Dar valor ao que é de graça

Mãos dando | pixelbay.org

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Histórias:

1) Muitas pessoas têm alguma resistência em concordar com fazer caridade. Uma justificativa muito comum que elas usam para não doar é que quem recebe algo de graça não dá o devido valor e acaba desperdiçando. Como a maioria das opiniões do senso comum, esta não está completamente fora da verdade. De fato, não é difícil para ninguém pensar em uma história pessoal de alguém que não dá valor a algo que ganhou de graça. Um exemplo banal seriam crianças mimadas que não dão o devido valor ao que ganham. Um exemplo político seria dos sem-terra que vendem as terras que recebem na reforma agrária. O exemplo da caridade são pescadores que usam o mosquiteiro antimalária como rede de pesca.

2) Por outro lado, como também é habitual no caso do senso comum, existe uma posição contrária que também tem uma racionalização que pode ser facilmente corroborada por algumas histórias. Trata-se de acusar quem paga por algo de falta de responsabilidade relativamente ao que comprou. Desta perspectiva, quem paga é que não se importa com o que comprou, como se o pagar lhe desse o direito de fazer o que quisesse com isso. Um exemplo banal seria do pai que paga escola, babá e aula particular para não se ocupar da educação do seu filho. A versão política seria o fazendeiro que se vê no direito de não fazer nada com a sua terra, ou desmatá-la toda, porque pagou por ela. O caso da malária seria quem comprou a rede alegar que pode usá-la para pescar, pois faz o que quiser com aquilo que comprou.

A primeira questão a ser resolvida, em ambos os casos, é verificar se o dinheiro é mesmo o motivador de alguma destas atitudes, ou se é apenas a maneira que quem vê de fora usa para entender o que vê. Para isso, vamos ver se temos alguma evidência de que pagar por algo muda nosso comportamento.

Experimentos controlados

1) Num exemplo, houve um experimento em que um grupo de pessoas pagavam $2.50 por cápsula de Veladona e outro grupo pagava $0.10. Nos dois casos se tratava de um placebo para alívio de dor, mas só no grupo que pagou o preço baixo houve pessoas que negaram que o tratamento tivesse efeito (50% dos participantes).

2) Confirmando o caso oposto, outra investigação (.pdf) observou que os pais que deveriam buscar os filhos na porta da escola, após se ter estabelecido uma multa por cada minuto de atraso, estes, em vez de se atrasarem menos, passaram a se atrasar mais. Deste modo, parece que eles se sentiriam como compradores de irresponsabilidade. Confirma-se assim que o ato de pagar tem sim uma tendência a tirar o comprometimento ‘moral’ de uma relação.

Portanto, há evidências de que pagar por algo muda mesmo a nossa relação com essas coisas. E mais, a mudança, dependendo da situação, vai nos dois sentidos, a saber, o de valorizar mais aquilo que se pagou e o de achar que pode se desprezar aquilo que se pagou. Não há um problema inerente em atestar os dois casos. O ser humano é complexo e incoerente, logo, nada impede que ambas as posições tenham um pouco de verdade. Em vista disso, podemos aventar soluções embasadas em cada tipo de situação, que, se aplicadas corretamente, solucionariam o problema.

Soluções

Se este for o caso, 1) remete a uma solução monetária. Para fazer as pessoas valorizarem o que lhes for dado, basta cobrar uma taxa, ainda que seja simbólica.

Já 2) seria solucionado estipulando uma punição que não pode ser paga em dinheiro pela falta de responsabilidade com o que lhe pertence.

Experimento de campo

Um experimento no âmbito da ajuda humanitária confirma o fracasso destas soluções. O IPA fez uma pesquisa para ver que caso geraria o maior uso de mosquiteiros antimalária. Para tanto, separaram três regiões similares e aplicaram três políticas diferentes. Em uma, eles doaram os mosquiteiros, em outra cobraram um preço módico subsidiado e, por fim, cobraram o preço de mercado. Os resultados mostraram que a região na qual os mosquiteiros foram doados foi aonde o uso foi maior.

Seria interessante saber se os mosquiteiros comprados a preço módico ou real não foram mais usados para outros fins do que os doados. Mas, para contemplar o ponto de vista de quem defende que pagar leva a mais comprometimento, vamos supor que quando se paga pela rede, o uso diminui em quantidade, mas aumenta em qualidade. Ou seja, 100% das redes compradas são usadas como mosquiteiro enquanto apenas 80% das doadas são usadas corretamente.

Escalonar

Há quem argumente que nem o uso ‘incorreto’ é problemático já que, como um pescador disse, ‘é melhor morrer de malária do que de fome‘. Porém, no caso de uma doença epidêmica e de uma política pública de distribuição de redes deve-se considerar que quem não usa a rede não está só se prejudicando, mas prejudicando toda comunidade. Isso porque se ele contrai a doença, outros mosquitos que não tinham o vírus podem picá-lo, pegar o vírus e transmiti-lo a outras pessoas. Nessa situação não importam as exceções, quanto mais pessoas usarem as redes, melhor. 80% de redes doadas bem usadas significa, em absoluto, mais pessoas dormindo protegidas do que as 100% bem usadas das compradas. Por isso, nessa situação, não há opção melhor do que distribuir gratuitamente.

Não haver outra opção melhor não quer dizer que não dá pra melhorar a opção. Se for para resolver o problema do uso inadequado, a pior intervenção seria cobrar algo pela rede em busca de qualidade contra quantidade, mas podem haver outros meios de se aproximar do 100% de uso. Um outro estudo feito com portadores do HIV em regiões onde a malária é endêmica conseguiu com educação sobre a malária e acompanhamento reduzir em três meses o número de infectados com malária de 60% para 3%.

Um ponto fraco é que este estudo ofereceu educação e acompanhamento, de modo que não há como saber se apenas a educação ou apenas o acompanhamento seriam suficientes para resolver o problema. De qualquer forma parece seguro estabelecer que:

Conclusão

Receber algo de graça diminui a valorização que se dá ao recebido, porém, aumenta o uso do recebido em uma porcentagem bem maior do que a diminuição de valorização. Deste modo, principalmente em casos em que o benefício vai além de quem recebe o bem, se justifica uma política de distribuição gratuita.

Ampliar

Os testes em laboratório como aqueles de Ariely têm a pretensão de capturar algo da natureza humana. Já os estudos de campo controlados são mais específicos em suas conclusões. Ainda assim, parece válido um esforço de extrapolar os resultados.

Esfera doméstica

Primeiro, o caso das crianças. Segundo a conclusão alcançada, sempre que o benefício de ganhar um bem supere o risco do não reconhecimento da sua importância, convém dar-lhes sem cobrar nada em troca.

Por exemplo, aprender inglês em uma idade tenra vai gerar um benefício enorme para o resto da vida do seu filho. Assim, mesmo que ele odeie e despreze a atividade, convém colocá-lo na aula de inglês sem cobrar nada em troca. Ademais, a solução para combater o desprezo seria informação sobre as vantagens e acompanhamento. Por outro lado, uma ida ao parque de diversões que não trará benefícios diretos pode ser uma boa oportunidade para pedir algo em troca para não diminuir seu valor devido à gratuidade. Quem sabe pedir que façam a tarefa de inglês?

Esfera política

A moradia e o acesso a um meio de sustento são reconhecidos como direitos universais dos seres humanos. Portanto, independente da possível desvalorização, parece justificável haver políticas públicas gratuitas ou subsidiadas que garantam ambos às pessoas que, por infortúnios, encontram-se cerceadas desses direitos.

No exemplo prático, a solução para o sucesso da reforma agrária não estaria em cobrar uma taxa simbólica dos assentados. Ainda assim, vender uma terra que lhe foi doada sob a condição de produzir nela, mesmo que a causa da venda NÃO tenha sido o fato de ter sido doada, continuaria sendo errado. Isto porque existem outras famílias que seguiriam as condições, mas que não receberam nenhuma terra. Para evitar isto a solução mais promissora seria prover assistência e acompanhamento que cobre o uso eficaz do benefício ganho. É claro que a estrutura de assistência e acompanhamento tem um custo, mas faz mais sentido cobrá-la de quem tem mais (outros contribuintes) do que dos recém-saídos da condição de sem-terra.

Já no caso daqueles fazendeiros que descumprem as leis por acharem que podem fazer o que quiser emcom sua propriedade, a solução estaria em encontrar uma pena que não pode ser paga por dinheiro. Quem sabe a pena não seria a desapropriação das terras?

As soluções mais adotadas atualmente na questão da distribuição de terras, no entanto, são contrárias às conclusões acima. Uma terra de assentamento vendida é retomada pelo estado, enquanto o fazendeiro pode ser multado por desobedecer à lei ao desmatar à revelia as terras que lhe pertencem.

Exemplo pessoal

Fiquei procurando exemplos pessoais que confirmassem um ou outro caso e achei dois bem próximos. Eu já cursei universidade particular e pública e, contrário ao princípio do pagar parar dar valor, encontrei mais pessoas que levaram a sério a formação na pública do que na particular. Porém, como aqui no Brasil os melhores alunos vão para as públicas, parece ser um caso de amostra enviesada no qual, pagando ou não, eles levariam mais a sério o curso que os outros.

Um caso oposto acontece nas aulas de grego antigo que eu ofereço de graça. Os alunos, em geral, começam muito empolgados, mas, com o tempo, a taxa de evasão é grande. Pode ser por incompetência do professor, mas o fato deles não trocarem de professor aliado à grande taxa de evasão também no curso oficial da faculdade de letras vai contra essa hipótese. Nesse caso minha hipótese tem algo a ver com o dinheiro, já que os alunos, se obrigados a escolher, sempre tendem a preferir fazer os deveres de um curso de outra língua pela qual pagam do que do grego. Não se pode dizer que a preferência é devido à maior utilidade de se aprender uma língua moderna, pois os alunos que estudam filosofia grega, o que faz do grego antigo muito útil. De qualquer forma estou pensando em introduzir alguma cobrança em termos de pontos ou atividades para ver se muda a situação.


Texto de autoria de Celso Vieira

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