Jonathan Quick, especialista em epidemias: “O pior cenário para o coronavírus é provável”

Por Laura Spinney (The Guardian)

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Coronavírus, o pior cenário será provável? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Em 2018, o especialista em saúde global Jonathan D. Quick, da Duke University, na Carolina do Norte, publicou um livro intitulado The End of Epidemics: The Looming Threat to Humanity and How to Stop It [O Fim das Epidemias: A Ameaça Iminente à Humanidade e Como Pará-la]. Neste livro apresentou medidas através das quais o mundo poderia proteger-se contra surtos devastadores de doenças como a gripe de 1918, que mataram milhões e levaram a um atraso de décadas para a humanidade. É o ex-presidente do Conselho Global de Saúde e é, há muito, um colaborador do Organização Mundial de Saúde (OMS).

A epidemia de Covid-19 parece estar prestes a tornar-se uma pandemia –  isto é, como a OMS a define, “a disseminação mundial de uma nova doença” – mas a OMS ainda não declarou uma pandemia. Quais são os cenários no melhor e no pior dos casos?
No melhor dos casos a deflagração chinesa é controlada, as “chamas” menores que vimos acender em outros países são extintas, há pouca ou nenhuma propagação para novos países ou continentes e a epidemia desaparece. No pior dos casos o surto torna-se global e a doença torna-se endémica, o que significa que circulará permanentemente na população humana.

Qual é a sua impressão sobre o que será mais provável, a partir de hoje, 27 de Fevereiro?
O pior cenário está a parecer cada vez mais provável. Até agora, vimos casos em seis continentes, aparentemente “silenciosos” – ou seja, pelo menos em parte, assintomáticos – cadeias de transmissão de homem para homem, tanto dentro como fora da China, com mais países a relatar casos na última semana – elevando o total para 47 – e novos surtos acelerados no Irão, na Itália e na Coreia do Sul. Caso se torne uma pandemia, as perguntas são: qual a sua gravidade e quanto tempo durará? A taxa de letalidade dos casos – a proporção de casos fatais – foi de pouco mais de 2%, muito menos do que era para o SARS, mas é 20 vezes a da gripe sazonal. Ainda existem muitas incógnitas – podemos ter subestimado o período durante o qual uma pessoa é contagiosa, por exemplo, e a variedade de maneiras pelas quais o vírus se espalha.

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Se o pior cenário se tornar realidade, ainda há coisas que possamos fazer para minimizar o impacto da pandemia?
Absolutamente. Podemos mobilizar mais autoridades de saúde e continuar a envolver o público, implementando um controlo sensato de viagens e garantindo que os profissionais de saúde da linha da frente tenham acesso imediato a testes de diagnóstico e que estejam vigilantes – para que, por exemplo, não mandem para casa ninguém que possa ter sido exposto sem o testar. A julgar pela experiência passada, no entanto, é provável que as autoridades de saúde e o público em grande parte do mundo permaneçam desinformados ou não fiquem convencidos do perigo que este vírus representa.

Disse que o tempo e a confiança são essenciais para uma boa gestão de epidemias. O que queria dizer com isso?
O atraso entre os profissionais de saúde da linha da frente ao observarem algo incomum, sob a forma de uma doença emergente, e as informações que chegam aos principais decisores, é crítica. Para ilustrar isso, uma simulação de uma pandemia de gripe que a Fundação Gates realizou, em 2018, estimou que ocorreriam 28 000 mortes após um mês, 10 milhões após três meses e 33 milhões após seis meses. O vírus usado nessa simulação era mais contagioso e mortal que o Covid-19 – embora ambos sejam vírus respiratórios –, mas o exemplo mostra como todas as epidemias crescem exponencialmente. Portanto, caso se possa parar uma epidemia nas primeiras semanas, isso faz toda a diferença. Quanto à confiança, é fundamental disseminar informações desapaixonadas e baseadas em provas, e não tentar enganar a população. Caso isso aconteça, esta vai parar de cooperar. Esperemos que isso não aconteça na China.

A julgar pelos relatórios, estamos a pelo menos um ano de ter uma vacina do Covid-19 aprovada. Uma vez disponível, parece-lhe que haverá algum problema do movimento anti-vacinas, como ocorreu com algumas das doenças infantis que ressurgiram?
As provas sugerem que o movimento anti-vacinas diminui quando morrem muitas pessoas. Quando um surto termina, no entanto, os níveis de aceitação de vacinas podem depender de este estar ou não fresco na memória das pessoas – mesmo que o risco de outro surto seja real. Escrevi sobre uma situação hipotética na qual um patógeno novo e perigoso surge, uma vacina é desenvolvida e ainda assim sofremos uma pandemia, porque um grande número de pessoas da geração do milénio rejeita a vacina. Nos EUA, 20% da geração do milénio acredita que as vacinas causam autismo. O problema é a fraca informação. Os meus alunos lembram-me constantemente que as notícias tendem a ficar atrás de muros de pagamento, enquanto as notícias falsas são gratuitas.

Será plausível que os chineses já tenham criado a vacina Covid-19?
A empresa farmacêutica americana Moderna é a única que conheço que possui uma vacina do Covid-19 pronta para testes em seres humanos. Estes devem começar em Abril. As empresas chinesas são novas no mercado global de vacinas, mas pelo menos uma, Clover Biofarmaceuticals, está a trabalhar para desenvolver uma vacina do Covid-19.

Parece que o vírus Covid-19 teve origem num “mercado molhado” ou mercado de animais vivos. Esses mercados devem ser proibidos?
Não. O governo chinês tentou fazer isso depois do SARS. Mas isso só fez com que os mercados se tornassem clandestinos. Estes precisam de ser melhor regulamentados e é preciso haver uma vigilância activa. A monitorização activa e o abate de populações aviárias na Ásia eliminaram os surtos de gripe aviária nessas populações.

Uma epidemia como a do Covid-19 era inevitável?
Do ponto de vista biológico, um surto de um novo patógeno era inevitável, mas este aconteceu no pior lugar, no pior momento. Wuhan é uma cidade grande e uma encruzilhada, e os primeiros casos foram registados pouco antes do ano novo lunar, quando um grande número de pessoas estava prestes a viajar para visitar as suas famílias.

Em termos da sua contenção, foi uma coisa boa ou má o facto de ter acontecido na China?
Desde há cinco meses, temos uma medida de preparação para epidemias – o Índice Global de Segurança em Saúde (GSS) – que classifica os países em seis dimensões: prevenção, detecção, resposta, sistema de saúde, ambiente de risco e cumprimento dos padrões internacionais. Nenhum país pontua perfeitamente nos seis. A China detectou e respondeu muito bem a esta epidemia, embora o seu sistema de saúde esteja agora sobrecarregado para além da sua capacidade, mas é fraco em termos de prevenção – principalmente no que diz respeito a segurança alimentar.

Em que medida os EUA estarão bem preparados?
Os EUA estão no topo do índice GSS, mas ainda não estão preparados para uma pandemia grave, caso isso aconteça. O mau funcionamento dos testes de coronavírus trouxe frustração aos laboratórios de saúde pública e atrasou a monitorização de surtos. O fornecimento de máscaras, uniformes e outros materiais de protecção para os profissionais de saúde estão a acabar a meio de uma época de gripe moderadamente severa. Desde a criação de um fundo de preparação para emergências em saúde pública, muito necessário, após o 11 de Setembro, o seu orçamento e as funções de saúde pública que este apoia têm sido constantemente reduzidos. Essa é a mentalidade que deixou o mundo vulnerável face ao devastador surto de Ébola de 2014 na África Ocidental – ou seja, acaba-se com o corpo de bombeiros e cancela-se o seguro contra incêndios, visto que recentemente não tem ardido a casa ou a fábrica de ninguém. Chegou a hora de aprendermos que a mutação destes bichinhos nunca pára, nem estes deixam de passar para os seres humanos.

O mundo tem feito como a avestruz no que diz respeito ao risco de pandemia?
De um modo geral, não. Depois de cada grande surto recente – SARS, gripe suína, Ébola – avançamos. O próprio índice GSS é um grande avanço, porque agora podemos ver aquilo em que os países são fracos em termos de preparação. No entanto devíamos estar a avançar mais rápido.

Exactamente o que devíamos estar a fazer mais rápido?
Menos de um em cada três países está perto de estar preparado para enfrentar uma epidemia, o que deixa vulnerável a grande maioria da população mundial. Isso, por sua vez, faz com que todos nós fiquemos vulneráveis, porque estamos apenas tão seguros quanto o lugar menos seguro. Precisamos investir mais na preparação, e precisamos que os nossos líderes se interessem mais por esta – todos os líderes, tanto no sector público, como no privado – das bases ao topo.

Uma agência global de saúde será essencial para gerir uma pandemia e a OMS estará pronta para essa tarefa?
Sim, uma agência global de saúde é essencial. Nenhum dos avanços que mencionei poderia ter acontecido sem o envolvimento da OMS, mas a OMS só pode ter o desempenho que os seus membros permitirem – e estes recuaram no financiamento desde a crise financeira de 2008.

O seu livro tem o título optimista O Fim das Epidemias. Poderíamos alguma vez realmente dizer adeus às epidemias?
O mundo continuará a ter surtos de doenças, mas há muito que podemos fazer para nos proteger contra catástrofes globais como a gripe de 1918.


Publicado originalmente por Laura Spinney no The Guardian, a 1 de Março de 2020.

Tradução de José Oliveira.

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