Futebolistas Filantrópicos: O Quadro Completo

Por Joe Slater (Blogue TLYCS)

Dar1por-cento

Juan Mata doa 1%, em que medida isso é bom? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Wikimedia)

O jogador de futebol do Manchester United, Juan Mata, apareceu nas manchetes quando prometeu doar 1% de seu rendimento para a caridade. Tem sido considerado “o cara mais legal do futebol, o que pode bem ser verdade. Estima-se que o salário de Mata seja cerca de 7 milhões de Libras por ano, o que, se estiver correto, faria com que sua doação fosse de 70 000 Libras por ano. Certamente uma bênção para os cofres de caridade.

Normalmente, o tipo de louvor que Mata tem recebido é reservado para pessoas que fazem algo extraordinariamente bom. Dar 1% será realmente assim tão bom, ou será apenas algo que a maioria de nós deveria estar fazendo? Será que ele está sendo elogiado apenas por fazer mais do que a maioria de nós, independentemente de ser famoso e simpático? Por mais que seja louvável o compromisso de 1% de Mata, seria bom vê-lo em um contexto mais amplo.

Contexto filantrópico

O compromisso de Juan Mata foi visto como um notável ato de generosidade. Mesmo o compromisso de 1%, como o assumido por Mata, é incomum. Na verdade, cerca de 36% das pessoas no Reino Unido fazem doações regulares (mensais ou semanais) para a caridade. No entanto, entre aqueles que dão mensalmente, a doação média é de 37 Libras – 1,6% do rendimento médio mensal. Obviamente, a doação de Mata cerca de 6 000 Libras por mês será consideravelmente maior do que a média mas, como percentagem, não é notável quando comparada com aqueles que doam regularmente.

Alguns doam muito mais. Um exemplo pode ser encontrado em um movimento crescente de filantropos, unidos sob o lema do “altruísmo eficaz“, que têm considerado seriamente como podem ajudar melhor os outros. A Giving What We Can, um grupo fundado no Reino Unido, recomenda que as pessoas assumam o compromisso de doar 10% do seu rendimento. A instituição de caridade de Peter Singer, The Life You Can Save, sugere uma escala gradual, segundo a lógica que, quem ganha mais, pode dar uma percentagem maior (e quem ganha menos, seria de esperar que doasse uma percentagem menor). Recomenda que os super-ricos incluindo todos os melhores futebolistas doem pelo menos 14,7%.

Embora a norma pareça ser “doe ocasionalmente e em porções insignificantes da sua riqueza”, muitos suspeitam que com mais de 700 milhões de pessoas no mundo ainda em pobreza extrema, isso não seja o suficiente.

Contextos religiosos e históricos

Todas as principais religiões atribuem uma enorme importância à ajuda aos necessitados. As comunidades judaicas e cristãs durante a maior parte dos últimos dois milênios geralmente exigiram contribuições para instituições religiosas ou aos necessitados por meio de dízimos (usualmente dez por cento). O zakat (um imposto sobre os ricos de pelo menos 2,5%) é um dos Cinco Pilares do Islã. Embora o zakat seja obrigatório, tradicionalmente espera-se mais doações voluntárias. Para os hindus, budistas, sikhs e jainistas a prática de dar aos necessitados se chama dāna. Nossos predecessores, fortemente influenciados por essas religiões, aparentemente consideravam que doar bem mais que 1% é uma coisa normal.

Enquanto as pessoas no passado podem ter sido mais caritativas, hoje possivelmente teremos obrigações significativamente maiores de doar. Não só as pessoas ricas de hoje são consideravelmente mais ricas, mas também temos uma maior compreensão sobre – e capacidade de prevenir – o sofrimento desnecessário no mundo em desenvolvimento.

Para onde se deve doar?

O compromisso de Juan Mata era doar como parte do Common Goal, um movimento da Streetfootballworld, uma ONG que uniu muitas organizações de base em todo o mundo. O objetivo do movimento é conseguir fazer com que o maior número possível de futebolistas façam como Mata, para promover mudanças sociais através do futebol. A maioria das instituições de caridade envolvidas centram-se na capacitação dos jovens. As organizações têm objetivos diferentes em diferentes partes do mundo. A meta é a “empregabilidade através do futebol” na Europa, enquanto na África está usando o futebol para “educar os jovens sobre temas que vão do HIV/AIDS à igualdade de gênero“. Na prática, as instituições de caridade fazem todo tipo de coisas, desde o fornecimento de bolas de futebol ou instalações de jogo apropriadas, até trabalho desportivo juvenil ou treinamento de empregabilidade. Todos estão de alguma forma ligados ao futebol. 

Quando consideramos qual o custo-eficácia de uma instituição de caridade, porém, pensamos em que medida pode fazer o bem com uma certa quantia de dinheiro. Quanto custa salvar uma vida ou evitar que alguém fique cego? O Streetfootballworld não foi avaliado pela GiveWell – um recurso rigoroso e valioso para os possíveis doadores, que analisa em que medida as instituições de caridade são bem sucedidas.

É difícil comparar instituições de caridade que fazem coisas muito diferentes, mas quer se concorde ou não em particular com a metodologia empregada por grupos como a GiveWell, certamente aceitamos que algumas intervenções são mais importantes que outras. Como algumas instituições de caridade são mil vezes mais eficazes do que outras, certamente há algumas respostas claras sobre para onde é uma boa ideia (e uma má ideia) doar.

Apesar de ganhar prêmios de impacto, suspeito que o Streetfootballworld não teria uma classificação particularmente alta em termos de custo-eficácia. Uma vez que se tem mais “impacto por dólar” no mundo em desenvolvimento, é provável que as organizações na Europa atinjam um bem menor por cada libra doada. Outra razão pela qual a classificação poderia ser muito baixa é o grande número de instituições de caridade envolvidas. A Streetfooballworld reúne 120 instituições de caridade. Mesmo que só algumas delas não usassem o dinheiro efetivamente, isso prejudicaria gravemente a eficácia de toda a ONG. Outro fator é que todas as instituições estão relacionadas ao futebol. Parece improvável que as melhores maneiras de ajudar os jovens envolva o futebol em alguma medida.

Parte da motivação de Mata para dar a este movimento é presumivelmente por ele ser um futebolista. Pode ter pensado que faz sentido dar a uma instituição de caridade com a qual tenha alguma relação. Podemos lembrar de celebridades que angariam dinheiro para instituições de caridade que lidam com doenças que elas tiveram ou das quais viram um membro da sua família sofrer. Se o que ele quisesse fazer fosse ajudar o máximo que pudesse, provavelmente seria melhor doar para a Against Malaria Foundation (uma das instituições de caridade recomendadas pela GiveWell) que é muito custo-eficaz a salvar vidas. Mesmo que ele queira se concentrar em algo mais próximo de seu coração, parece que suas doações ainda poderiam fazer um bem maior caso fossem direcionadas para as instituições de caridade relacionadas com o futebol no mundo em desenvolvimento.

Quais os benefícios de doações modestas?

O objetivo de Mata de atrair outros jogadores de futebol para que assumam um compromisso similar pode favorecer a definição de um patamar apenas de 1%. Parece provável que alguns jogadores de futebol que possam estar dispostos a se comprometer em 1% se sentissem dissuadidos por 10% (a recomendação da Giving What We Can) ou mais. One for the World (um parceiro da The Life You Can Save) é outro grupo que visa convencer as pessoas (estudantes universitários, neste caso) a prometer 1% do seu rendimento futuro para instituições de caridade eficazes. Esta estratégia foi concebida para tornar esse compromisso o mais fácil possível, de modo a que o maior número de pessoas adiram.

Por esse motivo, talvez esse tipo de compromisso, que é consideravelmente mais modesto do que aqueles defendidos pelos grupos mencionados acima, resultará em mais dinheiro angariado no total. Reconheço que este é um ato de equilíbrio complicado: queremos que o compromisso assumido seja grande para fazer uma diferença maior, mas não tão grande que se possa intimidar potenciais novos recrutados. Estima-se que, se todos os jogadores europeus doassem 1% do seu salário, isso iria angariar a enorme soma de 1,8 milhões de Libras por semana. Se essa atitude se espalhasse para além do futebol, e todos no mundo desenvolvido fizessem uma promessa semelhante, isso seria suficiente para erradicar a pobreza extrema.

Sim, comemoremos a generosidade de Mata. Esperemos também que seja bem sucedido em convencer muitos atletas super-ricos a agir de maneira semelhante, e que todos tomem a sério a ideia de doar para onde mais ajudará os outros. Se Mata marcasse esse gol todos poderíamos apreciar.


Texto originalmente postado por Joe Slater no blogue da The Life You Can Save em 15 de agosto de 2017.

Tradução Thiago Tamosauskas e revisão de José Oliveira e Daniel de Bortoli.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s