Os Que Morrem de Fome

BADAAM vive na província indiana de Rajasthan. O tétano matou um de seus filhos na infância; outro padece de diarréia, causada provavelmente pelo costume de manter a mãe e o bebê separados por um mês depois do parto. No entanto, ela é uma das sortudas: uma instituição de caridade, a Save the Children, tem mantido a sua família viva com alimentos e aconselhamento nutricional.

A Unicef, órgão das Nações Unidas para a Infância, disse esta semana que menos de 10 milhões de crianças morreram antes do seu quinto aniversário em 2006 — provavelmente a menor taxa até hoje e certamente o menor número desde que os registros começaram em 1960, quando duas vezes mais crianças menores de cinco anos morriam, com uma população mundial que era metade da que temos hoje.

Boas notícias — mas poderiam ser ainda melhores. A desnutrição é de longe o que mais contribui para a mortalidade infantil, presente em metade dos casos, segundo a Organização Mundial de Saúde. Uma nova pesquisa no Lancet, um jornal médico britânico, sugere que este pode ser uma das “grandes notas caídas na calçada” * — para usar a frase que Mancur Olson, um economista, usou para descrever benefícios que facilmente se podem colher, mas que são negligenciados.

Uma pesquisa de Robert Black e outros, da Johns Hopkins University, calculou que nascimentos com baixo peso e restrições de crescimento intra-uterino causam 2,2 milhões de mortes de crianças por ano (cerca de uma a cada 15 segundos). A pobreza ou a falta de amamentação explica outros 1,4 milhões. Outras deficiências — como falta de vitamina A ou de zinco, por exemplo, contam mais 1 milhão. Ao todo, são 3,5 milhões de mortes (uma vez que se retira a contagem repetida) — ou seja, um terço da mortalidade infantil total.

A fome causa doenças, assim como causa a morte. De acordo com o Lancet, a desnutrição nos primeiros dois anos é irreversível. Crianças desnutridas crescem com pior saúde e menores realizações educacionais. Seus próprios filhos também tendem a ser mais pequenos.

Estimativas anteriores do impacto da fome eram maiores, mas eram tratadas como algo que agrava os problemas de doenças como o sarampo, pneumonia e diarréia. Essas doenças eram vistas como as causas de morte; a desnutrição contava como um fator contribuinte. Mas a má nutrição realmente provoca doenças, e pode ser fatal por si só. Este é o impacto que os autores da Lancet procuram identificar. No geral suas conclusões confirmam e quantificam a opinião da OMS que a fome é a mais grave ameaça à saúde pública do mundo.

Mas eles fizeram mais do que isso. Como o Lancet e a Unicef deixaram claro, lidar com a fome dificilmente requer um doutorado em bioquímica do corpo humano. Conselhos sobre amamentação, suplementos alimentares e melhor higiene fazem uma grande diferença. A maioria dos países sabem o que fazer e como executar programas piloto que funcionam. Mas eles raramente encontram dinheiro para esforços nacionais em grande escala; e as reservas internacionais que poderiam ajudar são, nas palavras do Lancet, fragmentadas e disfuncionais.

No entanto, se a pesquisa estiver certa, o dinheiro para melhorar a nutrição seria o tipo mais eficaz de ajuda que podemos fazer. No momento, cerca de 300 milhões de dólares vão para a nutrição básica por ano, menos de 2 dólares para cada criança com menos de dois anos nos 20 países mais afetados. Em contraste, o HIV / SIDA, que causa menos mortes do que a desnutrição infantil, recebeu 2,2 bilhões [Pt. 2,2 mil milhões] de dólares ou 67 dólares por pessoa com HIV em todos os países (incluindo os ricos).

Concentrar-se em nutrição e mortalidade também faz sentido, diz April Harding do Centro para o Desenvolvimento Global, um grupo de reflexão com sede em Washington, pois isso obriga os políticos a prestar atenção aos sistemas de cuidados de saúde como um todo, ao invés de tentar salvar as crianças “uma doença de cada vez “. Dada a dimensão da crise, fazer as organizações de caridade redirecionarem dinheiro e atenção para o problema da fome, parece algo bem convincente.

* A expressão “grandes notas caídas na calçada” vem da anedota em que o professor assistente se baixa para apanhar um nota de 100 dólares caída na calçada, mas o professor catedrático diz-lhe que esta não deve ser verdadeira, caso contrário já alguém a teria apanhado — citada no artigo de Mancur Olson que pode ser lido aqui. (N. do T)


Texto originalmente postado no The Economist em 24 de janeiro de 2008.

Tradução de Thiago Tamosauskas e revisão de José Oliveira.

Faça o seu donativo agora

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s