A curta história das condições globais de vida e por que é importante que a conheçamos

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O nosso mundo em dados | Crédito da imagem: Pixabay

Texto original por Max Roser.


Essa é a introdução ao Our World in Data [Nosso Mundo em Dados] – a publicação online que mostra como as condições globais de vida estão mudando. Esse texto foi previamente intitulado “Uma história das condições de vida globais em cinco gráficos”.


Uma pesquisa de opiniões recente perguntou: “De maneira geral, você acha que o mundo está melhorando ou piorando, ou então que não está nem ficando melhor nem pior?”. Na Suécia, 10% das pessoas acharam que as coisas estão melhorando, enquanto que nos Estados Unidos foram apenas 6%, e na Alemanha somente 4%. Muito poucas pessoas acham que o mundo está melhorando.

Quais são as evidências que devemos considerar ao responder a essa pergunta? A pergunta versa sobre como o mundo mudou e portanto devemos tomar uma perspectiva histórica. Além disso, ela abrange o mundo inteiro e assim a resposta deve levar em conta todas as pessoas. A resposta deve considerar a história das condições de vida globais – uma história de todos.

I. Pobreza

Para ver de onde viemos, temos de regressar muito no tempo: trinta, ou mesmo cinquenta anos não é o suficiente. Quando apenas consideramos como parece ser o mundo durante a nossa vida, é fácil cometer o erro de pensar na sua história como relativamente estática – as partes ricas, saudáveis e educadas aqui, as regiões pobres, iletradas e doentes ali – e concluir falsamente que sempre foi assim, e sempre assim será.

Tome uma perspectiva mais ampla e torna-se muito claro que o mundo não é nada estático. Os países que hoje são ricos foram muito pobres até recentemente, e foram de fato piores do que os países pobres de hoje.

Para evitar retratar o mundo de maneira estática – o Norte sempre muito mais rico do que o Sul – temos que começar há duzentos anos atrás, antes das condições de vida começarem realmente a mudar de forma dramática.

Pesquisadores definem a pobreza extrema como o fato de se viver com menos do que 1,90$ por dia. Esses cálculos consideram formas não-monetárias de rendimento – para famílias pobres de hoje e do passado isso é importante, particularmente por causa da agricultura de subsistência. A medida de pobreza também é corrigida pelos níveis dos preços em diferentes países e ajustada para mudanças de preço com o tempo (inflação) – a pobreza é medida em dólares internacionais que levam em conta esses ajustes.

O primeiro gráfico mostra as estimativas da parcela da população mundial vivendo na pobreza extrema. Em 1820, apenas uma pequena elite gozava de um alto padrão de vida, ao passo que a ampla maioria das pessoas vivia em condições que hoje seriam consideradas pobreza extrema. Desde então, a proporção de pessoas em pobreza extrema caiu continuamente. Cada vez mais regiões do mundo industrializaram-se e assim tiveram um aumento de produtividade, o que tornou possível retirar mais pessoas da pobreza: em 1950, três quartos do mundo vivia em condições de pobreza extrema; em 1981, ainda eram 44%. No último ano, pesquisas sugerem que a parcela de pessoas em pobreza extrema caiu abaixo dos 10%.

Esta é uma conquista enorme: para mim, como pesquisador que concentra-se no crescimento e desigualdade, talvez seja a maior dos últimos dois séculos. Ela é particularmente notável se considerarmos que a população mundial aumentou 700% nos últimos dois séculos – mude para a visualização ‘Absoluta’ no gráfico abaixo para ver o número de pessoas a entrar e sair da pobreza [a legenda de cada imagem apresenta um link para a versão original, que é interativa]. Em um mundo sem crescimento econômico, tal aumento da população teria resultado em cada vez menos rendimento para todos; um aumento de sete vezes da população mundial teria sido o suficiente para levar todos à pobreza extrema. Apesar disso, o exato oposto aconteceu. Em um período de crescimento populacional sem precedentes, nosso mundo conseguiu dar mais prosperidade às pessoas e retirá-las continuamente da pobreza.

Aumentar a produtividade foi importante porque tornou bens e serviços vitais menos escassos: mais comida, melhor vestimenta e habitação menos superlotada. Produtividade é a relação entre o resultado do nosso trabalho e a nossa contribuição para que seja realizado; enquanto a produtividade aumentava, beneficiávamos de mais resultados, mas também de menos contribuições – as horas de trabalho semanais caíram consideravelmente.

O crescimento econômico também foi importante porque mudou as relações entre as pessoas. Durante o longo período em que o mundo não apresentava crescimento, a única maneira de melhorar a própria situação era piorando a de outrem. A sua própria boa sorte era a má sorte dos vizinhos. O crescimento econômico mudou isso, tornou possível melhorar a sua situação enquanto melhorava a situação dos outros. A inventividade daqueles que criaram as tecnologias que aumentaram a produtividade – o carro, as máquinas, a tecnologia de comunicações – tornou alguns deles muito ricos e ao mesmo tempo aumentou a produtividade e o rendimento de outros. É difícil exagerar o quão diferente são as vidas em uma economia de soma zero ou em uma economia de soma positiva.

Infelizmente, a mídia é excessivamente obcecada por reportar eventos únicos e aquilo que corre mal, não prestando atenção o suficiente nos lentos desenvolvimentos que remodelam nosso mundo. Com esses dados empíricos sobre a redução da pobreza, podemos tornar concreta a maneira como uma mídia que noticiasse o desenvolvimento global seria. A manchete poderia ser “O número de pessoas vivendo em miséria diminuiu em 130 mil desde ontem” – e não a publicariam apenas uma vez, mas sim todos os dias desde 1990, tendo em vista que em média, existiram 130 mil pessoas a menos vivendo em extrema pobreza a cada dia.

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[Parcela da] População mundial vivendo na pobreza extrema, 1820 a 2015 [Vermelho] Parcela da população a viver em pobreza extrema; [Verde] parcela que não vive em pobreza extrema.

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População mundial vivendo na pobreza extrema, 1820 a 2015 [em termos absolutos] [Vermelho] Pessoas a viver em pobreza extrema; [Verde] pessoas que não vivem em pobreza extrema.

II. Literacia

Como mudou a educação da população mundial ao longo desse período? O gráfico abaixo mostra a fração da população mundial capaz de ler e escrever ao longo dos dois últimos séculos. No passado, apenas uma pequena elite sabia ler e escrever. A educação de hoje – inclusive a dos países mais ricos – é, mais uma vez, uma conquista muito recente. Foi nos últimos dois séculos que a literacia passou a ser a norma para toda a população.

Em 1820, apenas um décimo das pessoas com mais de 15 anos sabia ler e escrever; em 1930, essa fração era um terço e agora somos 85% da população global. Em outras palavras, se estivesse vivo em 1800, a probabilidade de não saber ler nem escrever era de 90% – hoje mais de 8 em cada 10 pessoas são capazes de ler e escrever. E se for jovem hoje, essa probabilidade é muito mais alta pois muitos dos que hoje não sabem ler e escrever são idosos.

Se acha que ciência, tecnologia e liberdade política são importantes para resolver os problemas do mundo, e se acha que saber ler e escrever ajuda a fazer isso, então olhe para os números abaixo em termos absolutos. Hoje há mais de 5,4 bilhões [PT: milhares de milhões] de pessoas com mais de 15 anos de idade dos quais, como mostra o gráfico, 85% são alfabetizados – são 4,6 bilhões [PT: milhares de milhões] de pessoas. Em 1800 havia menos de 100 milhões de pessoas com essa capacidade.

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[Parcela da] População mundial que sabe e não sabe ler e escrever, 1800 a 2014 [Vermelho] População mundial iletrada; [Azul] População mundial que sabe ler e escrever.

III. Saúde

Uma razão pela qual não vemos o progresso é não estarmos cientes de como o passado era ruim.

Em 1800, as condições de saúde de nossos antepassados eram tais que 43% dos recém-nascidos morriam antes do seu quinto aniversário. As estimativas históricas sugerem que o mundo inteiro vivia em condições de pobreza; havia relativamente pouca variação entre diferentes regiões, e em todos os países do mundo mais de um terço das crianças morria antes de completar cinco anos de idade.

Seria errado acreditar que a medicina moderna foi a única razão para a melhoria na saúde. Inicialmente, o aumento da prosperidade e a mudança na natureza da vida social importaram mais do que a medicina. Foram aprimoramentos na habitação e saneamento que melhoraram as nossas hipóteses na velha guerra contra as doenças contagiosas. Uma dieta mais saudável – possibilitada por uma maior produtividade no setor agrícola e pelo comércio internacional – tornou-nos mais resilientes contra doenças. Surpreendentemente, melhorar nutrição e saúde também nos tornou mais inteligentes e mais altos.

Apesar disso, ciência e medicina certamente também importaram. Uma população mais educada fez uma série de grandes progressos científicos que possibilitaram reduzir a mortalidade e a doença ainda mais. Particularmente importante foi a descoberta da teoria microbiana das doenças, na segunda metade do século XIX. Em retrospectiva, é difícil entender porque uma nova teoria pode ser tão importante. No entanto, em uma época em que os médicos não lavavam suas mãos ao passar de autópsias ao trabalho de parto, a teoria finalmente convenceu nossos antepassados de que a higiene e o saneamento público eram cruciais para a saúde.

A teoria microbiana das doenças foi a base para o desenvolvimento dos antibióticos e das vacinas, além de ter ajudado o mundo a ver o por quê da saúde pública ser tão importante. A saúde pública fez uma diferença enorme: todos se beneficiam do fato dos outros serem vacinados, e todos se beneficiam se eles seguem os padrões de higiene.

Com essas mudanças, a saúde global melhorou de uma maneira que não era concebível para nossos antepassados. Em 2015, a mortalidade infantil diminuiu para 4,3% – dez vezes menos do que há dois séculos. É necessário tomar essa perspectiva ampla para ver o progresso que conseguimos.

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Mortalidade infantil global, 1800 a 2015[Vermelho] Parcela da população mundial que morre até aos 5 anos; [Azul] parcela que sobrevive até os 5 anos.

IV. Liberdade

Liberdades políticas e civis estão no âmago do desenvolvimento – elas são tanto um meio quanto um fim para o progresso. O jornalismo e o discurso público são os pilares de base dessa liberdade; entretanto, com avaliações qualitativas desses aspectos, corremos o risco de perceber um declínio da liberdade ao longo do tempo quando de fato aumentamos o padrão com que a julgamos. Avaliações quantitativas podem então ser úteis quando nos ajudam a medir a liberdade em relação a esse mesmo padrão, em vários países e ao longo do tempo.

Há muitas tentativas de medir os tipos de regimes políticos que governam os países do mundo, e capturar algo tão complexo quando um sistema político é necessariamente controverso. Simplesmente não há como o evitar. Nessa análise, vou utilizar o índice Polity IV, já que esta é a medida menos problemática daquelas que apresentam uma perspectiva de longo prazo. O índice mede regimes políticos em um espectro de +10 (para democracias plenas) a -10 (para autocracias puras); regimes que se encontram entre esses extremos são denominados anocracias. A essa informação, adicionei os países que eram governados por outros como parte de um império colonial.

Mais uma vez, quero dar uma perspectiva temporal para ter uma idéia de como a liberdade política mudou nos últimos duzentos anos.

O gráfico mostra a fração das pessoas vivendo em diferentes tipos de regimes políticos ao longo dos últimos dois séculos. Durante o século XIX, mais de um terço da população viveu em regimes coloniais e quase todos os outros viveram em países governados de maneira autocrática. A primeira expansão da liberdade política no final do século XIX em diante foi esmagada pelo crescimento de regimes autoritários, que em muitos países tomaram posse no período anterior à Segunda Guerra Mundial. Na segunda metade do século XX, o mundo mudou significativamente: os impérios coloniais terminaram, e cada vez mais países tornaram-se democráticos. A parcela da população mundial vivendo em democracias aumentou continuamente – a queda da União Soviética foi particularmente importante por permitir que mais países se democratizassem. Hoje, mais da metade do mundo vive em uma democracia.

A grande maioria daqueles que ainda vivem em uma autocracia – 4 em cada 5 – vive em um único país autocrático: a China.

Os direitos humanos também são difíceis de medir de maneira consistente ao longo do tempo. Os melhores dados empíricos mostram que depois de um período de estagnação, a proteção dos direitos humanos melhorou em uma escala global nas últimas três décadas.

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Número de cidadãos mundiais vivendo sob diferentes regimes políticosO índice Polity IV captura o tipo de regime político de cada país, em uma escala de -10 (autocracia pura) a +10 (democracia plena). Regimes que se encontram no meio desse espectro são chamados anocracias. [Verde] População em uma democracia; [Amarelo] População em uma anocracia aberta; [Laranja] População em uma anocracia fechada; [Vermelho] População em uma autocracia; [Roxo] População em uma colônia; [Cinza] País em transição, ou para o qual não há dados.

V. População

Se clicar em ‘Absoluto’ em qualquer um dos gráficos anteriores, vai ver o aumento da população mundial nos últimos dois séculos. A população mundial era de cerca de 1 bilhão [PT: mil milhões] de pessoas em 1800 e aumentou sete vezes desde então.

O crescimento populacional aumentou a procura humana por recursos e amplificou o impacto da humanidade no meio-ambiente. Entretanto, esse aumento da população mundial deveria despertar mais do que pessimismo. Em primeiro lugar, revela uma enorme conquista, pois mostra que os seres humanos pararam de morrer nas proporções em que os nossos antepassados morreram ao longo de muitos milênios antes.

Nos tempos pré-modernos, a fertilidade era alta – 5 ou 6 filhos por mulher, por norma. O que manteve o crescimento populacional baixo foi a altíssima taxa de mortalidade, e isso significava que muitas crianças morriam antes de atingirem a idade reprodutiva. O aumento populacional ocorreu quando a humanidade começou a vencer a batalha contra a morte. A expectativa de vida global dobrou apenas nos últimos cem anos.

O crescimento populacional é uma consequência da natalidade e da mortalidade não diminuírem simultaneamente. O rápido crescimento da população aconteceu quando a fertilidade ainda era tão alta quanto no ambiente insalubre do passado, mas a mortalidade já tinha sido reduzida aos baixos níveis do nosso tempo.

O que se observou em muitos países nos últimos duzentos anos foi que, uma vez que as mulheres perceberam que as probabilidades dos seus filhos morrerem diminuiu substancialmente, elas se adaptaram e optaram por ter menos filhos. A população então pára de crescer. Essa mudança de alta para baixa mortalidade e natalidade é chamada de transição demográfica. Nos países que passaram primeiro pela industrialização, ela durou pelo menos do meio do século XIX até à metade do século XX – no Reino Unido, foram necessários 95 anos para que a fertilidade passasse de mais de 6 filhos para menos de 3 filhos por mulher. Alguns países que mudaram depois realizaram essa transição muito mais rapidamente: a Coréia do Sul passou de mais de 6 filhos por mulher a menos de 3 em apenas 18 anos, enquanto o Irã o fez em apenas 10 anos.

Assim como países passaram por essa transição, também o mundo o fez. A natalidade global diminuiu mais do que pela metade nos últimos 50 anos, passando de mais de 5 filhos por mulher no início dos anos 60 até menos de 2,5 hoje. Isso significa que o mundo já está em plena transição demográfica e o crescimento da população mundial atingiu seu pico há meio século atrás.

Agora que vemos um declínio da natalidade em todo lado, chegamos ao fim do crescimento populacional: a população global quadruplicou ao longo do século XX, mas neste século não vai sequer dobrar. No final do século, a ONU [Organização das Nações Unidas] prevê um lento crescimento populacional anual de 0,1%, ao passo que demógrafos do IIASA [Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados] esperam o fim do crescimento populacional por volta de 2075.

VI. Educação

Nenhuma das conquistas dos últimos dois séculos poderia ter sido feita sem a expansão do conhecimento e da educação. A revolução em como vivemos não foi apenas conduzida pela educação, mas também a tornou mais importante do que nunca.

Sabemos que a educação está a caminho de melhorar globalmente. Ao contrário de muitos outros aspectos sociais para os quais previsões possuem utilidade limitada, eu acho que a educação é uma daquelas em que se pode fazer projeções úteis para o futuro. A simples razão para isso é que a composição educacional de hoje nos diz algo sobre a educação de amanhã – uma jovem alfabetizada hoje será uma idosa alfabetizada em 2070, e uma estudante com educação secundária hoje continuará a ter essa formação no futuro.

As pessoas jovens de hoje têm um nível de educação muito melhor do que as mais idosas. Além disso, com a diminuição do tamanho das coortes [o conjunto de pessoas que nasceram no mesmo período], as escolas que já existem podem prestar melhor serviço à próxima geração.

A visualização abaixo mostra a projeção do IIASA para o tamanho e a composição educacional da população mundial até 2100. É uma janela interessante para o futuro: com a baixa natalidade de hoje, os pesquisadores esperam que o número de crianças diminua a partir de agora – nunca haverá mais crianças no planeta do que hoje. E como mencionado anteriormente, os pesquisadores do IIASA esperam que a população mundial atinja o ápice em 2070 e diminua a partir de então.

Concentrando-se na decomposição educacional, a projeção aponta que em 2100 não haverá quase ninguém sem educação formal, e haverá mais do que 7 bilhões [PT: milhares de milhões] de mentes que terão recebido ao menos a educação secundária.

Dada a grande importância da educação no aprimoramento da saúde, no aumento da liberdade política, e no combate à pobreza, essa projeção é bastante encorajadora.

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Projeção da população mundial, segundo o nível de educação, 1970 a 2100Essa visualização mostra a projeção “Média” do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados (IIASA). Os pesquisadores que a criaram descrevem-na como o “cenário moderado que também pode ser visto como o caminho mais provável”. [Cinza] Menos de 15 anos de idade; [Vermelho] Sem educação formal; [Amarelo] Br. Ensino Fundamental I Incompleto /Pt. Básico incompleto; [Laranja] Br. Ensino Fundamental I/ Pt. 1.º Ciclo do Ensino Básico; [Verde claro] Br. Ensino Fundamental II/ Pt. 2.º Ciclo do Ensino Básico; [Verde escuro] Br. Ensino Médio/ Pt. Ensino Secundário; [Azul] Br. Pós-Ensino Médio/ Pt. Pós-Ensino Secundário.

VII. Por que não sabemos que nosso mundo está mudando?

A motivação para essa história das condições globais de vida foi o resultado da pesquisa de opinião documentando que a maioria de nós tem uma perspectiva de desenvolvimento global bastante negativa. Mais do que 9 em cada 10 pessoas não acha que o mundo está melhorando. Como isso se encaixa com as evidências empíricas?

Não acho que a mídia seja a única culpada, mas acho que eles têm parte da culpa. Isso porque ela não nos diz como o mundo está mudando, mas apenas nos diz o que há de errado no mundo.

Uma razão porque a mídia foca nas coisas que correm mal vem do seu enfoque em eventos individuais, e estes são frequentemente ruins – basta ver as notícias: quedas de avião, ataques terroristas, desastres naturais, resultados eleitorais que não nos agradam.
Por outro lado, desenvolvimentos positivos acontecem frequentemente muito devagar e nunca chegam às manchetes dessa mídia obcecada por eventos.

O resultado de uma mídia – e um sistema educacional – que falham em apresentar informação quantitativa acerca de desenvolvimentos de longo prazo é que a ampla maioria das pessoas ignora completamente o desenvolvimento global. Mesmo o declínio da pobreza extrema – inegavelmente uma das mais importantes conquistas a acontecer durante as nossas vidas – só é conhecido por uma pequena fração da população britânica (10%) ou americana (5%). Em ambos os países, a maioria das pessoas acha que a fração das pessoas a viver na pobreza extrema aumentou! Dois terços dos americanos acham ainda que essa parcela ‘quase dobrou’. Quando ignoramos o desenvolvimento global, não é surpreendente que sejam poucos a pensar que o mundo está melhorando.

A única maneira de contar uma história de todos é usando estatísticas; só então podemos esperar ter um panorama das 22 bilhões [PT: milhares de milhões] de vidas que existiram nos últimos 200 anos. Os desenvolvimentos que essas estatísticas revelam transformam nossas condições globais de vida – lenta mas firmemente. Estão documentados nessa publicação online – Our World in Data – que minha equipe e eu temos construído ao longo dos últimos anos. Nós a vemos como um recurso para mostrar esses desenvolvimentos de longo prazo e portanto complementar a informação das notícias, que se focam em eventos.

A dificuldade em contar a história de como a vida de todos mudou nos últimos 200 anos é que não podemos escolher histórias únicas. Histórias sobre indivíduos são muito mais envolventes – nossas mentes gostam delas – mas não podem ser representativas de como o mundo mudou. Para se alcançar uma representação de como o mundo mudou em geral, é necessário contar muitas histórias de uma só vez, e isso é estatística.

Para simplificar o meu e o seu entendimento da transformação das condições de vida que conquistamos, criei uma visualização-resumo em que imagino essa história de 200 anos como aquela de um grupo de 100 pessoas, para ilustrar como as suas vidas teriam mudado se elas tivessem vivido durante esse período de transformação do mundo moderno.

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Aqui é possível baixar o gráfico dos 200 anos em alta resolução, para impressão. [O mundo como cem pessoas, através dos últimos dois séculos. À esquerda: acima – Pobreza extrema; ao meio – Educação básica; abaixo – Literacia | À direita: acima – Democracia; ao meio – Vacinação (contra difteria, coqueluche e tétano); abaixo – Mortalidade infantil]

VIII. Por que importa que não saibamos que nosso mundo está mudando

A bem-sucedida transformação das nossas condições de vida só foi possível por causa da colaboração. Tamanha transformação teria sido impossível através da realização de uma única pessoa. Nossos cérebros coletivos e esforços colaborativos são necessários para tal melhoria.

Há grandes problemas que ainda persistem. Nada do que está acima deveria nos dar razão para sermos complacentes. Ao contrário, mostra que muito trabalho ainda precisa ser feito – realizar a mais rápida redução na pobreza é uma enorme conquista, mas o fato de 1 em cada 10 pessoas viver hoje na pobreza extrema é inaceitável. Nós também não devemos aceitar as restrições à nossa liberdade que continuam e que são estabelecidas. Também é claro que o impacto da humanidade no meio-ambiente está em um nível que não é sustentável e ameaça a biosfera e o clima do qual dependemos. Nós precisamos urgentemente reduzir nosso impacto.

O progresso na solução desses problemas está longe de estar garantido – não há lei de ferro que garanta que o mundo continue nessa direção de aprimoramento nas condições de vida. O que a perspectiva de longo prazo torna claro é que os 200 anos nos deixaram numa posição mais favorável do que nunca para que resolvamos esses problemas. Resolver problemas – grandes problemas – é sempre uma tarefa colaborativa. O grupo de pessoas capaz de trabalhar juntas hoje é muito, muito mais forte do que jamais existira neste planeta. Nós acabamos de ver a mudança ao longo do tempo; o mundo hoje é mais saudável, mais rico e melhor instruído.

Para que a nossa história seja uma fonte de encorajamento, precisamos conhecê-la. A história que contamos a nós mesmos sobre nossa história e nosso tempo importa. Uma vez que nossas esperanças e empenhos para construir um futuro melhor estão inevitavelmente ligados ao passado, é importante que entendamos e comuniquemos o desenvolvimento global até então. Uma visão positiva dos nossos esforços e daqueles dos nossos semelhantes é uma condição vital para o aproveitamento dos nossos empenhos. Saber que percorremos um longo caminho na melhoria das condições de vida e a noção de que nosso trabalho vale a pena é para nós o que o respeito próprio é para um indivíduo. É uma condição necessária para o autoaperfeiçoamento.

A liberdade é impossível sem a fé nas pessoas livres. Se não estivermos cientes de nossa história e falsamente acreditarmos no contrário do que é verdade, corremos o risco de perder a fé uns nos outros.


Tradução de Daniel de Bortoli. Revisão de José Oliveira.

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