Limitações do paroquialismo

Ndejje, Uganda | Angie Vredeveld

Ndejje, Uganda | Angie Vredeveld

Em “Quanto Custa Salvar uma Vida” [Pt. “A Vida Que Podemos Salvar”], Peter Singer identifica o paroquialismo como uma das várias barreiras que impedem as pessoas de dar dinheiro a quem vive em pobreza extrema – especificamente, a preferência por partilhar recursos em primeiro lugar com as pessoas que vivem em sua proximidade geográfica. De muitas maneiras, o paroquialismo é uma resposta natural. De uma perspectiva  evolucionista, concentrar os nossos recursos em nossos filhos e nossa tribo ajudou a garantir que eles teriam as melhores chances possíveis de sobreviver. Muitos na sociedade de hoje consideram essa perspectiva tanto natural como afetiva, o que nos permite canalizar os nossos recursos para o desenvolvimento e proteção de nossos filhos e entes queridos. Entretanto, só porque o paroquialismo é uma resposta natural não significa necessariamente que seja uma escolha moralmente superior em todas as situações. Existem limitações importantes na perspectiva paroquial quando confrontada com o problema da pobreza extrema.

Uma limitação é a suposição de que todas as pessoas são igualmente necessitadas. Doar 50 dólares à sua comunidade artística local pode ser um gesto generoso de apoio, mas é importante ter em mente que, em termos objetivos, existem pessoas que precisam mais desse dinheiro. Pesquisas recentes da Gallup mostram que 1% da população dos EUA e 54% da população Africana Sub-Saariana vivem em pobreza extrema (definida pelo Banco Mundial como 1,25 dólares ou menos por dia). Vivemos em um mundo de recursos limitados; há sempre custos de oportunidade e há sempre alguém para quem essa mesma quantidade de dinheiro pode ser mais valiosa e talvez até possa salvar-lhe a vida.

Porcentagem da população mundial vivendo com menos de $1.25 por dia | Wikipedia.com

Percentagem da população mundial vivendo com menos de $1.25 por dia | Wikipedia.com

Uma limitação à parte, mas relacionada, diz respeito à percentagem do nosso rendimento que é realmente dedicado a apoiar os nossos entes queridos, em comparação com aquela que é usada de maneira mais supérflua. Em um estudo realizado pelo Economic Policy Institute, intitulado “What We Need to Get By[“O que precisamos para sobreviver”], Jared Bernstein e James Lin estimam que a família americana média precisa de 48 778 dólares por ano para satisfazer as suas necessidades básicas – e que quase um terço das famílias ficam aquém deste valor de referência. Não imagino que alguém dissesse que um pai esforçado dos EUA deveria se recusar regularmente a dar de jantar aos seus filhos, a fim de doar seu dinheiro a uma organização de combate à pobreza extrema. Esta troca das necessidades básicas de uma pessoa pelas de outra não promoveria ganho geral. Mas o estudo também mostra que um total de dois terços das famílias nos EUA não tem que lutar para satisfazer as suas necessidades básicas. Poderíamos, aqueles de nós nesta maioria, poupar em alguns dos luxos que compramos para nós e nossas famílias para dar um pouco da nossa riqueza àqueles que mais precisam? É natural amar e dedicar recursos aos nossos filhos, mas é importante não confundir necessidades básicas com extras menos essenciais.

A terceira limitação do paroquialismo com relação à pobreza extrema é que, ao concentrar os recursos localmente, podemos estar a expor-nos, e àqueles que queremos proteger, a um dano ou risco maiores do que se tivéssemos alocado os nossos recursos internacionalmente. Em um artigo de opinião em março de 2012 no blogue “On The Ground” do New York Times, Jake Harriman argumentou que os esforços para combater o terrorismo devem ir além da luta contra terroristas específicos ou redes terroristas, para se concentrar na luta contra a pobreza extrema como um importante conjunto de condições que fomentam a ideologia terrorista. Em seu artigo, Harriman citou Desmond Tutu sobre a relação entre pobreza extrema e terrorismo: “Nunca se pode ganhar uma guerra contra o terror, enquanto há condições no mundo que torne as pessoas desesperadas – a pobreza, a doença, a ignorância.” Se o objetivo é proteger as pessoas mais próximas de nós, a melhor maneira de fazê-lo poderia ser a de ajudar as pessoas mais distantes.

Uma casa em Kanembwe, Ruanda | Angie Vredeveld.

Uma casa em Kanembwe, Ruanda | Angie Vredeveld.

Se reconhecermos as limitações do paroquialismo quando aplicado à pobreza extrema, como poderíamos tentar contrariar nosso instinto relativamente a isso? Na minha opinião, a resposta é através da exposição a pessoas que vivem ou viveram em pobreza extrema.

De acordo com “Mountains Beyond Mountains“, a biografia do fundador da Partners in Health, Paul Farmer, escrita por Tracy Kidder e Paul Michaels, ele se debateu muito com a questão de como poderia amar e concentrar os seus recursos em sua filha recém-nascida mais do que nas crianças com quem trabalhou no Haiti. “Eu achava que era o rei da empatia por essas pobres crianças”, ele reflete, “mas se era o rei da empatia, porquê esta grande mudança por causa da minha filha? Foi um fracasso da empatia, a incapacidade de amar outras crianças, tanto quanto a minha. A verdade é que, todo mundo entende isso, incentiva isso e nos elogia isso. Mas o mais difícil é outra coisa [amá-los todos igualmente].” A exposição à pobreza extrema muda algo fundamental sobre a nossa visão dos recursos e da nossa responsabilidade em sua atribuição.

Como poderia uma pessoa que vive nos EUA ter exposição às pessoas que vivem na pobreza extrema? Uma forma seria explorar documentários, podcasts e sites dedicados a compreender e a erradicar a pobreza extrema. O “Relatório da Pobreza Extrema” e o “Apelo à Ação” da The Life You Can Save oferecem pontos de partida para aprender mais sobre aqueles em situação de pobreza extrema, e recomenda treze organizações que prestam ajuda direta aos mais pobres do mundo. Idealmente, a exposição também implicaria desenvolver relacionamentos com as pessoas que vivem ou viveram em situação de pobreza extrema , já que isso teria um maior potencial para desafiar e mudar o nosso comportamento de doação. Visitar países onde a pobreza extrema existe em grandes proporções, requer um investimento financeiro inicial, mas pode ter enormes efeitos multiplicadores quando se regressa a casa. Podem existir oportunidades através de organizações locais religiosas ou de justiça social, ou através de grupos estudantis ou profissionais de turismo educacional. No entanto, o desenvolvimento de relações com aqueles em situação de pobreza extrema não precisa envolver viagens internacionais. Qualquer um pode se tornar voluntário através de uma organização local, tal como as de serviço aos refugiados assolados pela pobreza recém chegados aos EUA. Na minha opinião, a via específica escolhida para obter essa exposição não é tão importante. O que é crítico é que a experiência o ajuda a reconsiderar o seu papel em ajudar a acabar com a pobreza extrema.


Texto originalmente postado por Angie Vredeveld no blogue The Life You Can Save, a 6 de agosto de 2014.

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão José Oliveira.

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