Vieses cognitivos a serem evitados

Mente pensante | pixabay.com

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O que é um viés cognitivo?

Um viés cognitivo é uma maneira sistemática (automática) que temos de pensar errado. Como eles estão introjetados no nosso modo de agir é bem difícil de evitá-los. Por isso é importante estar sempre atento à maneira como erramos a fim de, a cada vez, evitarmos o erro.
Uma boa analogia para entender é o da ilusão de ótica. Veja o exemplo abaixo:
ilusao
Os retângulos do meio têm a mesma cor, mas, dependendo do entorno elas parecem ser diferentes. Mesmo depois de identificarmos que se trata de uma ilusão de ótica, continuamos ‘vendo’ cores diferentes. Com os vieses cognitivos é a mesma coisa, e o primeiro passo para superá-los é saber que eles existem. Como escreveu Chekhov “o ser humano vai melhorar se souber como ele na verdade é”.

Lista de Vieses (em progresso e aleatória):

Viés do Status Quo:

1) Você concorda que 10% do seu imposto de renda seja revertido em forma de doação a uma ONG séria? A resposta geralmente é afirmativa.
2) Você concorda em doar 1% da sua renda a uma ONG séria. Aí já é mais difícil de concordar, e, ainda mais, de começar a fazer.

O problema pode estar no viés do status quo, que é a tendência inconsciente de preferir que as coisas fiquem como estão. Você já cresce acostumado a pagar imposto, mas para doar uma parte da sua renda é preciso mudar de concepção. Isso é difícil. O viés é explicável pois, na falta de informação, é mesmo mais seguro manter as coisas como estão (se elas não causam sofrimento). Por outro lado ele é problemático porque essa opção pela segurança acaba impedindo melhoramentos.

Um pouco de perspectiva histórica mostra o quanto é necessário superar o status quo. A escravidão, que hoje abominamos (ainda que não tenha sido totalmente extinta), por exemplo, durante grande parte da história da humanidade, e em várias culturas, foi aceita.


Viés da confirmação:

1) Algumas pessoas aproveitam as redes de prevenção ao mosquito da malária distribuídas gratuitamente para usar na pesca em vez de se proteger.
2) A cobrança de uma taxa ínfima pelos mosquiteiros anti-malária reduz significativamente o seu uso.
Se você tem a crença comum de que a gente não valoriza o que vem de graça provavelmente vê na primeira opção uma confirmação de que sua opinião está correta. Com isso ignora a diferença entre as duas frases indicada por ‘algumas‘ no primeiro caso e ‘significativamente‘ no segundo. Isso pode ser um problema do viés da confirmação que é a tendência em processar apenas as informações que servem para confirmar nosso ponto de vista.

As consequências são graves. Pesquisas provam que cobrar por essas redes reduziram seu uso em 60%. Ainda mais no caso da malária, no qual quem não usa a rede prejudica não apenas a si, mas a todos os vizinhos, já que o contaminado picado por outros mosquitos acaba virando uma fonte de propagação da doença.


Heurística da disponibilidade:

1) Tente se lembrar de três cidades atingidas por atentados terroristas. Fácil, né?
2) Agora tente nomear três países da região do Sahel que sofrem com a maior crise de comida da atualidade. Mais difícil, né?
A heurística da disponibilidade é a ilusão de achar que a informação que a gente tem disponível é mais relevante. O número de mortes dos atentados terroristas que fazem tanto escarcéu na imprensa são pouco significativos se comparados com os 18 milhões de pessoas afetadas pela crise de comida no Sahel.
Relacionada a esta heurística está a cascata da disponibilidade, que é a estratégia de repetir uma coisa tanto até ela ‘virar’ verdade. Por isso o terrorismo é visto como um dos problemas mais sérios hoje no ocidente. Postando aqui sobre temas humanitários até ficar chato a gente tenta balancear a cascata.

Distância psicológica:

1) Você é contra o trabalho escravo? Claro!
2) Você sabe que as roupas que usa, os computadores que tem e alguns alimentos que come envolvem, em algum ponto da cadeia, trabalho escravo ou semi-escravo. Porém, por que a gente não sente culpa de usar estas coisas?
Isto é assim porque há uma distância psicológica que quebra a causalidade entre as duas situações. É o viés traduzido no dito popular: ‘o que os olhos não vêem o coração não sente’. É por isso que a gente se sente na obrigação de ajudar uma criança em risco de vida na nossa frente, mas não vê problema nenhum em deixar milhões morrerem a uma certa distância.
É difícil suprimir a distância psicológica pela emoção, o que está longe sempre vai emocionar menos. É fácil ver sua utilidade, pois, se a quantidade de pobreza no mundo nos afetasse psicologicamente o baque seria tão forte que mal conseguiríamos viver. Porém, isso não é motivo para aceitar a distância psicológica. Através de alguma consideração racional, a gente é capaz de superá-la sem se deprimir e agir de acordo com o que acreditamos, ou seja, que devemos tentar salvar o máximo de pessoas em risco de vida.

Viés de Agostinho:

Nas suas confissões Agostinho narra a passagem da adolescência em que ele pede: ‘Deus, me dê castidade, mas não agora!’. 

É bem comum essa tendência de transferirmos os encargos presentes para o nosso eu futuro, dando assim tranquilidade ao nosso eu presente – o que vai contra as nossas convicções de consciência (quase) tranquila. É por isso que a gente sempre programa o início da dieta para ‘a próxima segunda-feira’ para poder comer aquele doce ‘agora’.

As desculpas ‘racionalizadas’ (ou confabuladas) vão no sentido de que a nossa situação ainda não é estável o bastante, é melhor economizar, existem filhos, etc… Mas contra isso existem 2 objeções:

2) Além disso, se não começarmos em alguma altura corremos o risco de nunca começarmos. O Peter Singer mesmo aconselha que se você é adolescente e ainda não tem renda, que assuma o compromisso de doação mensal mesmo assim e à medida que sua renda for aumentando o mesmo acontecerá com sua doação.

Comportamento de bando:

Animais sociais tendem a agir em conjunto. Uma teoria que explica isso do ponto de vista do indivíduo tem duas regras simples: a) imitar seus vizinhos b) tentar ir o mais próximo do centro (local mais protegido). Estas duas regras bastam para sincronizar o voo de um bando de pássaros de maneira tão coesa que nos parece coreografado.

Nós somos animais sociais e o comportamento de bando guia muitas das nossas decisões. Pare para notar o quanto você se parece com seus amigos mais próximos no modo de agir, vestir e nas preferências.

Apesar de esforços individualistas não há como (e talvez nem porque) abandonar este viés. Porém, uma vez identificado, é possível 1) corrigi-lo e 2) usá-lo em nosso favor, com consciência. O Altruísta Eficaz tenta fazer isso em dois níveis:

1) Ajudar os que precisam é um truísmo consensual em nossa sociedade, portanto só é preciso lembrar os outros dessa opção.
2) Apesar de aceito, o truísmo da ajuda não é um costume para a maioria. Por isso, acaba se gerando um comportamento de bando em que todos aceitam a necessidade da ajuda, mas ninguém ajuda. Um paradoxo tem o poder de mudar o comportamento. Ao notá-lo e aceitarmos a mudança de comportamento estamos contribuindo para que outros ao nosso redor façam o mesmo.

1′) Por outro lado, por estar arraigado, o truísmo da ajuda acaba levando a aceitar qualquer tipo como se tivesse igual valor. Como vemos ao analisar mais de perto os resultados das intervenções, a coisa não é assim.
2′) Por isso outra proposta é de ser criterioso no julgamento e distinção de ajudas para melhorar o resultado. Ao fazermos isso ajudaremos os nossos vizinhos a fazerem o mesmo.

Exemplo: Recuperar a visão de alguém através da operação de tracoma custa 25 dólares. Treinar um cão guia para cegos custa 42.000 dólares. Com a mesma quantia, você melhora a vida de 1 ou 1.344 pessoas.

Ilusão de intervenção:

Temos a ilusão de que quando intervimos, os resultados são melhores. A existência desse viés faz sentido, pois é ele que nos ‘convence’ a tomar uma atitude. Por outro lado, é preciso tomar cuidado, pois esta ilusão pode aumentar as chances de fracasso. Por exemplo:

1) Outro caso é da criança perdida que, em vez de ficar num lugar para ser achada, prefere sair procurando alguém, aumentando assim o risco de não ser achada.
2) Um caso é dos goleiros nos pênaltis. Eles preferem escolher um canto para pular, mesmo que as maiores chances de defesa estejam em ficar no meio.

No caso da ajuda o risco do viés da intervenção é pensar mais em quem ajuda do que em quem é ajudado:
1′) Costurar um tapete para ser vendido num bazar de ajuda a uma instituição de caridade traz uma sensação de dever cumprido, mas é muito menos efetivo que uma doação impessoal.
2′) Mesmo após a escolha de uma doação impessoal a preferência tende a ser por programas que intervêm de maneira mais agressiva ou criativa, mas isso também não significa ter melhores resultados. Por exemplo, intervenções de introdução ao empreendedorismo agrícola em África se provaram muito menos efetivas que a simples transferência incondicional de dinheiro para pequenos produtores.

Enfim, convém sempre verificar os resultados da intervenção (ainda mais quando a intervenção nos soar totalmente plausível de antemão).


Efeito culatra:

Estudos provam que quando se mostram dados que negam a nossa opinião, em vez de aceitarmos, a gente tende é a reforçar nossa negação.

Por exemplo, quem é contra o bolsa-família e vê um estudo que comprova seus impactos positivos, tende a ir ainda mais contra o programa e os dados apresentados. Uma das estratégias para negar os dados é apelar para ‘direitos inalienáveis’. Eu tenho que abrir mão do dinheiro que ganhei por mérito próprio para sustentar vagabundos? O que fazer diante disso?

1) Em relação aos outros. Em vez de mostrar os dados que negam a sua posição, pesquisas indicam que mais eficaz para fazer alguém mudar de opinião é pedir que ele explique sua opção até ver que nunca pensara bem sobre o que está defendendo. Quanto seria o dinheiro de que você vai abrir mão? Essa é uma quantia que vai te fazer tanta falta? E o mérito próprio, não teve ajuda da família, da educação da estrutura de transporte, leis e comércio do país?

2) Em relação a nós mesmos, é preciso sempre se policiar diante dos dados que recebemos. Sempre que um artigo contrariar a nossa opinião, convém parar, reler e avaliar as coisas como se a gente não tivesse opinião. Só depois disso é que convém a gente formar (e não reforçar) uma opinião própria. Este artigo defende o bolsa-família, mas ele apresenta dados convincentes ou só anedotas que confirmam minha opinião? Se não há dados, onde posso encontrá-los? Veja análises de programas similares. E sempre procure ver o que dizem os críticos sérios da sua opinião.


Viés da força direta (ou mão na massa):

A gente tende a super valorizar ações que fazemos com contato direto, para o bem e para o mal. Por exemplo, no caso de um bondinho desgovernado que vai matar 5 pessoas, a maioria das pessoas acha errado empurrar uma pessoa (causando sua morte) para parar o trem (e salvar as outras 5). Ao mesmo tempo, a maioria acha correto puxar uma alavanca que desvie o bonde para um trilho que atingirá outra pessoa (também matando 1 e salvando 5).
Esta diferença, psicologicamente, é válida, mas moralmente não. Por exemplo, imagine matar uma pessoa cortando a sua garganta ou pagar alguém para realizar esse serviço. Os dois atos são condenáveis, mas a perspectiva de ter que fazer com as próprias mãos mexe muito mais com as nossas emoções. Não se tratam apenas de hipóteses absurdas, essa diferença opera na relação que temos com os animais, usando uns para estimação e outros como alimento (matados por outras pessoas).
No caso da ajuda humanitária o mesmo viés, mas em efeito contrário, pode acontecer. Ao simplesmente dar dinheiro para uma ONG eficaz podemos realizar um bem enorme. Por outro lado, ao realizar uma ação com pouco efeito, mas na qual participamos ativamente, como ler um romance para um paciente em coma, nos sentiremos muito mais recompensados. É disso que se aproveitam os projetos de turismo de caridade no qual turistas inábeis realizam um serviço caro e longe do ideal para voltarem com uma história inspiradora para casa.
A dica, então, é desconsiderar o contato como critério de valorização de uma ação. Melhor é pensar nos resultados (compare com o viés da intervenção acima).

Texto de autoria de Celso Vieira
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