Notícias positivas, negativas e/ ou informativas?

Por Celso Vieira

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Notícias negativas ou positivas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

Não é preciso ser um observador muito atento para notar como a grande maioria das notícias que circulam são negativas. Um dos fatores dessa desproporção, com certeza, é que a comunicação, desde a fofoca até à grande mídia, e, portanto, as mídias eletrônicas sociais que mesclam as duas, se aproveitam do que é chamado de viés da negatividade, a saber, a nossa tendência a dar mais saliência ao que é negativo. Essa tendência, e o seu uso pelos meios de comunicação, fica ainda mais evidente nas retrospectivas de notícias tão comuns ao fim de cada ano.

Em vista dessa desproporção, também já se tornou padrão reagir contra essa tendência. Assim, vários canais de comunicação se propõem a divulgar notícias positivas e, as suas retrospectivas, é claro, seguem essa proposta. Essa postura e as suas listas positivas são especialmente populares entre altruístas. Na sequência apresento uma breve análise dos problemas de se focalizar em notícias negativas ou de se especializar em notícias positivas.

Declinismo

Historiadores chamam de declinismo quando a tendência para a negatividade é colocada em uma linha do tempo que começa com lembranças positivas de um passado perdido e se precipita rumo a um cataclismo em um futuro anunciado. Uma exposição diária a notícias negativas e o seu compêndio ao fim do ano formam o cenário ideal para a proliferação do declinismo.

Segundo Adelman, as pessoas ou grupos de pessoas que partilham uma visão declinista do futuro próximo “ignoram sinais de melhoria que aponta para saídas menos drásticas de situações problemáticas. Os declinistas têm um ponto cego porque são atraídos por alternativas desafiadoras, totais, e completas ao invés da monótona falta de graça das soluções modestas”.

Sob o paradigma da seleção natural, faz sentido que tomemos decisões muito diferentes das usuais e mais radicais quando sentimos que há uma ameaça iminente às nossas vidas. Porém, essas decisões são, por definição, inadequadas para qualquer problema de médio e longo prazo. A falha do declinismo é devida a nos colocar no estado interno de uma ameaça iminente quando tomamos decisões que influenciarão nossos comportamentos diários em vista do médio e longo prazo. Tanto um coelho que corre em velocidade de fuga, quanto um cão que salta em impulsão de ataque por um tempo mais alongado, ambos acabarão esgotados. Devemos saber quais são as emoções que compõem esses estados internos extremados e como eles afetam as nossas decisões.

Medo e raiva

A emoção mais prevalente em um cenário de ameaça iminente é o medo.

O medo, por certo, é persuasivo. Pesquisas realizadas na área da saúde demonstram uma relação entre pacientes sentirem medo e seguirem mais as prescrições médicas, ainda que haja sutilezas. Por outro lado, o medo interfere na nossa tomada de decisão de uma maneira negativa. Em uma pesquisa feita no contexto do mercado de ações, os estudiosos constataram que quando a percepção dos tomadores de decisão era de que apenas eles estavam com medo, não havia variação nas suas decisões. Porém, quando a percepção era de que o medo era geral, eles tomavam decisões precipitadas que acabavam gerando resultados subótimos.

Esse comportamento é especialmente importante em vista das notícias ruins, retrospectivas cataclísmicas e a sua potencialização proporcionada pelas mídias sociais. Afinal de contas, a adição desses elementos gera um efeito de escalonamento em que cada indivíduo terá a impressão de que os outros estão mais desesperados do que realmente estão. Isso acaba os tornando mais desesperados do que estavam e a consequência será uma avalanche de decisões e ações ruins.

O meu plano era escrever apenas sobre os efeitos do medo nas nossas decisões, porém, durante a pesquisa, acabei me confrontando com informação sobre a raiva que, ao que tudo indica, tem um papel potencialmente mais nocivo.

Em uma comparação acerca das decisões éticas, viu-se que a raiva nos faz tomar decisões menos éticas ao passo que o medo não interfere negativamente. Um júri de tribunal com raiva, outro estudo comprovou, demonstra uma propensão muito maior de condenar as pessoas à morte. Por fim, pessoas com raiva atribuem menos riscos às suas decisões, o que aumenta a sua certeza e ímpeto de endossar soluções mais radicais.

Parece não haver receita pior para um resultado negativo do que estar errado e ter certeza de estar do lado da razão a ponto de tomar decisões extremas.

Antídoto

Em vista do cenário acima, percebe-se a necessidade de haver agentes midiáticos que não se aproveitem da nossa atração pelo negativo, da persuasão do medo e do ímpeto da raiva. Uma das soluções é o compromisso de noticiar acontecimentos positivos. Essa atitude parece estar bem alinhada com o Altruísmo Eficaz.

Uma boa fonte anglófona de boas notícias é a Future Crunch. Foi uma experiência que tive com eles que me motivou a pensar mais sobre privilegiar notícias positivas como uma decisão editorial.

Estudo de Caso

Como era de se esperar, a Future Crunch fez uma postagem de fim de ano celebrando as “99 boas novas que você não ouviu em 2019”. O artigo fez sucesso e circulou pelas redes altruístas sendo compartilhado, por exemplo, por Steven Pinker. Espero que o leitor clique no link e, assim, obtenha uma dose de esperança e, ainda mais, o ímpeto para ajudar alguns desses projetos positivos. Porém, na sequência, meu dever de ensaísta será o de comentar os problemas.

Enquanto eu percorria a lista, cheguei ao número 51, onde se lê:

Um novo relatório sobre a performance social de 149 países nos últimos 5 anos, usando indicadores como nutrição, abrigo, segurança, educação, saúde, direitos e inclusão social, informou que apenas quatro países regrediram, no geral, desde 2014.

Pleno de otimismo e, porque não, ávido para comprovar as minhas intuições, eu segui o link para ler o tal artigo. Eis os tópicos que resumem a notícia:

  • Os novos dados revelam que o mundo está com uma performance insuficiente em 8 das 12 maiores seções do índice de progresso social (IPS).
  • Baseado nesses dados, o IPS prevê que o mundo, se seguir tais tendências, não vai alcançar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos para 2030, antes de 2073.
  • Os EUA é um dos 4 países no mundo que regrediram, no geral, na sua pontuação desde 2014.

Fica evidente que este enquadramento é pessimista. É claro que os dados dão informação para um enquadramento tanto positivo (está melhorando) quanto negativo (não está melhorando o suficiente). Porém, fica claro que o enquadramento positivo, nesse caso, é especialmente não-informativo. Por exemplo, o país que tem muitos leitores deste site de notícias, os EUA, é um dos países em que houve regressão e a Future Crunch nem sequer mencionou isso. Independentemente das particularidades desse exemplo, fica o alerta de que tomar unicamente um enquadramento positivo como decisão editorial talvez não seja o melhor caminho.

Enquanto eu estava finalizando esse ensaio recebi o último boletim da Future Crunch. Eles abriram o texto pedindo desculpas antecipadas. Eles haviam planejado escrever uma postagem listando o progresso fantástico que ocorreu nas vacinas na década passada. No entanto, em vista dos incêndios da Austrália, eles não puderam seguir a linha editorial otimista. Cito algumas linhas que confirmam a reflexão anterior:

A diferença entre otimismo inteligente e otimismo cego é que o primeiro requer que testemunhemos tanto o bom e o mau, e que façamos algo sobre isso.

Balanço

No fim das contas, parece que o compromisso com o rigor da informação deve prevalecer sobre uma escolha editorial exclusivamente positiva ou negativa. Isso porque, mesmo no caso de notícias positivas, em vista da complexidade dos problemas abordados é difícil que não hajam ressalvas. Alimentar o leitor só com notícias positivas parece ser uma postura hedonista além da conta. Porém, a reflexão ainda nos fornece bases para algumas prescrições úteis:

Menos-medo: Ao veicular uma notícia negativa convém tomar cuidado para não escalonar o medo além da conta.

Anti-raiva: No caso de notícias negativas, não se deve incitar a raiva.

Isso porque, o que temos quando se focaliza no medo e na raiva é uma profecia auto-realizadora. A notícia cria uma impressão de medo ou raiva nos leitores ao dar uma impressão exagerada de medo ou raiva. No entanto, o que é desejável no caso desse tipo de notícia é uma profecia auto-sabotadora, ou seja, uma notícia que leve a atitudes que assegurem que os resultados negativos não se realizam ou se perpetuam.

Isso é especialmente importante no contexto atual. O que ficou conhecido como fake news, em um parcela relevante dos casos, não se trata de notícias falsas, mas antes de notícias descontextualizadas que acabam enganando o leitor. Raiva e medo são persuasivos. Enquadramentos que os privilegiem, por certo, pertencem a esse tipo de engano.

Esses alertas específicos sobre como lidar com a negatividade não devem se transformar em um veto total seja de notícias ruins seja de lados ruins de notícias complexas. Ainda que, em vista da prevalência do negativo, se justifique uma ênfase na seleção de notícias positivas, o compromisso mais fundamental deve ser de apresentar uma notícia que toque e comunique as complexidades da situação apresentada.

Uma Nota Autocrítica

Vivemos em mares de crítica e escassez de autocrítica, então faz sentido inserir mais um tópico. O AE, afinal de contas, tem como postura o esforço consciente de tentar sempre reexaminar as suas posições. Um exemplo de uso nuançado e cuidadoso face aos perigos de uma informação tendenciosa no AE parece ser o campo dos riscos existenciais. Nessa área, fica claro que se identificam perigos que são negligenciados pelas outras áreas. No entanto, os caminhos apontados por esse tipo de informação indicam uma mudança com resultados positivos que pode servir de exemplo.

Por outro lado, acho que o mesmo não pode ser dito com relação à pobreza (e desenvolvimento social). Do jeito que os dados sobre a queda da pobreza são veiculados, fica a impressão de que um esforço para um enquadramento mais positivo prevalece sobre uma comunicação mais informativa.

Por exemplo, seguindo uma postagem mais informativa do Center For Global Development (CGD), esta esclarece que normalmente não se enfatiza como as métricas e escolhas metodológicas importam ao se identificar as tendências. Em geral, se usa como medida da pobreza extrema o rendimento de 1,90 dólares por dia, o que é excessivamente baixo. Há quem defenda que uma métrica mais realista ficaria por volta de 7,40 dólares por dia. Quando se usa a métrica baixa, conclui-se que o número dos hiperpobres caiu, mas segundo a métrica mais alta, o número dos muito pobres aumentou. Na verdade, o simples fato de reduzir pobreza a rendimento pode ser inadequado, uma vez que parece mais condizente tratá-la como algo multidimensional. De qualquer maneira, se seguirmos a tendência recente, nem sequer com a métrica de 1,90 dólares por dia se conseguirá pôr fim à pobreza até 2030, a data limite dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. Portanto, há muito espaço para melhoria e a reflexão acima pode ajudar na comunicação.


Texto de Celso Vieira.

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