Fazer o bem, e fazê-lo melhor

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Porque não usa a sua sorte para fazer o bem da melhor maneira? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

A maioria das pessoas quer fazer uma diferença no mundo. Se está a ler isto, é provável que esteja na posição extremamente afortunada de ser capaz de fazer essa diferença.

Também é provável que, em termos gerais, a vida lhe tenha sido favorável. Se nasceu num país desenvolvido, terá tido acesso a coisas como uma boa educação e cuidados médicos modernos, e teve a sorte extraordinária de viver a maior parte da sua vida evitando dificuldades como a doença, a fome e a guerra.

Não apenas isso, mas também está vivo neste momento. Tem a capacidade de desfrutar das modernas conveniências criadas pela ciência e pela tecnologia que tornam a sua existência muito mais segura, saudável e confortável do que a dos seus avós.

A minha própria opinião – e isto é apoiado por estudos – é que o nosso mundo nunca foi melhor. Estamos a viver numa época em que os avanços na ciência significam que podemos dar passos incríveis na solução de alguns dos maiores problemas do mundo; desde que prestemos muita atenção às evidências.

Ao reflectir sobre isto, é difícil argumentar que não temos a obrigação moral de ajudar os menos afortunados do que nós, ou trabalhar para garantir um futuro positivo para as gerações vindouras. Por mais que gostássemos de fazer tudo, temos tempo e recursos limitados, o que significa que nos devemos concentrar em fazer as coisas mais eficazes que podermos.

Infelizmente, é extremamente difícil saber exactamente o que fazer para ter o maior impacto possível.

Se decidir doar à caridade, como poderá saber que a instituição de caridade que escolheu, irá usar a sua doação de forma eficaz? Como escolherá uma causa em detrimento de outra? Estas são questões particularmente importantes para os filantropos, que têm os recursos (e, cada vez mais, a influência política) para fazer uma enorme quantidade de bem no mundo.

A complexidade destas perguntas significa que quando se trata de escolher uma instituição de caridade ou uma causa a apoiar, a maioria de nós cede apenas ao instinto ou à instituição de caridade que tenha para nós um significado pessoal.

O problema com isto é que o modo como pensamos sobre a caridade em geral está totalmente errado.

A maioria das instituições de caridade (cerca de 75% de acordo com as evidências) são bastante ineficazes, e algumas intervenções são inúteis ou até mesmo prejudiciais. O incrivelmente popular, mas desastroso, Play Pump (um tipo de bomba de água que servia também como carrossel para crianças, acabando por sair mais caro e menos eficaz do que as bombas que substituiu) é um exemplo disso. Programas sociais nos EUA, como o Scared Straight (que os estudos aleatórios controlados mostraram que aumentava a probabilidade das crianças cometerem crimes no futuro), são outro.

Poder-se-ia tentar usar avaliadoras de instituições de caridade, como a Charity Navigator, para encontrar as melhores instituições de caridade – mas, como já escrevi antes, esse tipo de avaliadoras de instituições de caridade raramente consideram os resultados reais ou a eficácia. Em vez disso, concentram-se em coisas como as despesas gerais e os salários do pessoal – medidas que são basicamente irrelevantes para a eficácia de uma instituição de caridade.

A boa notícia é que é possível encontrar as melhores instituições de caridade e as causas mais importantes e, ainda melhor, fazer centenas de vezes um bem maior, ao fazer a escolha certa.

Considere a causa da saúde global e desenvolvimento; actualmente cerca de mil milhões [Br. um bilhão] de pessoas ainda vivem em pobreza extrema e estão em risco de morrer de doenças evitáveis, como a malária, a diarreia e doenças transmitidas pela água.

A má nutrição nos países em desenvolvimento pode levar a deficiências cognitivas, defeitos congénitos e atraso do crescimento. Mas grande parte desse sofrimento pode ser facilmente evitado a baixo custo. Com uma assistência técnica, os países podem fortificar alimentos básicos como a farinha com micronutrientes essenciais (como o ferro, o iodo e vitaminas) de modo incrivelmente barato.

Tratar uma criança com uma infecção parasitária custa menos de 1,20 libras. Uma instituição de caridade que trate de doenças evitáveis ​​em países em desenvolvimento, como a recomendada pela GiveWell, a The Against Malaria Foundation, pode distribuir um mosquiteiro tratado com insecticida (uma das formas mais eficazes para prevenir a transmissão da malária) por cerca de 4 libras.

Uma doação de 7 mil libras à AMF evitaria que mais de 200 crianças ficassem doentes devido à malária. A mesma doação feita a uma instituição de caridade médica nacional no Reino Unido de modo nenhum chegaria tão longe, dado que o Serviço Nacional de Saúde já fornece um alto nível de atendimento, tendo em conta os padrões globais.

O nosso dinheiro pode ir muito mais longe e ter um impacto muito maior no mundo em desenvolvimento do que em instituições de caridade locais, no Reino Unido ou nos EUA. Pode parecer estranho considerar essas cedências quando pensamos em ajudar os outros, mas as escolhas existem quer pensemos nelas ou não.

Após reflexão, a maioria das pessoas concorda que não importa se alguém está separado de nós por milhares de quilómetros ou por um oceano. Não escolhemos onde nascemos, e o sofrimento e a morte são maus, independentemente de quem os vivencie. Isso significa que temos a obrigação de fazer as escolhas que resultem em reduzir o sofrimento em tantas vidas quanto possível, independentemente do local onde são vividas.

O movimento do Altruísmo Eficaz visa fazer exactamente isso, ao usar pesquisas rigorosas para comparar causas e intervenções, e ao recomendar acções que as pessoas possam tomar com base nas melhores evidências disponíveis.

E os altruístas eficazes não se limitam a considerar a pobreza global. Procuramos as melhores oportunidades possíveis para fazer a diferença, aplicando a mesma abordagem baseada em evidências em algumas das causas mais importantes do mundo, incluindo a saúde global e desenvolvimento, o bem-estar animal e os riscos catastróficos globais .

O objectivo do Altruísmo Eficaz é ajudá-lo a descobrir como pode fazer o maior bem possível, ajudando-o a decidir em quais causas se concentrar e como usar o seu dinheiro e tempo para ter o maior impacto.

Caso se concentre nas evidências e na eficácia, estará numa posição extraordinária de ser capaz de salvar dezenas de vidas no decurso da sua própria.

Se quiser saber quais são as oportunidades mais eficazes de dar, veja a GiveWell para uma lista de recomendações ou potencialmente maximize o impacto da sua doação, doando para os fundos geridos por especialistas (um projecto executado pela minha organização, o Centre for Effective Altruism) que procuram as oportunidades de maior impacto.

Para saber mais sobre como o Altruísmo Eficaz pode ajudá-lo a tomar decisões de alto impacto sobre a sua vida, dinheiro e carreira visite effectivealtruism.org.



Texto de William MacAskill publicado no Portland a 23 de Maio.

William MacAskill é o Director executivo e o co-fundador do Centre for Effective Altruism (CEA) e Professor Associado de Filosofia na Universidade de Oxford.

Tradução de José Oliveira.

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