A vida de milhões é Estatística

Florence Nightingale | hmi.gov.co

Florence Nightingale | hmi.gov.co

Antes de começar a ler este artigo, por favor, marque em um papel o dia e hora exata. Você vai entender o porquê depois, estamos prestes a fazer uma viagem até à segunda metade do século XIX, quando a Inglaterra, França e Turquia declararam guerra à Rússia e deram origem ao conflito a que se chamou Guerra da Crimeia. Desde muito cedo nesse conflito os jornais europeus e americanos criticaram as instalações médicas dos aliados e para tentar resolver esse problema a Inglaterra tornou obrigatória a presença de enfermeiras nestas instalações. Uma delas, Florence Nightingale, era particularmente altruísta e eficaz, e suas ideias salvaram e ainda salvam muitas vidas até hoje.

Florence Nightingale constatou que as condições das camas de campanha eram as piores possíveis. Homens feridos deitados em condições insalubres, sem aquecimento, higiene nem comida decente. Florence Nightingale reclamou com os oficiais superiores, mas eles não lhe deram ouvidos. Ela então começou a registrar o número de soldados que morriam de diferentes doenças e infecções e desenvolveu uma maneira clara de apresentar estes dados visualmente.

Seus diagramas mostravam às autoridades o número de mortes desnecessárias causadas por condições impróprias de higiene e alimentação. Para isso, ela dividiu um círculo em 12 áreas, uma para cada mês do ano. Cada uma destas áreas foram divididas em 3 setores: o externo, com o número de mortes por doenças evitáveis, o intermediário com mortes das demais causas e a área interna com mortes causadas por ferimentos diretos infligidos em combate. Veja abaixo:

Grafico de Nightingale | University of Houston uh.edu

Grafico de Nightingale | University of Houston uh.edu

Bastava olhar para perceber que o número de pessoas morrendo por causas evitáveis, superava as mortes por ferimento em combate. Com estes dados ela foi capaz de demonstrar aos seus superiores que melhorando as condições sanitárias diminuiria muito o número de mortes. Ao fornecer água limpa, frutas frescas e ao assegurar condições de higiene, Florence Nightingale em pouco tempo reduziu a mortalidade dos soldados feridos de 60% para 40%. Esse tratamento pioneiro na enfermagem fez com que se tornasse mundialmente famosa.

A estatística sempre foi uma das ferramentas da guerra. Existe inclusive esta frase famosa de Stalin: “A morte de uma pessoa é uma tragédia; a morte de milhões é estatística.” Essa citação representa bem a crença de que quando começamos a lidar com números muito grandes, deixamos a humanidade de lado. Mas a história de Florence Nightingale nos prova que não precisa ser sempre assim. Suas ações fizeram muito mais do que lhe granjear o reconhecimento mundial pelo seu pioneirismo na enfermagem, ela nos deixou o legado de que a análise estatística pode fornecer uma maneira organizada de prevenir doenças e evitar mortes. A estatística não precisa ser encarada apenas como uma fria constatação dos fatos, mas pode também fornecer caminhos para salvar a vida de milhões.

Com esse mesmo ideal e ferramental podemos hoje entender que a pobreza extrema causa a milhões de pessoas a mesma situação que os soldados feridos encontravam nos hospitais de guerra do século XIX: desnutrição, falta de higiene e nenhuma proteção às intempéries do clima. O resultado não poderia deixar de ser o mesmo: mortes que poderiam ser evitadas.

Na verdade podemos dizer que a pobreza extrema global mata muito mais do que a guerra jamais matou. A Guerra da Crimeia ceifou cerca de 300.000 vidas, o que corresponde à metade das mortes causadas todos os anos pela Malária, uma doença tratável e evitável. Considere por exemplo a Segunda Guerra Mundial. Sem dúvida foi a guerra com maior número de mortes na história até hoje, aproximadamente 70 milhões de pessoas. Pois é, a Segunda Guerra Mundial acabou, mas a pobreza global continua e nos últimos nove anos matou 90 milhões de pessoas e continua a matar mais 10 milhões cada ano que passa. Isso corresponde a um Holocausto a cada 8 meses.

Os números estão aí para todos verem. E assim como Florence Nightingale, nós também estamos em situação de poder ajudar e ter um impacto considerável. Se em vez de comprar cada vez mais coisas que não precisamos, dedicássemos apenas 1% do nosso rendimento mensal a instituições de ajuda, quantas vidas poderiam ser salvas? Esta não é uma pergunta retórica, o site da The Life You Can Save, fornece uma calculadora para você ver quão importante pode ser o seu apoio às pessoas em condição de pobreza extrema.

Segundo a UNICEF, 22 mil crianças morrem por dia por razões ligadas à pobreza. São 15 mortes por minuto, ou 1 a cada 4 segundos. Quantas morreram desde que começou a ler este artigo? Faça às contas.

Eu pedi para você marcar o dia e o horário. O horário você já entendeu para que serviu. O dia pode ser o mais importante da sua vida. Não só na sua, mas na de muitas outras pessoas. Pois  hoje pode ser o dia que você resolveu entrar em ação contra uma guerra que merece ser travada, e evitar que o genocídio da pobreza continue. Se esse é seu desejo, faça um compromisso pessoal de dedicar 1% ou mais do seu rendimento a instituições eficazes. E com isso seja bem vindo(a) ao Altruísmo Eficaz.


Texto Thiago Tamosauskas. Colaboração e revisão José Oliveira

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s