A ajuda internacional funciona?

Será que a ajuda internacional funciona? Alguns autores argumentam que sim, e que devemos doar mais. Outros argumentam que ela tem sido ineficaz, ou mesmo que impede o desenvolvimento dos países pobres.  Firmemente do lado “pró-ajuda” estão os envolvidos na campanha “IF”, que fizeram um maravilhoso vídeo inspirado nos Monty Python, exaltando as virtudes da ajuda humanitária internacional:

Infelizmente, não está claro quais foram as fontes das afirmações que fazem. Por isso decidi fazer a minha própria pesquisa sobre as realizações da ajuda internacional e da caridade, observando especificamente o impacto na área da saúde global.

ERRADICAÇÃO E QUASE ERRADICAÇÃO DE DOENÇAS

A ajuda internacional tem contribuído para eliminar, ou quase eliminar, um bom número de doenças.

Erradicação da varíola

A varíola costumava matar milhões de pessoas por ano. A partir de 1960 foi anunciado um plano para fornecer vacinas suficientes para eliminar completamente o vírus dentro de uma década. Foi bem-sucedido; o último caso de varíola foi em 1977. Cerca de um terço do financiamento foi fornecido pela “assistência internacional”.

Quase erradicação da poliomielite

A infecção pelo poliovírus levou à paralisia de dezenas de milhares de pessoas por ano na primeira metade do séc. XX.  Em 1988, a Organização Mundial de Saúde (OMS) resolveu erradicar a poliomielite em todo o mundo. Naquele ano, havia uma estimativa global de 350 000 casos. Em 2012 este número baixou para apenas algumas centenas de casos. A OMS é financiada pelos governos das Nações Unidas. Os membros da organização Rotary International também angariaram e doaram somas enormes (mais de 1 bilhão de dólares – Pt. mil milhões de dólares) para ajudar à provisão de fundos para a vacina da poliomielite.

Quase erradicação da doença do verme-da-guiné

A doença do verme-da-guiné é causada por um verme parasita que se apanha ao beber água contaminada. Os sintomas incluem “dores intensas… febre, náuseas e vômitos”.

Ao contrário da poliomielite e da varíola, não há vacina. Mas o Centro Carter, uma ONG criada pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, ajudou a erradicá-la quase completamente, trabalhando ao lado da OMS, da UNICEF e de outros grupos para prevenir a contaminação e a infecção. O número de pessoas atingidas caiu de 3,5 milhões em 1986 para apenas 542 em 2012.

Quase erradicação da “cegueira dos rios” (oncocercose) na África Ocidental

O OCP, um programa de 30 anos encabeçado pela OMS e pelo Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas, terminou em 2002 “depois de praticamente parar a transmissão da doença” nos 11 países da África Ocidental abrangidos pelo programa. Isto “reabriu ao cultivo 60 milhões de acres de terra antes abandonada à doença, e protegeu a visão de um número calculado em 30 milhões de pessoas em risco de cegueira”.

Um novo programa, o APOC, está agora a tentar controlá-la e, em seguida, eliminá-la dos restantes países endêmicos na África ao longo das próximas duas décadas. É financiado por uma série de países e organizações, incluindo os governos britânico e norte-americano, e pela empresa farmacêutica Merck & Co.

GRANDES MELHORIAS E UM LONGO CAMINHO PELA FRENTE

Vacina contra a pneumonia

A pneumonia é uma das principais causas de mortalidade infantil, matando 18% dos 6,9 milhões menores de 5 anos que morreram em 2011. O tipo b, da bactéria Haemophilus influenzae (Hib) é uma das principais causas desse tipo de pneumonia, juntamente com o Streptococcus pneumoniae, com o qual interage.

Na década de 1990, apenas um país de baixo rendimento oferecia a vacina para a Hib. A GAVI, uma parceria que promove a vacinação, fez campanha e apresentou fortes evidências quanto aos benefícios da vacina. Os governos reagiram: “Até 2011, quase todos os países elegíveis pela GAVI haviam introduzido vacinas do Hib, com o apoio da GAVI, imunizando um total de 124 milhões de crianças e prevenindo um número estimado de 697 000 mortes”.

Grande declínio das mortes e sofrimento por malária

A malária é causa de doença em centenas de milhões de pessoas por ano, e mata milhares (principalmente crianças) todos os dias. Mas desde 2000, esses números caíram 25% globalmente, e 33% na África Subsaariana. Essencialmente devido à distribuição em massa e uso de mosquiteiros tratados com insecticida, que a avaliadora de instituições de caridade, a GiveWell, descreve como “das formas mais rentáveis ​​para se salvar vidas“. Esses mosquiteiros foram principalmente financiados pelos governos dos países ricos através do Fundo Global. O Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional, por exemplo, tem financiado dezenas de milhões de redes.

As doações privadas também têm ajudado a comprar mosquiteiros. Bill Gates é um contribuidor notável para o Fundo Global. Para aqueles de nós que não são bilionários, a a Against Malaria Foundation é uma instituição de caridade altamente recomendada que gasta todas as suas doações em mosquiteiros. Até agora, mais de 475 000 pessoas doaram mais de 18 milhões de dólares para comprar mais de 5 milhões de redes, mostrando que todos podem fazer contribuições importantes. A The Life You Can Save, a GiveWell e a Giving What We Can atualmente avaliam a AMF como a principal instituição de caridade a ser apoiada por doadores privados; isso significa que o seu trabalho tem demonstrado uma elevada relação custo-eficácia e de alta transparência / confiabilidade. Você pode doar para eles aqui.

Sucesso na vacinação contra o sarampo

Em 2011 cerca de 158 000 pessoas, muitas delas crianças, morreram de sarampo. Mas a Organização Mundial de Saúde relata que, graças à vacinação, tem havido uma diminuição global de 71% do sarampo desde 2000. Esta campanha de vacinação tem sido apoiada pela OMS, pela UNICEF, pela Cruz Vermelha Americana, e pelo Centro dos Estados Unidos para Controle e Prevenção de Doenças.

Redução da esquistossomose (e outros vermes parasitas)

A esquistossomose é um verme parasita que se calcula que mate por ano até 280 000 pessoas devido a danos nos órgãos, embora provavelmente mate diretamente cerca de 40 000. Contribui também para a desnutrição e provoca dor, febre e anemia. A esquistossomose está ainda espalhada, infectando centenas de milhões de pessoas no mundo. Mas há um tratamento barato e eficaz, e dado o sucesso na redução de outros parasitas como a doença do verme-da-guiné (veja acima), é plausível que nas próximas décadas tenhamos um grande declínio e, talvez também, a erradicação da esquistossomose e outros vermes parasitas tropicais.

Remédios de desparasitação custam cerca de meio dólar (~  0,50 €) por pessoa tratada, de acordo com a GiveWell. Estudos realizados em Burkina Faso, Nígeria, Uganda, Burundi e pela Schistosomiasis Control Initiative (SCI) relatam quedas significativas na prevalência do parasita e da sua intensidade após o tratamento com esses remédios. Há também evidências no Quénia de que a desparasitação é de longe a forma mais custo-eficaz de aumentar a frequência escolar do ensino primário. Em Ruanda, relatórios recentes indicam que a prevalência da infecção esquistossomose caiu mais de 80%.

A Schistosomiasis Control Initiative, operando a partir da Imperial College London, recebeu fundos significativos da Fundação Gates, bem como dos governos dos EUA e do Reino Unido. Mas doações privadas também têm feito importantes contribuições. E por uma boa razão; a SCI é outra instituição de caridade altamente recomendada de acordo com a GiveWell, a The Life You Can Save e a Giving What We Can, demonstrando a sua relação custo-eficácia, compromisso com a transparência e capacidade de utilizar adequadamente os fundos adicionais que recebe. Você pode doar à SCI aqui.

CONCLUSÃO

A lista acima não é abrangente, mas deverá dar uma idéia de quanto bem tem sido feito na área da saúde.

Isto por si só não demonstra que a ajuda humanitária é sempre uma coisa boa. Não há dúvidas de que houveram casos em que a ajuda internacional tem agravado a corrupção nos países pobres, e talvez até mesmo levado à instabilidade, fornecendo incentivos perversos a rebeldes que buscam o poder. No entanto, no geral, o argumento que certamente deve ser feito não é que nunca devemos fornecer ajuda, mas sim que ela só deve ser fornecida quando temos evidências e boas razões para acreditar que irá ajudar, o que é frequentemente o caso nas questões de saúde global.

Postado originalmente por Matt Sharp no Blogue da TLYCS (em 21 de agosto de 2013)


Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão de José Oliveira.

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