série de três artigos vamos explorar mais a fundo algumas características das noções de obrigação e da oportunidade em vista da doação e ajuda de terceiros. Nos dois primeiros artigos vamos nos concentrar nas noções de obrigação e oportunidade, respectivamente. As conclusões reunidas nessas etapas fomentarão a reflexão final sobre encarar o altruísmo como uma obrigação e/ou oportunidade.

Sobre a obrigação de doar

O artigo Famine, Afluence and Morality (Fome, Riqueza e Moralidade, de 1972) foi muito influente no altruísmo eficaz. Nele, Peter Singer apresenta o famoso experimento mental da criança no lago. Outro texto muito importante para a fundamentação do movimento foi o livro Living High and Letting Die (Vivendo no Luxo e Deixando Morrer, de 1996).…