Dez Razões Pelas Quais Não se Doa à Caridade

Essas desculpas comuns não resistem a um exame minucioso.

1. Eu já dou o suficiente. Prefiro investir em minha própria comunidade.

Embora tenhamos um desejo natural em apoiar nossas comunidades locais, há um grande desequilíbrio entre doações domésticas e doações internacionais. Noventa e cinco por cento dos 240 bilhões [Pt. 240 mil milhões] de dólares que os indivíduos nos Estados Unidos doam para instituições de caridade anualmente vão para as organizações sem fins lucrativos domésticas, enquanto apenas 5% é doado internacionalmente.

Os americanos doam duas vezes mais do que as pessoas de outras nações ricas, mas apenas uma fração vai para ajudar as pessoas com maior necessidade e onde cada dólar vai mais longe. Intervenções simples podem realmente salvar vidas e reduzir o sofrimento desnecessário através de doações para instituições de caridade eficazes que trabalham no mundo em desenvolvimento.

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2. Preciso economizar dinheiro para mim e para minha família.

Gastar dinheiro com nossas necessidades e de nossos familiares agora, ou poupar para necessidades educacionais futuras e aposentadoria, não tem que impedir-nos de doar para instituições de caridade altamente eficazes. Há duas maneiras de ajudar sem prejudicar a sua família agora ou no futuro. Primeiro, você pode transferir para instituições de caridade, que têm um impacto drástico comprovado, uma parte do que você doa atualmente. Em segundo lugar, aumente ligeiramente a quantidade total que você doa à caridade e dê esse aumento a essas instituições muito eficazes.

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3. A Minha doação é muito pequena para fazer a diferença.

Na verdade, pequenas doações podem fazer uma enorme diferença. Por exemplo, uma rede anti-malária custa apenas 2,50 dólares e protege duas pessoas por cerca de três anos. Os custos para satisfazer as necessidades humanas básicas no mundo em desenvolvimento são em geral muito menores do que os mesmos serviços e produtos no mundo desenvolvido.

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 3  4  5  6  7  8
 Fornece fortificação de micronutrientes a 7 crianças por 1 ano.
 Proteje alguém da malária por três a quatro anos, em média.
 Protege 6 crianças da esquistossomose por um ano.
 

Fornece óculos a uma pessoa em um país em desenvolvimento.
 

Fornece água potável a 23 membros de uma comunidade por um ano.
Transporta uma mulher para o hospital, ida e volta, custo médio.

 

 

 ↓

 

 

 

 3.1  4.1  5.1  6.1  7.1  8.1

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 4. A pobreza não pode ser erradicada.

O Banco Mundial define o padrão de pobreza extrema em 1,90 dólares por dia (outubro de 2015). Atualmente, 702 milhões de pessoas, ou 9,6 por cento da população global, se enquadra nesta categoria, lutando para sobreviver com essa quantia ou freqüentemente com menos. Ou seja, o equivalente ao que 1,90 dólares compraria em moeda local.

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Percentagem de pessoas em pobreza extrema

Embora o desenvolvimento sustentável seja fundamental para a eliminação da pobreza extrema, doações individuais desempenham um papel crucial no combate à pobreza extrema. Por exemplo, a malária é o maior empecilho à economia Africana (fonte: AMF). O financiamento de mosquiteiros anti-malária tem desempenhado um papel significativo na redução da incidência da malária e da mortalidade infantil. Além disso, ajudar a financiar medicamentos para combater doenças pode significar que uma criança seja capaz de permanecer na escola, ou que um pai seja capaz de continuar a trabalhar para sustentar a família. Doar pode ajudar a fornecer os recursos que são essenciais para melhorar o padrão de vida.

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5. A pobreza não é o problema — é o sintoma.

A pobreza extrema é um resultado de muitos fatores — históricos, bem como as atuais causas econômicas, políticas e sociais. Mas o fato é que ajudar as pessoas agora não só reduz o sofrimento desnecessário e salva vidas, mas também ajuda a criar as condições que favorecem a eliminação tanto da pobreza extrema quanto dos muitos fatores que a mantêm.

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Uma saúde melhor permite que as pessoas que vivem na pobreza contribuam muito mais fortemente para o seu próprio sucesso  podem trabalhar, ir para a escola, podem contribuir para o rendimento familiar, e não roubam tempo e capacidade de trabalho de alguém por não exigirem cuidado. Uma pessoa com deficiência na família, como um avô que ficou cego por conta de uma doença evitável, pode fazer com que uma criança perca a sua educação, a fim de cuidar desse membro da sua família.

6. Doações não ajudam as pessoas que mais precisam de ajuda.

Há milhares de organizações sem fins lucrativos que pode escolher para doar, e o processo de selecionar qual organização apoiar pode parecer uma tarefa assustadora. Felizmente, várias organizações realizam uma extensa pesquisa, a fim de determinar quais instituições de caridade irão usar seu dinheiro com maior eficácia para ajudar os mais necessitados do mundo.

Através de seus contatos com a GiveWell, Giving What We Can e outras, Peter Singer desenvolveu uma lista das instituições de caridade mais eficazes do mundo eficazes na obtenção de fundos para aqueles que mais precisam de apoio, e eficazes no uso significativo de fundos na obtenção de um alívio à pobreza sustentável:

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7. O alívio da pobreza é responsabilidade dos governos.

Quando lhes perguntaram se os Estados Unidos destinam à ajuda externa mais, menos ou a mesma quantia que outras nações desenvolvidas, apenas 1 em cada 20 americanos acertou. A maioria dos americanos fica surpresa ao saber que os Estados Unidos estão praticamente no fim da lista de países desenvolvidos em termos de percentagem do rendimento nacional que é atribuída à ajuda externa. Em 2006, os Estados Unidos ficaram atrás de Portugal e Itália, em penúltimo lugar, à frente apenas da Grécia. Naquele ano, os Estados Unidos deram apenas 18 centavos [Pt. 18 cêntimos] de cada 100 dólares de lucro um total de 0,18% para a ajuda externa.

Enquanto a maioria dos americanos acha que os Estados Unidos gastam demasiado com ajuda externa, a maioria acha que entre 5 a 10% dos gastos do governo deveriam ir para essa mesma ajuda externa! Em outras palavras, a maioria das pessoas quer “cortar” os gastos com ajuda externa para um nível cerca de 5 a 10 vezes maior do que os Estados Unidos realmente gastam nela (Veja Peter Singer, A Vida que Podemos Salvar, pp. 53-55).

Como parte dos Objectivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas, todas as nações desenvolvidas são incentivadas a destinar 0,7% do seu Produto Interno Bruto à assistência ao desenvolvimento das nações estrangeiras isso equivale a 70 centavos [Pt. 70 cêntimos] em cada 100 dólares. Para efeito de comparação, isso é menos do que a taxa do cartão de crédito que muitos consumidores sequer notam quando pagam por compras no exterior.

Apenas cinco países atingiram a meta de 0,7% até agora: a Dinamarca, o Luxemburgo, a Holanda, a Noruega e a Suécia, com o Reino Unido e a Finlândia quase lá. Outros países, como a Alemanha ou a Austrália, estão apenas na metade do caminho mas estão aumentando os seus esforços em direção à meta.

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8. As pessoas devem resolver seus próprios problemas.

O cientista social vencedor de um Prêmio Nobel, Herbert Simon, estima que cerca de 90% do que as pessoas ganham é baseado em seu capital social os lugares, redes de contato e oportunidades que compõem as suas circunstâncias atuais. Sem instituições estáveis, como bancos eficientes, uma força policial confiável, escolas funcionais e sistemas de justiça penal justos, é muito difícil competir em uma escala global.

O investidor americano e filantropo Warren Buffett reconhece que não teria adquirido a sua própria riqueza sem certas condições necessárias: “Se me largarem no meio de Bangladesh ou do Peru, verão quanto este talento vai produzir no tipo errado de solo”. Sem infra-estruturas estáveis, será difícil, se não impossível, superar a pobreza, não importa o quanto trabalha ou quanto talento tem (Veja Peter Singer, a vida que podemos salvar, p. 45).

Acrescente a isso o fato de que as pessoas em situação de pobreza são muito mais propensas a serem incapacitadas por doença e suas consequências, e poderá ver que essas condições iniciais se acumulam significativamente contra elas. Globalmente, quatro em cada cinco pessoas cegas sofrem de cegueira tratável  no entanto a falta de acesso a tratamento significa que estão impossibilitados de trabalhar e de participarem plenamente na vida social como resultado dessa deficiência.

A situação é especialmente terrível para as crianças cegas: nos países em desenvolvimento, mais de metade morre dentro de alguns anos após ficarem cegas, seja por causa da doença que causou sua cegueira ou porque a pobreza impede que as famílias possam cuidar de uma criança com deficiência.

Além disso, as pessoas em países do terceiro mundo têm que trabalhar muito duro apenas para cobrir suas necessidades básicas: por exemplo, as mulheres gastam globalmente 200 milhões de horas de trabalho todos os dias para buscar água para suas famílias o equivalente à construção de 28 Empire State Buildings.

Isto poderá dar-lhe uma idéia de quanto tempo e esforço as pessoas de nações em desenvolvimento têm de gastar apenas para sobreviver antes de chegar ao ponto onde podem conseguir um excedente de qualquer tipo.

9. A ajuda internacional torna os países em desenvolvimento dependentes de recursos externos e financiamento.

É verdade que a distribuição de alimentos diretamente às pessoas que vivem em pobreza extrema pode potencialmente perturbar as economias locais — por exemplo, tornando difícil para os agricultores locais tornarem os preços das suas colheitas competitivos. Exceto no caso de desastres naturais, epidemias infecciosas, doenças e outras emergências, doações deste tipo não são uma forma sustentável de combater os problemas associados com a pobreza extrema.

No entanto, muitos outros tipos de intervenções com êxito podem revigorar e fortalecer as economias locais ao fornecer bases para cuidados de saúde a longo prazo, soluções agrícolas e educacionais para aqueles nas nações em desenvolvimento.

Por exemplo, organizações como a Schistosomiasis Control Initiative e a Deworm the World trabalham diretamente com os governos na Africa subsaariana para criar e fortalecer programas de desparasitação. Tanto a SCI como a Deworm the World procuram garantir fundos para programas implementados pelo governo. Através da criação de sistemas de saúde eficazes, estas organizações preparam o caminho para programas-piloto se estabelecerem nos sistemas nacionais de saúde a longo prazo. Isto leva a uma eventual diminuição na dependência de ajuda externa.

10. A doação leva à superpopulação.

Qualquer um de nós argumentaria que o valor de uma vida humana é enorme. Na verdade, as normas internacionais para organizações de saúde privadas e governamentais colocam o valor de um único ano de vida humana à volta de 129 000 dólares.

Ninguém iria argumentar que as intervenções de saúde no mundo desenvolvido causam superpopulação. Tal afirmação parece sugerir que se deveria deixar morrer algumas pessoas  simplesmente para controlar o crescimento populacional. Esta ideia iria minar a nossa estabelecida convicção que vale a pena salvar cada vida humana mesmo ao custo de 129 000 dólares por ano.

Mais importante ainda, a alegação de que intervenções que salvam vidas levam ao crescimento populacional insustentável é falsa. As taxas de mortalidade na verdade têm pouco que ver com o declínio das populações. Pelo contrário, uma menor taxa de natalidade é o fator contribuinte mais importante para uma população viável e estável.

Hans Rosling Explica

O aclamado estatístico Hans Rosling explica a falácia por trás do mito da ajuda internacional em relação à população.

O melhor indicador da fertilidade da mulher é o seu nível educacional. O aumento do acesso à educação — e o acesso às necessidades materiais básicas que ajudam meninas no mundo em desenvolvimento a se inscrever e a ficarem matriculadas na escola — é a melhor forma de planejamento populacional.

Maior acesso a métodos contraceptivos dá às mulheres maior controle de sua fertilidade, e taxas de mortalidade infantil mais baixas incentivam as famílias a terem menos filhos. Da mesma forma, um maior acesso a oportunidades econômicas e educacionais significa que os pais não se sentem na necessidade de ter famílias grandes, uma vez que não vão estar dependentes do trabalho dos seus filhos, a fim de complementar o rendimento da família. E melhores serviços de saúde significam menos crianças morrendo, o que leva à escolha de ter famílias menores.


Página do site The Life You Can Save (Visitada a 15 de abril de 2017)

Tradução de Ronaldo Batista e revisão de José Oliveira.

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