Ao escolher uma instituição de caridade você deve usar seu coração ou sua cabeça?


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Como ajudar os mais pobres? Com redes anti-malária? Comprimidos para desparasitar? Com dinheiro? | Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Wikimedia Commons

É a quinta edição anual da #Giving Tuesday — uma tradição criada pelo marketing, inspirada na Black Friday, Small Business Saturday e Cyber ​​Monday, mas com uma diferença. Hoje milhares de instituições de caridade estão nos pedindo para abrir nossas carteiras. Mas como podemos ter certeza de que o grupo para o qual doamos é eficaz — que estamos a obter o maior impacto por cada dólar doado?

Essa questão incomodou Elie Hassenfeld há muitos anos atrás. Ele trabalhava em um fundo de investimento  e, juntamente com um colega, queria dar dinheiro para a caridade.  Sendo do ramo das finanças e orientados por números, eles quiseram maximizar os resultados de sua doação, encontrando grupos que poderiam oferecer o maior impacto por cada dólar.

“Ficamos chocados com a pouca informação útil que estava disponível”, diz Hassenfeld.

Claro que haviam os sites de classificação que mostram o quanto uma determinada instituição de caridade gasta em despesas gerais e apontam qualquer sinal de alerta, sugerindo uma possível má gestão.

Mas isso não é o que Hassenfeld queria saber: Não havia “nada que dissesse: ‘isso é tudo aquilo que uma instituição de caridade consegue realizar com a doação que você dá’ “.

E assim, em 2007, Hassenfeld e seu amigo, Holden Karnofsky, decidiram iniciar uma organização sem fins lucrativos chamada GiveWell. A missão: Apresentar uma pequena lista anual de instituições que poderiam recomendar baseando-se em evidências sólidas. Mas acontece que esta abordagem orientada pelos dados tem seu próprio conjunto de problemas.

Primeiramente, isso significa que a GiveWell tem que se limitar a recomendar instituições de caridade para as quais existe prova científica de eficácia.

“Estudos aleatórios controlados, [realizados por acadêmicos e organizações de saúde], sobre, por exemplo, a distribuição de redes anti malária na África para ver em que medida isso reduz, de forma consistente e eficaz, os casos de malária e salva vidas”, diz Hassenfeld.

De acordo com a análise da GiveWell, doar redes de 5 dólares que protegem contra mosquitos que transmitem a malária salva muitas vidas. Isso coloca a Against Malaria Foundation  no topo das sete escolhas para a temporada de doações de 2016 — revelada em seu site hoje.

A abordagem baseada em evidências da organização leva a uma lista que pode não agradar a todo tipo de doadores. Por exemplo, muitas pessoas se sentem particularmente inclinadas a ajudarem aqueles que lhes são próximos — digamos, doando para um abrigo local de moradores de rua [Pt. sem-abrigo] ou para um programa de artes para jovens. E embora a GiveWell esteja sediada nos Estados Unidos, essa organização não recomenda doações para qualquer organização que sirva aos americanos.

“As necessidades são tão grandes no exterior que lá o dólar vai muito mais longe”, explica Hassenfeld. Por exemplo, diz ele, “doar algo como 3 500 dólares para a Against Malaria Foundation salva a vida de uma criança que de outra forma morreria de malária. O valor equivalente [nos Estados Unidos] faria algo como pagar um par de meses de escolarização de uma criança”.

Um segundo desafio é a escassez de dados confiáveis para muitos programas que se centram nos mais pobres do mundo. Enquanto acadêmicos e organizações de saúde internacionais fizeram estudos rigorosos das intervenções de saúde, apenas na última década é que o desenvolvimento econômico e os programas de capacitação começaram a passar por um escrutínio semelhante.

É o que diz Hassenfeld, “poderia haver excelentes programas e organizações que recomendaríamos, caso houvesse mais evidências a determinar seus impactos. O fato de não recomendarmos algo não significa que achamos isso ineficaz”. Pode apenas significar que ninguém estudou isso.

Além disso, as instituições de caridade que atendem aos critérios da GiveWell não são exatamente nomes populares. O segundo lugar é ocupado pela Schistosomiasis Control Initiative .

“Sim, esquistossomose – é um verme intestinal”, diz Hassenfeld.

Ele é extremamente dedicado ao assunto. O verme é comum entre as crianças da África subsaariana, causando atrasos no desenvolvimento físico e cognitivo, observa ele. E, de acordo com a análise da GiveWell, a Schistosomiasis Control Initiative pode desparasitar uma criança por apenas 0,50 dólares.

“Quando as crianças são desparasitadas elas podem crescer e ganhar substancialmente mais dinheiro quando adultas”, diz Hassenfeld. “Assim, uma quantidade muito pequena de dinheiro pode ter efeitos realmente muito, muito grandes em longo prazo”.

Mas o argumento de Hassenfeld para apoiar o trabalho de combate à esquistossomose aponta para um terceiro problema relacionado com a abordagem baseada em dados quanto às decisões de doação. A pesquisa em ciências sociais sugere que os apelos racionais e baseados em estatísticas não são o que motiva a maioria das pessoas. Conte-nos sobre uma criança que precisa de nossa ajuda e nós ficamos convencidos. Dispare números sobre uma doença obscura em um lugar distante e muitos de nós começamos a nos sentir sobrecarregados e desligamos.

Hassenfeld não discorda. “Se meu objetivo fosse tentar maximizar a quantidade de dinheiro que sou capaz de angariar para a caridade, não faria isso através de números e análise”, diz ele. “Faria isso através de imagens e histórias”.

Mas ele diz que a GiveWell está tentando apelar para uma fatia mais restrita de doadores, “um tipo particular de pessoas que estão pensando sobre suas doações à caridade de uma maneira muito diferente”. Para eles, a própria obscuridade da esquistossomose é um chamariz. “Eles dizem: ‘Isso não é sexy, eu nunca ouvi falar disso e eis um grupo que fez a análise e dizem que esta é uma das melhores maneiras de doar e realizar uma montanha de coisas boas'”.

Em apenas nove anos, a GiveWell convenceu cerca de 14 mil pessoas — em grande parte profissionais de tecnologia e finanças com menos de 40 anos, como os fundadores do grupo, a doar um total de mais de 100 milhões de dólares para as instituições que selecionaram.

Ainda assim, pelo menos uma das instituições de caridade na lista da GiveWell está começando a repensar o discurso  baseado em dados para estimular doações.

É um grupo bastante novo chamado GiveDirectly, lançado em 2009. Basicamente, eles querem pegar seu dinheiro e simplesmente entregá-lo a uma pessoa extremamente pobre. Sem quaisquer condições. O beneficiário pode gastar o dinheiro como ele, ou ela, acharem adequado.

Isso pode ser difícil de se defender, diz Ian Bassin, que, dentre outras funções, gerencia as relações com doadores da GiveDirectly.

“Quer dizer, estamos pedindo às pessoas para fazer algo relativamente ao qual me parece que a maioria é resistente, de forma instintiva e psicológica”.

Mas ele acrescenta que a GiveDirectly é motivada por fatos comprovados: “Acontece que as evidências científicas rigorosas dos últimos dez a quinze anos mostraram que dar às pessoas o poder de escolha para decidirem quais são suas prioridades é uma das maneiras mais eficazes de ajudar os pobres”.

Talvez eles acabem gastando o dinheiro em mensalidades escolares *. Talvez decidam instalar um telhado novo que os poupe de reparos contínuos e caros. O ponto é, os estudos mostram que as pessoas extremamente pobres muitas vezes sabem melhor quais as suas necessidades e, quando você simplesmente lhes dá o dinheiro, os rendimentos a longo prazo aumentam, a fome diminui, há até uma maior igualdade de gênero.

A GiveDirectly foi fundada por quatro economistas que se inspiraram por essas descobertas. No início eles queriam convencer os doadores apenas com números. Estavam determinados a evitar o que Bassin chama de “pornografia da pobreza — pessoas colocando uma foto de uma criança morrendo de fome em um vídeo [ou] publicidade”.

Em poucos anos eles angariaram mais de 130 milhões de dólares.

Mas há poucos dias eles revelaram um novo recurso em seu site: uma lista em permanente atualização de fotos e perfis dos beneficiários. Para expandir mais, concluíram que precisavam alcançar um público mais amplo.

“Há um limite para a quantidade de doadores fora do comum e induzidos por evidências que poderíamos ter”, explica Bassin.


Artigo de Nurith Aizenman publicado originalmente na NPR a 29 de novembro de 2016. 

Tradução: Fernando Moreno. Revisão de José Oliveira

* O dinheiro gasto em mensalidades escolares deve-se ao facto de países onde a GiveDirectly atua não terem ensino básico gratuito. (N. do T.) 

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