Negligência do Alcance

passaro

Pelicano sujo de petróleo | Flickr

 

3 – Negligência do Alcance

Eliezer Yudkowsky 1

Imagine que 2.000, 20.000 ou 200.000 aves migratórias morrem a cada ano por afogamento em tanques de petróleo descobertos, que os pássaros confundem com extensões de água. Essas mortes poderiam ser evitadas cobrindo os tanques de petróleo com redes. Quanto dinheiro você estaria disposto a pagar para fornecer as redes necessárias?

Três grupos de indivíduos consideraram três versões da questão acima, perguntando-lhes quanto aceitavam num aumento de impostos para salvar 2.000, 20.000 ou 200.000 aves. A resposta, conhecida como Vontade Expressa de Pagar, ou VEP, teve uma média de 80 dólares para o grupo de 2.000 aves, 78 dólares pelas 20.000 aves, e 88 dólares pelas 200.000 aves (Desvousges et al) .2 Esse fenômeno é conhecido como insensibilidade ao alcance ou negligência do alcance.

Estudos semelhantes mostraram que residentes de Toronto pagariam apenas um pouco mais para limpar todos os lagos poluídos de Ontário do que os lagos poluídos em uma região particular de Ontário3, e que os residentes de quatro estados norte-americanos no oeste pagariam apenas mais 28% para proteger todas as 57 áreas silvestres nesses estados do que para proteger uma única área.4

A explicação com a mais ampla aceitação para a negligência do alcance apela à heurística afetiva. Kahneman, Ritov, e Schkade escrevem:

A história construída por Desvousges et al provavelmente evoca para muitos leitores uma representação mental de um incidente prototípico, talvez a imagem de um pássaro exausto, suas penas encharcadas em petróleo negro, incapaz de escapar. A hipótese de valorização
por protótipo afirma que o valor afetivo desta imagem vai dominar as expressões da atitude para com o problema — incluindo a disposição de se pagar por uma solução. A avaliação pelo protótipo implica a negligência de extensão.5

Duas outras hipóteses sobre a negligência de alcance incluem a compra de satisfação moral 6 e o depósito de boas causas.7

A compra de satisfação moral sugere que as pessoas gastam dinheiro suficiente para criar um “calor interior” em si mesmas, e a quantidade necessária é uma propriedade da psicologia da pessoa, nada tendo a ver com pássaros. O direcionamento a boas causas sugere que as pessoas têm uma certa quantia de dinheiro que estão dispostas a pagar pelo “meio ambiente” e qualquer pergunta sobre bens ambientais aciona essa quantidade.
A negligência do alcance se provou aplicável a vidas humanas. Carson e Mitchell (1995) relatam que aumentando o alegado risco associado à água potável clorada de 0,004 para 2,43 mortes anuais por 1.000 (um fator de 600) aumentou o plano de tratamento das águas de 3,78 dólares para 15,23 dólares (um fator de 4). Baron e Greene não encontraram qualquer efeito ao variar o número de vidas salvas por um fator de dez.8

Fetherstonhaugh et al, em um artigo intitulado “Insensitivity to the Value of Human Life: A Study of Psychophysical Numbing”*, encontraram evidências de que nossa percepção de mortes humanas e valorização de vidas humanas, obedece à Lei de Weber — ou seja, nós usamos uma escala logarítmica. 9 E, de fato, estudos sobre a negligência do alcance em que as variações quantitativas são suficientemente grandes para provocar qualquer sensibilidade, mostram pequenos aumentos lineares na disposição de pagar que correspondam a aumentos exponenciais no alcance.

Kahneman, Ritov, e Schkade interpretam isso como um efeito aditivo da influência do alcance e da influência do protótipo — a imagem protótipo provoca a maior parte da emoção e o alcance provoca uma menor quantidade de emoção que é adicionada (não multiplicada) ao primeiro valor.

Albert Szent-Györgyi disse: “fico profundamente comovido se vejo um homem sofrendo e arriscaria minha vida por ele. Então eu falo impessoalmente sobre a possível aniquilação das nossas grandes cidades, com uma centena de milhões de mortos. Sou incapaz de multiplicar o sofrimento de um homem por uma centena de milhões”. As emoções humanas ocorrem dentro de um cérebro analógico. O cérebro humano não pode desencadear neurotransmissores suficientes para sentir emoções mil vezes mais fortes que a dor de um funeral. Um risco potencial passando de 10 000 000 mortes para 100 000 000 mortes não multiplica por dez a força da nossa determinação para impedi-las. Isso adiciona mais um zero no papel para os nossos olhos perderem o foco, um efeito tão pequeno que, normalmente, temos que saltar várias ordens de grandeza para detectar experimentalmente a diferença.

A moral da história é que, se você quer ser um altruísta eficaz, terá de ponderar sobre isso com a parte de seu cérebro que processa esses desinteressantes zeros de tinta no papel, não apenas a parte que se comove com o pobre pássaro a debater-se encharcado em petróleo.

[Continuar a ler aqui.]


Artigo de Eliezer Yudkowsky

Tradução de Thiago Tamosauskas e revisão de Celso Vieira e José Oliveira.

 

Notas:

1 – Este artigo foi extraído do do volume de 2008 do Global Catastrophic Risks de Nick Bostrom e Milan Cirkovic e do post no blog Scope Sensitivity de Eliezer Yudkowsky em 2007, www.lesswrong.com/lw/hw/scope_insensitivity.

2 – Desvousges, William H., F. Reed Johnson, Richard W. Dunford, Kevin J. Boyle, Sara P. Hudson, eK. Nicole Wilson. 1993. “ Measuring Natural Resource Damages with Contingent Valuation: Tests of Validity and Relia- bility.” In Hausman 1993, 91–164.

3 – Kahneman, Daniel. “Comments by Professor Daniel Kahneman.” em Valuing Environmental Goods: An Assessment of the Contingent Valua- tion Method, editado por Ronald G. Cummings, David S. Brookshire, and William D. Schulze, (1986), 226–235. Vol. 1.B. Experimental Methods for Assessing Environmental Benefits. Totowa, NJ: Rowman & Allanheld. http://yosemite.epa.gov/ee/epa/eerm.nsf/vwAN/EE-0280B- 04.pdf/$file/EE-0280B-04.pdf.

4 – McFadden, Daniel L., e Gregory K. Leonard. “ Issues in the Contingent Valuation of Environmental Goods: Methodologies for Data Collection and Analysis.” em Hausman 1993, 165–215.

5 – Kahneman, Daniel, Ilana Ritov, e David Schkade. “ Economic Preferences or Attitude Expressions?: An Analysis of Dollar Responses to Public Issues.” Journal of Risk and Uncertainty 19.1–3 (1999):203–235.

6 – Kahneman, Daniel, e Jack L. Knetsch.“ Valuing Public Goods: The Pur- chase of Moral Satisfaction.” Journal of Environmental Economics and Manage- ment 22.1 (1992), 57–70.

7 – Carson, Richard T., e Robert Cameron Mitchell. 1995. “Sequencing and Nesting in Contingent Valuation Surveys.” Journal of Environmental Economics and Management 28.2 (1992), 155–173.

8 – Baron, Jonathan,e Joshua D. Greene. 1996. “Determinants of Insensitiv- ity to Quantity in Valuation of Public Goods: Contribution, Warm Glow, Budget Constraints, Availability, and Prominence.” Journal of Experimental Psychology: Applied 2.2 (1996), 107–125.

* “Insensibilidade ao Valor da Vida Humana: Um Estudo do Entorpecimento Psicofísico” (N. do T.)

9 – Fetherstonhaugh, David, Paul Slovic, Stephen M. Johnson, e James Friedrich. 1997. “Insensitivity to the Value of Human Life: A Study of Psychophysical Numbing.” Journal of Risk and Uncertainty 14.3 (1997), 283– 300.

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