O que é a ética das opiniões e como se aplica ao Altruísmo Eficaz?

Por Celso Vieira

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Ética das opiniões, como se aplica ao Altruísmo Eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

O dono de um navio de turismo, minutos antes do embarque dos passageiros, considera se não está na hora de o navio passar por uma reparação. Em vista do embarque iminente, do distúrbio que um atraso causaria nos passageiros e do subsequente prejuízo, ele afasta o pensamento e se convence que o navio ainda está em boas condições. Os passageiros embarcam, o navio navega por algumas horas e naufraga. O dono do navio é responsável pelo acidente? A causa da responsabilidade é ele ter formado uma opinião não fundamentada? E o se o navio não tivesse afundado, ele seria igualmente culpado por ter formado uma opinião não fundamentada?

As respostas dadas a esse tipo de situação são aplicáveis a várias situações da nossa vida, desde as opiniões sobre as mudanças climáticas e as decisões de voto até àquelas que formamos sobre os nossos amigos e familiares. O campo da filosofia que as investiga é a ética das opiniões (ethics of belief) no qual se reflete sobre as normas prudenciais, morais e epistêmicas que devemos ter ao formar, manter e rever as nossas opiniões. A nossa atitude em vista da comprovação das nossas opiniões é o campo de reflexão entorno do qual as várias posições e os questionamentos trafegam. O Altruísmo Eficaz defende que devemos privilegiar intervenções empiricamente comprovadas na hora de tomar decisões acerca de ajudar os outros. Portanto, uma reflexão acerca dos principais temas da ética das opiniões em vista das nossas atitudes acerca do altruísmo pode ser elucidativa.

Comprovacionismo (evidentialism)

Antes de começar, convém deixar claro que crença ou opinião (belief) será entendido como uma disposição afirmativa em relação a um estado de coisas ou uma proposição (para simplificar, a partir daqui usa-se o termo “opinião”). Isso é importante porque dispensa o uso de conceitos complexos como verdade. Para formar uma opinião não é preciso (ainda que seja desejável) uma reflexão sobre a sua veracidade, mas apenas uma atitude afirmativa diante do que a opinião representa.

Reflexões sobre a ética da formação de opiniões aparecem durante toda a história da filosofia, porém, o nome e o caso fundador da reflexão moderna (uma versão do naufrágio acima) é de W. K. Clifford (1877). A posição defendida por ele é bem rígida. Segundo o Comprovacionismo extremo: é sempre errado ter qualquer opinião sem que essa seja suficientemente comprovada, bem como negligenciar provas que sejam relevantes para sustentar as suas opiniões.

Note que se trata de uma posição sincrônica e diacrônica. Devemos ter apenas opiniões comprovadas e devemos, ao longo do tempo, trabalhar para adquirir as comprovações relevantes para as nossas opiniões. Segundo Clifford, portanto, o dono do navio, independentemente de acontecer o naufrágio ou não, é culpado por que era conveniente para si negligenciar as provas e formar uma opinião infundada.

Podemos imaginar um cenário similar relacionado à ajuda humanitária. Uma ONG propõe uma intervenção para acabar com um problema. Com medo de obter resultados negativos cuja divulgação minaria a confiança dos doadores, ela se recusa a avaliar a eficácia da intervenção. Agora pensemos nas possibilidades de resultado:

– a intervenção faz mais bem do que é suposto.

– a intervenção faz menos bem do que é esperado.

– a intervenção não faz bem nenhum.

– a intervenção faz mais mal do que bem.

Segundo o comprovacionismo extremo, independente dos resultados, a atitude da ONG é condenável já que, em todos os casos, ela negligencia as provas ao formar uma opinião. O mesmo cenário pode se transferir para o doador que não busca comprovação da eficácia das intervenções ao escolher uma ONG, ou seja, a sua doação seria também condenável nesse caso por negligenciar essa comprovação de eficácia.

Comprovacionismo prudencial

William James, na primeira resposta à posição de Clifford, já notou que a sua posição era muito rígida. É simplesmente impossível e até mesmo desvantajoso esperarmos uma comprovação para formar cada uma de nossas opiniões. A alternativa de James é pragmatista. Para ele, devemos formar a opinião que nos seja benéfica independentemente das provas. Por exemplo, se ao acreditar que um placebo é um remédio isso aumenta as chances de cura, devemos então negligenciar as provas e formar a opinião de que se trata de um remédio. Essa posição pragmatista é problemática na medida em que negligencia a busca pela verdade, mas o seu desafio apresenta uma amenização importante ao comprovacionismo.

Imagine que um comandante de um navio suspeite que haja um iceberg na sua rota. Ainda que lhe falte a comprovação, parece ser mais prudente agir segundo a opinião de que há realmente um iceberg adiante. Isso porque quando chegar a comprovação da opinião ele não estará mais na posição de reagir adequadamente. Esse tipo de constatação ao estilo da aposta de Pascal levou ao Comprovacionismo prudencial: é sempre recomendável ter opiniões comprovadas e buscar a comprovação de nossas opiniões, porém, em certos casos, é mais prudente formar opiniões antes de elas serem fundamentadas.

No caso da ajuda humanitária, um caso que ilustra essa atitude prudencial parece ser as situações em que o esperar uma comprovação aumenta desproporcionalmente o risco em questão. Por exemplo, em um caso de uma possível epidemia ou acidente nuclear parece ser recomendável agir antes de se comprovar as opiniões. Isso, no entanto, não diminui a necessidade de se procurar uma comprovação.

No caso do doador, esse tipo de situação mostra porque é mais eficaz ser um doador constante. Este escolhe a causa que vai apoiar entre as opções testadas repetidas vezes, em oposição ao doador que doa face a tragédias repentinas nas quais a alocação de recursos nem sempre pode ser feita da maneira mais eficaz.

Incomensurabilidade

Uma vez que temos que aceitar diferentes atitudes na formação de opiniões, o campo se abre para uma postura mais complexa. A posição de John Locke é usada para tentar coadunar as duas atitudes. Segundo ele, devemos atribuir diferentes graus de confiança às nossas opiniões de acordo com a força das provas que temos ou não a favor delas.

Uma vez que temos opiniões com diferentes graus de confiança, surge o problema de ser ou não possível comparar a confiança em diferentes opiniões. A questão é mais difícil do que à primeira vista parece, pois haverá uma certa incomensurabilidade acerca da nossa confiança sobre as nossas diferentes opiniões. No caso do Altruísmo Eficaz isso fica claro diante da dificuldade de se comparar a eficácia entre diferentes causas e até entre diferentes ONGs atuando na mesma causa. A saída é, diante da incerteza, recomendar as opções mais comprovadas.

Evidencialismo epistêmico

No evidencialismo epistêmico o que guia as normas para a formação de opiniões são as normas epistêmicas. Assim, a formação de uma opinião depende do bom funcionamento das faculdades pela qual as adquirimos. Cada situação pede o uso de uma faculdade apropriada, desde as mais simples, onde basta usarmos a percepção, até às mais complexas, que exigem o uso das nossas capacidades cognitivas e as sofisticadas estratégias de conhecimento científico.

Portanto, no Evidencialismo epistêmico: devemos formar opiniões justificadas de acordo com o que conta como comprovação suficiente de acordo com a capacidade utilizada e em vista do propósito desejado.

Essa posição assume que evoluímos para formar opiniões de acordo com as provas que encontramos. Assim, diferentes pedaços de informação nos facultam provas para formarmos opiniões justificadas.

Por exemplo, se vejo nuvens cinza escuras no céu e pego o meu guarda-chuva, mostro que tenho uma disposição positiva acerca da proposição ‘choverá’. O que se segue é um tipo de bayesianismo segundo o qual as nossas opiniões devem ser sempre revisadas à medida em que vamos agrupando novas provas adquiridas de maneira legítima.

No entanto, para formar a maioria das opiniões que são mais importantes para nós é preciso utilizar uma capacidade cognitiva mais refinada do que simplesmente o uso dos sentidos. O problema é que quanto mais dependemos do uso da razão, e quanto mais complexo o assunto, mais passíveis de erros somos. Como um fator complicador, há ainda o caso em que as nossas intuições prudenciais, que privilegiam o benefício individual imediato, muitas vezes, entram em conflito e acabam ludibriando o nosso dever de se buscar por provas que corroborem nossa opinião – como no caso do dono do navio que abriu esse ensaio.

Em vista disso, o altruísmo eficaz se propõe a seguir um bayesianismo sofisticado em que se usa o estado da arte da investigação científica de maneira diacrônica, ou seja, analisando a sua evolução ao longo do tempo, para se examinar sempre as maneiras comprovadamente mais eficazes de gerar um impacto positivo no mundo.


Texto de Celso Vieira.

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