Escondido no compartimento de bagagem

Navio a afundar (imagem da Wikipédia)

(1) Imagine um navio que sai do porto com 100 passageiros. A sua capacidade de carga é de 10.000 kg. Se a distribuição fosse igualitária, cada passageiro poderia trazer 100 kg em bagagens, mas as coisas não são assim. As bagagens do passageiro mais exagerado somam 4.000 kg. Os 31 passageiros medianos carregam 5.700 kg ou 184 kg cada um. Por fim, temos os outros 68 passageiros que não carregam quase nada, 0,300 kg. Ao longo da viagem, estes 68 percebem que não terão o suficiente para sobreviver muito tempo e começam a oferecer serviços aos outros. Os medianos concordam, mas como não querem abrir mão dos seus bens, eles pagam pelos serviços com tickets que serão trocados no próximo porto. A troca de tickets aumenta a bagagem do navio de maneira gradual. Ele começa a afundar, mas ninguém percebe. O processo está mascarado pelo subir e descer das ondas.

(2) Os passageiros inicialmente sem bagagem que atingem a média de 184 kg param de prestar serviço e passam a consumir. No próximo porto eles convidam mais passageiros sem bagagem. Quando o nível de afundamento do navio fica mais evidente, as pessoas logo culpam os novos passageiros, sem pensar nas bagagens. A verdade é que apenas o peso adicionado à bagagem dos 68 passageiros que começaram praticamente sem bagagem somou 12.521 kg. Isso é mais do que o navio poderia suportar, mesmo que não existissem o exagerado e os medianos (e independente dos sem bagagem que entraram depois).

(3) Diante disso, uns começam a defender que não se admitirá mais ninguém no navio e que, se possível, alguns deveriam sair. Outros se esforçam para desenvolver uma tecnologia que aumente a capacidade de carga do navio. Um dia, quando o navio afunda de vez, apenas os mais ricos e influentes compram lugares nos botes salva-vidas e escapam do destino funesto.

Esta imagem em 3 etapas é para mostrar que o caminho para uma sociedade igualitária não passa apenas pela proposta de nivelar todos pelo que, hoje em dia, achamos que é o mediano. Vamos precisar sua pertinência com alguns dados: Sobre a parte (1) Somos 7 bilhões [Pt. 7 mil milhões] de pessoas que emitem 46 bilhões [Pt. 46 mil milhões] de toneladas métricas de gás carbônico por ano (dados de 2010 do World Resources Institute). Se a divisão fosse igualitária cada pessoa seria responsável por 4 toneladas anuais. Na verdade, uma pessoa afluente (classe média) emite 11 toneladas ao ano. Um americano emite (gráfico) 20 toneladas e um chinês 3. O IPCC (Painel Intergovernamental Sobre a Mudança Climática) estima que se tudo continuar como está agora a temperatura do planeta aumentará 2° até 2030 (gráfico). As consequências catastróficas projetadas são conhecidas e anunciadas: derretimento de geleiras, inundação de costas e ilhas, pausa das correntes marítimas e, etc… Uma mudança deste destino que seja alcançável defende que 2 toneladas ao ano por pessoa é uma quantia sustentável. Ou seja, a média global tem que cair pela metade e a média afluente tem que cair 80%. O mediano está longe do ideal.

O que a ilustração do navio baseada nos dados mostra é que, mesmo se enquanto sociedade nós atingíssemos um nivelamento embasado no que consideramos o mediano, o planeta não suportaria. Curto e grosso, nosso estilo de vida afluente, em um mundo de recursos escassos, depende da miséria dos pobres. Desse modo, um quadro (um tanto utópico) como (2) no qual o crescimento econômico dos países subdesenvolvidos vai acabar com a pobreza do mundo não é desejável (numa análise malthusiana). Seria preciso (3) ou reduzir o que é o médio ou inventar uma tecnologia que faça o navio suportar mais peso.

Na verdade (2) é uma possibilidade utópica porque, apesar da eficácia comprovada de intervenções humanitárias em situações de extrema pobreza, o mundo tem se desenvolvido, intensificando a polarização na qual os mais ricos ficam ainda mais ricos e os mais pobres tornam-se mais numerosos. De 1988 a 2008 a renda dos 5% mais ricos da população aumentou e a dos 20% mais pobres diminuiu (pdf). Além disso, também a alegada redução do número de pessoas em pobreza absoluta parece ser, no mínimo, questionável, já que se deve um pouco à manipulação de dados e critérios.

É verdade que o desenvolvimento está se alastrando e reduz a pobreza. Nos anos 1950 mais da metade da população vivia em pobreza extrema (com menos de 1,25$ por dia), hoje o número caiu pela metade. O fator mais responsável pela redução da pobreza no mundo recente foi o crescimento da China, responsável por ¾ da redução. Há duas décadas 84% dos chineses estavam abaixo da linha da pobreza, hoje são apenas 10%. O lado negativo dessa melhora é que, quando alguém sai da pobreza, junto com os benefícios que eles recebem, aumentam também as externalidades geradas por este novo estilo de vida. A China, por exemplo, se tornou nesse período a terceira região (mas a última informação disponível é de 1994!) que mais emite gás carbônico no planeta, atrás dos EUA e UE. Além disso, a uma taxa de crescimento de 2%, ainda alta, mas diferente da China, os países pobres precisariam de 35 anos para dobrar a renda dos que vivem em pobreza extrema. Não só é muito tempo como ainda, nesse intervalo, os medianos também dobrariam sua renda e consumo (já 30 vezes maior). Portanto, mesmo que o desenvolvimento econômico se alastre por todo o mundo, as consequências parecem mais próximas de distopia do que de utopia.

Quem vê na imagem do navio um quadro malthusiano (e não está de todo enganado) tende a agir como os primeiros passageiros em (3), culpando os que entraram depois pela insustentabilidade da situação sem olhar para a mochila que carregam nas costas. É assim que surge a crítica à superpopulação que reverbera no tema da ajuda internacional. Em um mundo superpovoado com 7 bilhões [Pt. 7 mil milhões] de pessoas no qual os pobres são responsáveis por maior parte desse crescimento, muitos defendem que ajudá-los só seria justificável se fosse no sentido de planejamento familiar. Porém, quem pensa assim ignora que, na verdade, o responsável pela insustentabilidade do modo de vida dos humanos não é o aumento no número de pessoas, mas o aumento do consumo de recursos naturais por uma pequena parte da população. Em termos mais pessoais, é o filho único de um casal afluente (classe média) que vai consumir 11 toneladas de gás carbônico ao ano e não os 6 filhos de pais em pobreza extrema que consomem menos de uma tonelada. Compare (gráfico 2) as 21.6 toneladas do luxemburguês com a 1.1 do indiano. Nesta perspectiva, para combater o aquecimento global, em vez de distribuir preservativos aos outros pense em parar de comer carne, andar de avião, carro e, etc. Enfim, a imagem é malthusiana no sentido de prever um futuro insustentável, mas se diferencia ao atribuir mais responsabilidade ao estilo de vida médio do que à quantidade de pessoas.

Esta distinção de responsabilidade, no entanto, não altera em nada o principal contra-argumento a qualquer posição malthusiana. Este tipo de crítica ignoraria a evolução tecnológica que permite evitar as situações insustentáveis que aparece em (3) na corrida tecnológica por aumentar a capacidade de carga do navio. O cálculo original de Malthus (wikip) era que se a população continuasse crescendo na razão que crescia a certa altura não haveria comida suficiente para todos. Hoje em dia, no entanto, a população cresce ainda mais rápido e há (em quantidade) comida para todos. Isto acontece graças à chamada ‘revolução verde’ que, com uso da ciência, aumentou em muito a capacidade de produção de alimento por m² no planeta. Mesmo não tendo se concretizado, o cálculo de Malthus ou do aquecimento global continua correto porque ele mostrava o que aconteceria se as coisas continuassem como estavam. Por outro lado, o caso contingente de que se desenvolveu uma tecnologia para o problema do alimento em nada garante que se desenvolverá uma solução para o aquecimento global. E mais, a solução contingente provavelmente só aconteceu porque a previsão pessimista foi aceita como real.

Uma análise retroativa desse caso histórico revela algo ainda mais importante. Graças à revolução verde temos comida suficiente para todos (sem entrar na questão dos efeitos colaterais à saúde e ao solo de algumas destas intervenções). Mesmo assim, uma grande parte da população ainda passa fome. Isto é uma prova de que a tecnologia pode até fornecer os meios, mas sozinha não vai resolver o problema. Resolver a ameaça do aquecimento global com uma solução tecnológica ainda nos soa como ficção científica, mas isso não é argumento contra sua probabilidade. A colonização de outro planeta, por exemplo, por certo implicará na seleção de alguns indivíduos de poucas espécies que sobreviverão como os passageiros ricos que ocuparam os botes escassos em (3). Desse modo, ainda que continue sendo justificável a busca por soluções tecnológicas, parece que a maneira mais ética (ou igualitária) de atacar o problema passa por uma redução no consumo e melhor distribuição de uso de recursos naturais que o desenvolvimento e crescimento econômico exigem.
Texto da autoria de Celso Vieira
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