Uma instituição de caridade americana fez algo radical: perguntou aos destinatários para onde deveria ir o dinheiro

Por Dylan Matthews (Vox)

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Pesos Morais: o dinheiro ou a vida? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

O projecto “pesos morais” da GiveWell mudou a forma como a organização recomenda as principais instituições de caridade.

Caso faça doações para instituições de caridade, está implicitamente a fazer muitas escolhas difíceis sobre “pesos morais”.

A par do dinheiro do dia-a-dia que gasta consigo mesmo e com os seus entes queridos, 1000 dólares que doa para um museu de arte são 1000 dólares que poderia doar para pesquisas médicas, prevenção da malária, organizações de distribuição de alimentos, ou para a universidade onde se formou. Algumas das decisões que precisamos tomar sobre o destino dos donativos têm a ver com a eficiência: quantas pessoas alimenta esta organização de distribuição de alimentos com 1000 dólares, em comparação com outra organização? Quantas vidas uma instituição de caridade contra a malária pode salvar em comparação com uma instituição de caridade que combate o cancro [Br. câncer]?

A GiveWell, a avaliadora de instituições de caridade que direcionou 519 milhões de dólares para as suas instituições de caridade preferidas, ao longo dos anos 2010, tem que tomar essas decisões em grande escala. Em grande parte, as instituições de caridade recomendadas fazem uma de duas coisas: por um lado, como é o caso da Malaria Consortium, ou se concentram em salvar vidas ou, como é o caso da GiveDirectly, concentram-se em aumentar o rendimento das pessoas nos países pobres. E a GiveWell não está sozinha; outros grupos como a Organização Mundial da Saúde também precisam de tomar esse tipo de decisões nas suas pesquisas sobre o custo-eficácia.

A GiveWell acabou de divulgar uma pesquisa, realizada pelo grupo IDInsight, com residentes extremamente pobres, no Gana e no Quénia, que provavelmente irão beneficiar de programas como os que são realizados pelas principais instituições de caridade da GiveWell. A pesquisa teve como objectivo fornecer informações sobre como pesar salvar vidas versus reduzir a pobreza, de maneira a reflectir os valores dos beneficiários da instituição, e não apenas os valores da sua equipa.

Que me lembre é a primeira vez que uma grande organização de caridade sediada num país desenvolvido, mas que se concentra principalmente em pessoas nos países em desenvolvimento, procurou a contribuição dos seus beneficiários de maneira tão sistemática. Isto tem o potencial de alterar não apenas as recomendações da GiveWell, mas também a forma como toda uma variedade de grupos de ajuda internacional toma decisões sobre o destino do seu dinheiro.

O desafio da GiveWell: pesar dinheiro vs. vidas

Aqui está o problema que a GiveWell enfrenta: precisa estabelecer prioridades entre todas as instituições de caridade que avalia e deve fazê-lo mesmo que essas instituições façam coisas muito diferentes. Por exemplo, há muito tempo que apoia os esforços contra a malária por meio de grupos como a Against Malaria Foundation, que ajuda a distribuir mosquiteiros. As campanhas de distribuição de mosquiteiros podem salvar milhares de vidas: A GiveWell estima que 100 000 dólares gastos na Against Malaria devem salvar cerca de 43 vidas, e foram direccionados milhões e milhões de dólares para este grupo e outros grupos igualmente eficazes, ao longo dos anos.

Mas a GiveWell também precisa de pesar estas instituições de caridade face a instituições de caridade que não estão a tentar salvar vidas e que não têm uma avaliação melhor na tentativa de salvar vidas. Algumas das suas instituições de caridade recomendadas, como a Deworm the World e as outras três instituições de caridade principais da GiveWell que implementam programas de desparasitação, são instituições de saúde pública que a GiveWell apoia em grande medida porque acredita que estas aumentam o rendimento nos países pobres. Programas de desparasitação previnem doenças dolorosas em crianças pequenas, mas também, de acordo com alguns estudos, aumentam o rendimento a longo prazo, talvez ao melhorar a capacidade de aprendizagem das crianças.

Então, como se avalia isso face a salvar vidas ao prevenir a malária? Bem, depende do peso que se coloca num rendimento adicional versus salvar uma vida. Durante anos, os funcionários da GiveWell têm-se debatido com a questão de que pesos hierarquizar na grande tabela que usam para classificar instituições de caridade, porque essas são perguntas fundamentais e difíceis. No passado, normalmente tinham funcionários que colocavam os seus próprios valores morais e, em seguida, usavam a resposta mediana como base para as suas recomendações oficiais.

Por exemplo, considere esta tabela dos funcionários da GiveWell que compara os seus pesos morais no início de 2019. Os fundadores Elie Hassenfeld e Holden Karnofsky estimaram que salvar a vida de uma criança com menos de 5 anos vale cerca de 50 vezes mais do que duplicar o consumo de uma pessoa pobre por um ano; mas, embora Elie pensasse que salvar uma criança com menos de cinco anos era cerca da metade do valor de salvar uma com mais de cinco anos, Holden pensava que era cerca de um terço desse valor. A analista de pesquisa Nicole Zok atribuiu um peso igual a essas vidas, enquanto que o ex-analista de pesquisa sénior, Amar Radia, achou que salvar vidas abaixo dos 5 anos era mais valioso.

Estas são realmente decisões difíceis de tomar a nível racional e emocional, que inevitavelmente se resumem a questões profundas da moralidade pessoal. Mas estas são necessárias se a GiveWell for comparar rigorosamente instituições de caridade que salvam vidas face a instituições de caridade que reduzam a pobreza.

“Vários funcionários da GiveWell valorizaram mais as vidas acima dos 5 anos por vários motivos. Isso incluiu pontos de vista de que os indivíduos mais velhos têm maior probabilidade de serem cuidadores da sua família ou podem estar a fazer contribuições económicas importantes para a comunidade”, diz Catherine Hollander, analista de pesquisa sénior da GiveWell, que trabalha em divulgação.

A GiveWell usou a estimativa mediana dessas e de outras informações da equipa, mas estavam a trabalhar com informações limitadas. “Havia pouca informação disponível sobre as preferências das pessoas nos contextos em que as nossas principais instituições de caridade estavam a trabalhar”, diz Hollander. “Parecia informação que valia a pena reunir para informar as nossas opiniões, embora, devido às limitações dessa pesquisa e das pesquisas sobre pesos morais em geral, possamos esperar que as opiniões da equipa variem quanto ao grau de actualização tendo como base estes resultados”.

Como calcular o valor monetário de uma vida

As agências reguladoras dos EUA geralmente usam um método diferente, conhecido como “valor de uma vida estatística”. Popularizada pelo economista de Vanderbilt, Kip Viscusi, esta metodologia envolve a tentativa de discernir o valor implícito que as pessoas de uma determinada sociedade atribuem a continuar a viver com base na vontade de pagar por serviços que reduzam o seu risco de morrer.

Geralmente, isso envolve uma abordagem de “preferências reveladas”. Um artigo de 2018 de Viscusi, por exemplo, usou entre outras fontes de dados o Bureau of Labor Statistics Census of Fatal Occupational Lesions, para medir, na prática, quanto é que os trabalhadores norte-americanos exigem ser pagos a mais para aceitarem empregos com maior risco de morte.

Essa abordagem é útil ao considerar os custos e os benefícios da regulamentação, mas possui desvantagens significativas, especialmente se estivermos a comparar entre países, como a GiveWell faz. Por um lado, as abordagens de preferências reveladas, baseadas em decisões de gastos reais, geralmente implicam que o valor de uma vida estatística seja maior nos países ricos do que nos países pobres. É assim pela simples razão de que as pessoas nos EUA têm muito mais dinheiro para evitar a morte do que as pessoas no Quénia. Isso aparece nos dados, pois os quenianos exibem uma menor “disposição de pagar” para não morrer, mas isso reflecte principalmente a desigualdade económica, e não que os quenianos valorizem menos as suas vidas.

De facto, um estudo de 2011 do recente vencedor do Nobel, Michael Kremer e outros, calculou um valor extremamente baixo, e possivelmente implausível, de uma vida estatística no Quénia, usando uma abordagem de preferências reveladas, que provavelmente é o resultado desse problema com o método.

A abordagem das preferências reveladas também pressupõe implicitamente um grau de racionalidade e capacidade de agir na escolha da carreira que pode não estar presente na realidade. Talvez as pessoas tenham apenas uma pequena ideia dos riscos de fatalidade de um determinado emprego, e talvez o mercado de trabalho não tenha uma oferta suficiente para que tenham realmente uma escolha de empregos e apenas aceitem o primeiro que estiver disponível.

A abordagem da GiveWell

Portanto, quando a GiveWell apoiou um projeto da organização sem fins lucrativos IDInsight para reunir dados para informar um novo conjunto de pesos morais que pudesse reflectir melhor as preferências das pessoas que provavelmente receberiam os serviços das instituições de caridade, optaram por usar pesquisas, e não preferências reveladas com base nos gastos. A IDInsight experimentou realmente uma abordagem de preferências reveladas antes de concluir que o método não estava realmente a funcionar nesse contexto.

Usaram duas abordagens diferentes. Uma tentou calcular o valor de uma vida estatística ao perguntar quanto é que os residentes estariam dispostos a pagar por uma vacina ou medicamento hipotético. Aqui está como a IDInsight explica a pergunta:

  1. Apresente o cenário aos entrevistados no qual estes devem imaginar que uma doença hipotética está a afectar a sua comunidade. O risco de morrer dessa doença é de 20 em 1000.
  2. Introduza no cenário a vacina/medicamento (aleatório) que trata essa doença e reduz esse risco de 20 em 1000 para 15 em 1000 ou 10 em 1000 (aleatório) nos próximos 10 anos.
  3. Registe a disposição dos entrevistados de pagar por esta vacina/medicamento. São informados que podem pagar em pequenas parcelas à sua escolha ao longo dos 10 anos da redução do risco.

A IDInsight usou uma variedade de recursos visuais para garantir que o exemplo fosse claro e questionou os entrevistados para garantir que estes entendiam antes de responder.

Na segunda abordagem, a empresa colocou questões mais directas sobre quais seriam os benefícios que estes prefeririam receber, por exemplo, “O Programa A salva a vida de 6 crianças de 0 a 5 anos e dá 1000 dólares em transferências de dinheiro a 5 famílias. O Programa B salva a vida de 5 crianças de 0 a 5 anos e dá 1000 dólares em transferências de dinheiro a [X] famílias. Qual destas escolheria?”; a pesquisa variou o valor de “X” para ver em que momento o dinheiro começava a ganhar.

Ambas as abordagens acabaram por estimar valores mais altos para salvar vidas em relação ao aumento do rendimento ou do consumo, especialmente para salvar vidas de crianças menores de 5 anos, do que os valores que as sondagens da GiveWell à sua equipa implicavam. Os entrevistados quenianos e ganeses atribuíram um valor muito alto a salvar vidas, principalmente as de crianças pequenas, e um valor significativamente mais baixo ao aumento do consumo e do rendimento.

Em resposta a estas pesquisas, a GiveWell anunciou que está a mudar os seus pesos de modo a reflectir o que os entrevistados disseram, bem como para incorporar argumentos adicionais em favor da valorização da saúde. Em Agosto de 2019, a GiveWell considerava o peso de evitar a morte de alguém com menos de 5 anos como sendo 48 vezes o valor da duplicação do consumo, e evitar a morte de alguém com mais de 5 anos como sendo 85 vezes esse valor. Em Novembro de 2019, passaram a atribuir um peso igual às vidas, 100 vezes o valor da duplicação do consumo.

“Os pesos morais parecem ser um tópico de pesquisa altamente negligenciado”, escreve a GiveWell na sua publicação sobre a pesquisa. Enfatizam que os novos dados são muito preliminares e que uma abordagem de preferências declaradas tem desvantagens, assim como a abordagem de preferências reveladas. Exige que os entrevistados tenham um forte entendimento das probabilidades e é influenciado pelo viés da conveniência social: os entrevistados podem achar que não podem dizer que prefeririam duplicar o consumo para um determinado número de pessoas em vez de salvar uma vida, porque parece insensível.

A GiveWell quer muito mais pesquisas empíricas nos países pobres, mais pesquisas que melhorem o valor da vida estatística como constructo analítico para torná-lo mais robusto e querem mais trabalho filosófico sobre como deve funcionar a ponderação de pesos morais.

Mas tenho muita confiança neles. Nunca ouvi falar de uma grande instituição de caridade ocidental que sirva principalmente pessoas em países pobres, como a Heifer International, ou UNICEF, ou os Médicos sem Fronteiras, que tivesse realizado estudos rigorosos para incorporar a opinião das pessoas que é suposto ajudarem. É uma abordagem tecnocrática, mas também profundamente democrática, que dá aos destinatários uma voz forte na prestação da caridade, que estes não tinham antes.


Publicado por Dylan Matthews na Vox, a 20 de Dezembro de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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