Você quer ser um ciborgue?

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Deveria ser proibido alguém se tornar um ciborgue? (Arte digital: José Oliveira | Imagens: pixabay)

Já alguma vez desejou poder adicionar memória extra ao seu cérebro? Elon Musk poderá ajudá-lo nisso.

Musk dirige a empresa que ficou conhecida por criar o Tesla, o carro eléctrico líder do sector industrial. Ele também é o Diretor executivo da SpaceX, que está construindo foguetes para que os seres humanos possam viver em Marte. Agora, Musk revelou que é o fundador e Diretor executivo da Neuralink, uma empresa emergente que visa criar implantes cerebrais que transformarão computadores em uma extensão direta de nossos cérebros e, assim, irão aumentar nossa inteligência e memória.

Os vários projetos de Musk têm um objetivo único e abrangente: salvaguardar o futuro de nossa espécie. Os carros elétricos melhoram nossas possibilidades de prevenir níveis perigosos de aquecimento global. Um povoamento permanente em Marte reduziria o risco de mudanças climáticas – ou de uma guerra nuclear, bioterrorismo ou a colisão de um asteróide – eliminar a nossa espécie.

A Neuralink também tem esse objetivo, porque Musk está entre aqueles que acreditam que construir uma máquina mais inteligente do que nós mesmos é, como Nick Bostrom, autor de Superinteligência, afirma, “um erro darwiniano básico”. No entanto, dado o rápido progresso da inteligência artificial e os múltiplos incentivos para tornar os computadores ainda mais inteligentes, Musk não vê nenhuma maneira de evitar que isso aconteça. A sua estratégia preferida para nos salvar da eliminação por parte de máquinas super inteligentes é, portanto, conectarmo-nos a computadores, para que nos tornemos tão inteligentes quanto a inteligência artificial de última geração, por mais inteligente que esta o seja.

Não há nada de novo nas pessoas possuírem dispositivos eletrônicos implantados em seus corpos. O marcapasso cardíaco artificial (pacemaker) está em uso há quase 60 anos. Desde 1998, cientistas têm implantado dispositivos no cérebro de pessoas paralisadas, permitindo que movam um cursor em uma tela [Pt. ecrã] com seu pensamento, ou em versões mais avançadas, mover uma mão artificial capaz de segurar objetos.

Tais dispositivos não ampliam nossas capacidades além daquelas de uma pessoa normal saudável. O artista Neil Harbisson, no entanto, tem uma antena implantada em seu crânio que lhe permite captar freqüências correspondentes não apenas às cores visíveis – Harbisson tem uma forma extrema de daltonismo – mas também à luz infravermelha e ultravioleta, que são invisíveis para nós. Harbisson afirma que é um ciborgue, ou seja, um organismo com capacidades aumentadas tecnologicamente.

Para evoluir desses dispositivos úteis, mas limitados, para o tipo de interações cérebro-máquina que Musk está buscando, seriam necessárias enormes descobertas cientificas. A maior parte das pesquisas sobre implantes cerebrais utiliza animais não-humanos, e as décadas de danos infligidos a macacos e outros animais tornam eticamente duvidosa tal investigação.

De qualquer maneira, para que o plano de Musk seja bem-sucedido, a experimentação tanto em seres humanos quanto em animais será inevitável. Pacientes com incapacidades incuráveis ou pacientes terminais poderão se voluntariar para participarem em pesquisas médicas que lhes ofereçam esperança que de outra forma não teriam. A Neuralink começará com a pesquisa projetada para ajudar esses pacientes, mas para alcançar o seu objetivo maior necessitará ir mais além deles.

Nos Estados Unidos, Europa e na maioria dos outros países com pesquisa biomédica avançada, a regulamentação rigorosa sobre a experimentação em seres humanos tornaria extremamente difícil obter permissão para realizar experimentos com o objetivo de aumentar as nossas capacidades cognitivas através da conexão de nossos cérebros a computadores. A regulamentação estadunidense levou Phil Kennedy, um pioneiro no uso de computadores para permitir que pacientes paralisados ​​ comuniquem apenas com o pensamento, a implantar eletrodos em seu próprio cérebro com o intuito de avançar o progresso científico. Mesmo assim, ele teve que ir a Belize, na América Central, para encontrar um cirurgião disposto a realizar a operação. No Reino Unido, o defensor da causa ciborgue, Kevin Warwick e sua esposa implantaram matrizes de dados em seus braços para demonstrar que a comunicação direta entre o sistema nervoso de seres humanos distintos é possível.

Musk sugeriu que a regulamentação sobre o uso de seres humanos na pesquisa poderia mudar. Isso poderá levar algum tempo. Enquanto isso, os entusiastas independentes estão de qualquer modo a avançar. Tim Cannon não possui as qualificações científicas ou médicas de Phil Kennedy ou Kevin Warwick, mas isso não o impediu de co-fundar uma empresa em Pittsburgh que implanta dispositivos biônicos, muitas vezes no seguimento de as experimentar primeiro em si próprio. Sua atitude é, como ele disse em um evento intitulado “A primeira feira ciborgue do mundo”, realizada em Düsseldorf em 2015, “Vamos fazê-lo de uma vez e realmente ousar”.

As pessoas na feira ciborgue de Düsseldorf tinham ímãs, chips de identificação por radiofrequência e outros dispositivos implantados em seus dedos ou braços. A cirurgia é freqüentemente realizada por tatuadores e às vezes veterinários, porque médicos e cirurgiões qualificados têm relutância em operar pessoas saudáveis.

Os médicos estarão certos? Pessoas saudáveis ​​devem ser desencorajadas, se não impedidas, de implantar dispositivos em si mesmas?

Warwick diz que a pesquisa científica se beneficiou com o que os entusiastas ciborgues realizaram. “A decisão é deles”, diz ele, e isso parece estar correto – desde que as pessoas estejam devidamente informadas sobre os riscos e consintam livremente em enfrentá-los. Se não impedimos as pessoas de fumar, ou de escalar o K2 no inverno, não é fácil perceber por que deveríamos ser mais paternalistas quando as pessoas se voluntariam para contribuir para os avanços na ciência. Ao fazê-lo, elas podem acrescentar significado às suas vidas, e se Musk estiver certo, podem, em última análise, salvar a todos nós.

 


Texto de Agata Sagan e Peter Singer publicado originalmente no Project Syndicate em 16 de maio de 2017.

Tradução de Ronaldo Batista e revisão de José Oliveira.

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