Mudar o que está no nosso prato

Como alterar o que está no nosso prato

O que há no prato de cada um em todo o mundo? | Arte digital: José Oliveira | Crédito da fotografia: Jörg Schubert

Sempre que penso sobre a expressão em inglês “to have too much on your plate” (“ter demasiado no nosso prato”), que significa confrontarmo-nos com o peso das nossas responsabilidades, penso sempre nos problemas do mundo e sobre como deverei agir para fazer a diferença. Mas também penso sobre isso literalmente.

O que há no prato de cada um?

Já alguma vez imaginou o que há no prato de cada um em todo o mundo? Isso pode variar entre a refeição mais extravagante (digamos, uma refeição de 2 milhões de dólares), e não haver sequer um prato, mas apenas um estômago vazio. Se houvesse uma maneira de diminuir o número de pessoas que morrem dos excessos no seu prato, ou aproveitar tudo o que é desperdiçado, a fim de salvar todos aqueles que não têm o suficiente, você não faria isso? Bem, você sabia que a maioria da população mundial vive em países onde os excessos no prato matam mais pessoas do que a falta de comida? Você sabia que cerca de um terço de todos os alimentos vai para o lixo, e que isso poderia alimentar mais do que o dobro do número de pessoas subnutridas no mundo?

Geralmente só podemos controlar o que está no nosso próprio prato, então vamos começar por aí e perguntar: Não teremos mais do que o suficiente? Será que tudo isso é necessário? E será que individualmente podemos equilibrar um pouco mais as coisas?

À escala global, Jeffrey Sachs, um influente economista, calculou o que seria necessário para que todos superassem a pobreza extrema para que assim pudessem ter o suficiente no seu prato.

O filósofo e bioéticista, Peter Singer, que tem vindo a pensar sobre estes assuntos desde o início dos anos 70, pegou nos números de Sachs e sugeriu um novo padrão para a doação eficaz: a doação de acordo com a capacidade de cada um, considerando também a eficácia das instituições de caridade a que possa doar, para que assim o seu dinheiro faça o maior bem possível. Este padrão pode ajudar-nos a pensar sobre quanto podemos tirar do nosso prato para ajudar aqueles em necessidade extrema.

A pobreza parece menos intransponível se imaginarmos que, se todos tirassem nem que fosse só os sorvetes do seu prato, isso seria o suficiente para economizar o dinheiro necessário para pagar a educação, o saneamento e a saúde para todos, duas vezes! Esta ideia é ainda mais convincente quando se considera que o açúcar mata mais do que a pólvora!

O que podemos tirar então do nosso “prato”?

Mas pode estar a questionar, bem, uma coisa é deixar de comer um pouco de sorvete, outra coisa é sacrificar aquela viagem dispendiosa em que tem sonhado e para qual tem economizado, ou um presente especial que o seu ente querido nunca mais esquecerá. E, claro, nem todos têm à partida a mesma quantidade no seu prato, nem as mesmas responsabilidades ― talvez você esteja a encher outros pratos para além do seu.

Mas suponho que há coisas que compra sem as quais poderia facilmente passar, especialmente se soubesse que o dinheiro que teria gasto poderia ajudar alguém de uma forma muito significativa.

Então, vamos tentar um exemplo:

O que poderia fazer um professor de artes de Portugal para equilibrar as coisas? Sim, estou a falar de mim próprio. Eu poderia certamente fazer a minha parte, embora o salário anual de um professor aqui em Portugal seja cerca de um terço do rendimento médio de uma família nos EUA: 15 000€ vs. 50 000€ (aproximadamente o mesmo em dólares). E eu posso ajudar, porque, embora esse rendimento possa parecer modesto para alguns, ainda assim estou nos 5% mais ricos da população mundial. Assim, de acordo com o padrão de Peter Singer, eu só teria que dar 1% do meu rendimento para contribuir com a minha justa parte para as causas que estão a tratar com eficácia a pobreza global e a fome. E isso seria muito difícil? O que teria eu de tirar do meu prato?

Aqui estão algumas coisas que deixei há alguns anos. Nessa altura foram realmente muito difíceis de tirar do meu prato:

O quê? Quanto consumia? Quanto poupo? Vs. compromisso TLYCS
Tabaco Durante a semana, fumava menos de um maço de cigarros por dia, mas nas noites de fim-de-semana, fumava até 4 maços. Assim, estou a contar 1 maço por dia. 4,50€ x 365 = 1 642,50€

Cerveja Eu não bebia durante a semana, mas ao fim-de-semana bebia muito. Assim, estou a contar uma cerveja por refeição: 14 cervejas por semana. 14€ x 52 = 728€
Café Só estou a contar aquele café a mais que me mantinha acordado à noite. Portanto, um café por dia. 0,70€ x 365 = 255,50€

Até agora nunca tinha feito as contas, e parece-me absurdo ter gasto tanto dinheiro em coisas que eram tão más para mim. E também me parece absurdo porque em vez disso poderia tê-lo usado para fazer bem aos outros.

Será isso o maior bem?

Poderemos pensar que a doação é sempre uma coisa boa, mas certamente será difícil justificar as pessoas que contribuíram para uma campanha que arrecadou mais de 55 000 dólares, só porque queriam que alguém fizesse salada de batata, ou mais de 100 000 dólares para alguém cavar um buraco, particularmente caso se considere que doar a mesma quantia à Against Malaria Foundation poderia ter protegido até 60 000 pessoas de uma doença mortal e salvo até 33 vidas.

É claro que, escolher para onde direccionar as suas doações nem sempre é fácil e pode ser muito difícil não seguir apenas o seu coração, acima de tudo, quando se acredita veementemente que “a caridade começa em casa” e quando se debate com a ideia de fazer sacrifícios por pessoas que vivem em lugares que nem sequer consegue pronunciar. Mas se lhe apresentarem evidências convincentes de intervenções humanitárias que funcionam e das organizações que fazem o melhor trabalho com a sua doação, então será mais fácil o seu coração seguir a sua cabeça ― mesmo que inicialmente o seu coração puxasse para o outro lado. Ou caso houvesse uma causa muito querida para o seu coração, você não iria tentar encontrar a forma mais eficaz em termos de custo para tratar disso? Afinal, se estivesse a investir de alguma outra forma o dinheiro que lhe custou tanto a ganhar, você não faria o mesmo?

Há uns anos, fui colocado numa escola onde trabalhei com crianças cegas, por isso fico especialmente comovido quando Toby Ord fala sobre as doações necessárias para pagar o treino de um cão-guia para ajudar uma pessoa cega e, em seguida, compara a mesma quantia que poderia ser usada de outro modo para restaurar a visão de mais de 900 pessoas com cegueira reversível (pg.4). Aposto que o seu coração haveria de saber qual seria a coisa certa a fazer. Então, porque haveria o seu coração de parar na fronteira da sua comunidade (ou cidade, ou país) em vez de se estender a lugares como a Etiópia, o Nepal ou o Vietname, onde o seu dinheiro pode ser tão eficaz a ajudar tantas pessoas?

O que tirei eu do meu prato?

Então, como poderá você equilibrar a quantidade de bem que quer realizar e o seu orçamento reduzido? A título de exemplo, aqui está como equilibrei o meu rendimento de 16 534 €. (Estou a usar o meu orçamento de 2015 porque estive desempregado durante a maior parte do ano de 2016. No entanto, nesse ano, mesmo com um salário reduzido, combinado com o subsídio de desemprego, acabei por dar mais do que o habitual, conseguindo doar ao nível de um milionário ― tendo por base o padrão de Peter Singer: mais de 20% do meu rendimento).

Budget2015Pt
Espero que isso o inspire a pensar “Talvez haja algo que possa tirar do meu prato para ajudar aqueles menos afortunados do que eu.” Se fizer as contas você poderá ver, como eu, que não é assim tão difícil e pode até ser bom para si, bem como para as pessoas que está a ajudar.

Aqui está uma calculadora que mostra o que pode poupar — e doar — ao deixar algo fora do seu “prato”.

CalculadoraLuxos.jpg

[Clique na imagem para ir para a Calculadora] Se as doações para organizações de ajuda externa são dedutíveis nos impostos no seu país, insira o seu rendimento bruto. Se não são, insira o seu rendimento líquido. A The Life You Can Save não regista, recolhe ou partilha os seus dados pessoais e do seu rendimento.

  

Bem, foi ou não fácil cumprir o padrão de doação? Para saber mais sobre o compromisso e para saber a quantidade recomendada para o seu nível de rendimento, vá aqui.

Você teria que fazer isto sozinho?

Comecei por perguntar se você já se questionou sobre o que estará no prato de cada um em todo o mundo. Agora pergunto se tem alguma ideia de quantas pessoas em todo o mundo estão a tirar coisas do seu prato, a fim de reduzir eficazmente o sofrimento do mundo? Este vídeo pode dar-lhe uma ideia:

Número de Altruístas Eficazes por milhão de habitantes.
Processamento de dados: Daniel de Bortoli | Fonte dos dados: Giving What We Can

O vídeo deixa claro que há um movimento crescente de pessoas que se esforçam para tornar o mundo num lugar melhor, usando a razão e evidências; chama-se altruísmo eficaz.

Desde que assumi o compromisso da The Life You Can Save em 2011, comecei a ter um apreço maior por aquilo que tenho no meu prato, porque sei que o que aí falta faz uma diferença real àqueles que precisam ― e acredite, não há satisfação como essa. E é disso  que se trata no altruísmo eficaz: descobrir como podemos realizar o maior bem com os nossos recursos limitados. De que outra forma um professor de artes de Portugal poderia proteger 954 pessoas de uma doença mortal em apenas um ano?

Se acha que há algo que pode deixar fora do seu prato também, para que possa ajudar os outros, pode calcular o seu impacto aqui. Depois, basta seguir o seu coração. Você saberá qual é a coisa certa a fazer, porque agora é realmente mais fácil dar melhor.

E em breve irá descobrir que fazer parte de uma crescente comunidade de pessoas que tentam fazer o melhor, usando tanto a cabeça como o coração, pode realmente ser uma experiência de mudança de vida, não só para si, mas também para as vidas que podemos salvar.


Postado por José Oliveira a 01 de Maio de 2017, no blogue da The Life You Can Save.

Gostaria de agradecer à Amy Schwimmer por me ajudar a expressar os meus pensamentos mais claramente numa língua que não é a minha [relativamente ao texto original em Inglês]. Também gostaria de agradecer ao Llamil Silman pela programação que tornou possível a “Calculadora: Luxos vs. Compromisso TLYCS” e ao Daniel de Bortoli por processar os dados para o vídeo ‘O crescimento do Movimento do altruísmo eficaz (2009-2017)‘. Finalmente, gostaria de agradecer à Giving What We Can pelo fornecimento dos dados usados no vídeo (país dos membros e data da inscrição) das pessoas que se comprometeram a dar 10% do seu rendimento.

José Oliveira
José Oliveira é um professor de artes de Portugal e voluntário da The Life You Can Save. Como altruísta eficaz comprometeu-se a dar 10 por cento do seu rendimento às melhores instituições de caridade da The Life You Can Save.

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