Introdução ao Altruísmo Eficaz

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Podemos fazer melhor o bem? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

  • Introdução
  • A sua oportunidade
    • Tem uma excelente oportunidade para fazer o bem
    • Muitas tentativas de fazer o bem falham, mas as melhores são excepcionais
  • Qual causa?
    • Causas promissoras
    • O combate à pobreza extrema
    • O sofrimento animal
    • O futuro da espécie humana
    • Outras causas
  • Qual carreira?
  • Qual instituição de caridade?
    • Doar eficazmente
    • Compromisso de doação
  • Como Participar
    • A comunidade
    • Começar a agir
  • Outras leituras
    • Doing Good Better
    • 80,000 Hours 
    • O Maior Bem Que Podemos Fazer 
    • A Vida Que Podemos Salvar (Pt) Quanto custa Salvar uma Vida (Br)

Introdução

A maioria de nós quer fazer a diferença. Vemos o sofrimento, a injustiça e a morte, e somos levados a fazer algo sobre isso. Mas descobrir o que será esse “algo” é um problema difícil, e ainda mais difícil é fazê-lo.

Que causa deve apoiar caso queira realmente fazer a diferença? Quais serão as escolhas de carreira que o ajudarão a fazer uma contribuição significativa? Quais serão as instituições de caridade que usarão as suas doações eficazmente? Se não escolher bem, arriscará perder o seu tempo e o seu dinheiro. Mas se escolher de forma inteligente, tem uma enorme hipótese de melhorar o mundo.

Este ensaio é uma introdução ao altruísmo eficaz — o uso de evidências de alta qualidade e de um raciocínio cuidadoso para descobrir como ajudar os outros, tanto quanto possível. O objectivo é ajudá-lo a descobrir como pode fazer o maior bem. Irá ajudá-lo a pensar sobre qual será a causa a ter a sua atenção e como usar o seu dinheiro ou o seu tempo para começar a fazer a diferença, a partir deste momento.

A sua oportunidade

Tem uma excelente oportunidade para fazer o bem

A história contém muitos exemplos de pessoas que tiveram um enorme impacto positivo no mundo.

Irena Sendler salvou 2 500 crianças judias do Holocausto, fornecendo-lhes documentos de identidade falsos e retirando-as ilegalmente do gueto de Varsóvia. A pesquisa de Norman Borlaug sobre o trigo resistente a doenças precipitou a “Revolução Verde”; tem-lhe sido reconhecido o mérito de salvar centenas de milhões de vidas. Stanislav Petrov impediu uma guerra nuclear global simplesmente por estar calmo sob pressão e por estar disposto a desobedecer a ordens.

Essas pessoas podem parecer heróis com os quais dificilmente nos conseguimos identificar, foram extremamente corajosos ou competentes, ou simplesmente estavam no lugar certo no momento certo. Mas você também poderá ter um tremendo impacto positivo no mundo, se escolher de forma cuidadosa.

A maneira mais simples de observar isso é ao considerar o impacto que o seu dinheiro pode ter. Se está a ler isto, então provavelmente é surpreendentemente rico em termos globais. Dê um palpite sobre qual é o seu nível de riqueza em termos globais e, em seguida, faça este teste para ver qual é realmente o seu nível de riqueza.

Por exemplo, se ganhar o rendimento típico dos EUA e doar 10% dos seus ganhos todos os anos para a Against Malaria Foundation, provavelmente salvará dezenas de vidas ao longo da sua vida.

Este é um facto tão surpreendente que é difícil de compreender. Imagine que um dia via um edifício em chamas, arrombava a porta ao pontapé, corria e resgatava uma criança pequena. Iria sentir-se como um herói — seria um dos dias mais importantes da sua vida. O que as evidências mostram é que pode fazer isso, a cada um ou dois anos, pelo resto da sua vida profissional.

Além do mais, isso nem leva em conta os benefícios a longo prazo das suas acções. Dado que a Irena Sendler salvou aquelas crianças judias, gerações de pessoas estão vivas agora por causa dela. Da mesma forma, ao ajudar as pessoas na pobreza agora, poderá trazer benefícios à comunidade que se repercutirão por décadas.

E o seu potencial para ter um impacto positivo não se confina apenas ao dinheiro. Para além de estar entre as pessoas mais ricas do mundo, provavelmente também estará entre as mais altamente educadas e altamente qualificadas. E, na verdade, é plausível que possa fazer um bem ainda maior com o seu tempo do que com o seu dinheiro. Lincoln Quirk, inspirado no altruísmo eficaz, co-fundou a Wave, uma empresa que está preparada para permitir um fluxo de remessas de centenas de milhões de dólares adicionais para países pobres.

Muitas tentativas de fazer o bem falham, mas as melhores são excepcionais

Aproveitar as oportunidades que temos é um desafio. Se não pensamos cuidadosamente sobre como fazer o bem, corremos o risco de perder o nosso tempo e dinheiro a fazer coisas que na verdade não funcionam.

Consideremos uma história bastante típica de tentar fazer o bem — a Playpump.

Uma Playpump é um dispositivo que é muito parecido com os carrosséis de parques nos quais provavelmente terá brincado quando era criança, e está instalada em países do sul de África. À medida que as crianças brincam no carrossel, o eixo gira uma bomba que extrai água de um aquífero subterrâneo — uma fonte de água limpa e fresca. A água é armazenada num tanque reservatório coberto com painéis publicitários — o que fornece financiamento destinado a que todo o sistema saia a custo neutro.

À primeira vista, a ideia de fornecer uma brincadeira para as crianças e água para uma aldeia parece uma ideia incrível. No início dos anos 2000, empresas como a Colgate e a Ford e celebridades como Jay-Z e Beyoncé investiram fortemente para lançar novas Playpumps em comunidades pobres e rurais; Bill Clinton chamou-lhe “uma inovação maravilhosa”.

Mas, na realidade, a Playpump era uma ideia desastrosa.

Os carrosséis são divertidos porque continuam a rodar quando se salta para cima deles — a resistência da bomba de água significava que as Playpumps exigiam um esforço constante para que rodassem. O elemento de diversão na sua maior parte desaparecia, e o que à primeira vista parecia o fornecimento de equipamentos para se brincar, tornou-se mais próximo a aliciar trabalho infantil. Coube às mulheres mais velhas da aldeia rodar a bomba — uma tarefa que elas achavam altamente degradante. Às vezes, as crianças eram pagas para faltarem à escola para girarem o carrossel. As empresas decidiram contra a publicidade nos suportes dos tanques, o que significava que, em vez de ser a custo neutro, o sistema tornou-se muito caro para instalar (cerca de 14 000 dólares, face aos cerca de 3 000 dólares por uma bomba manual normal). E nem sequer eram muito funcionais: para fornecer água suficiente para as necessidades diárias de água de uma aldeia, seria necessário rodar a Playpump por 27 horas por dia.

A Playpump não é um exemplo raro de fazer o bem que correu mal. Num estudo de escoceses que saltaram de pára-quedas com patrocínios para angariar dinheiro para a caridade, os autores descobriram que, visto que havia tantos ferimentos naqueles que saltavam pela primeira vez, por cada libra que os pára-quedistas angariavam para instituições de caridade (principalmente médicas), custavam ao Serviço Nacional de Saúde 13 libras em despesas médicas. Estudos sobre o Scared Straight — um programa ainda popular que tenta desencorajar de uma vida de crime os delinquentes juvenis, levando-os em visitas a prisões — descobriram que o programa aumenta as taxas de criminalidade. Um grupo de reflexão estimou que, por essa razão, cada dólar gasto no programa custou à sociedade mais de 200 dólares. E um estudo descobriu que a maioria das intervenções, quando rigorosamente avaliadas, produzia efeitos fracos ou nulos.


Na maioria das áreas da vida, entendemos que é importante basear as nossas decisões em evidências e no raciocínio, em vez de suposições ou instinto.

Quando procuramos tratamento médico, queremos tratamentos que se tenha demonstrado funcionarem através de ensaios científicos. Quando investimos dinheiro, tentamos obter toda a informação possível sobre todas as nossas opções para descobrir o que nos dará o maior retorno. Quando procuramos comprar um produto, lemos as avaliações dos clientes para descobrir se o que estamos a comprar funciona realmente.

No entanto, quando se trata de fazer o bem, muitas vezes perdemos essas práticas. Doamos a instituições de caridade apenas porque alguém nos abordou na rua e nunca sabemos como foi usado o nosso dinheiro. Somos voluntários de uma organização porque é local, não porque seja eficaz. Compramos bens “éticos” porque têm um certo rótulo à sua volta, sem apurar o que esse rótulo realmente significa.

Como resultado, as boas intenções são muitas vezes desperdiçadas porque as pessoas usam o seu tempo e dinheiro de maneiras que, comparativamente, fazem pouco bem.

Para garantir que fazemos o maior bem que podemos, precisamos estar dispostos a comparar os custos e benefícios de diferentes acções. Considere a escola de 40 milhões de dólares que a apresentadora de televisão Oprah Winfrey financiou na África do Sul em 2007. Este pode ser um benefício maravilhoso para as 150 jovens mulheres que a podem frequentar. Mas é possível construir uma escola de 30 mil dólares na vizinha Angola — o que significa que um grupo bem organizado de estudantes provavelmente poderia angariar recursos suficientes para ter um impacto semelhante ao da Oprah. A Oprah poderia ter financiado mais de mil escolas pelo mesmo dinheiro e dar a dezenas de milhares de jovens adicionais um acesso à educação básica.

Apenas considerados por si só, os 40 milhões de dólares parecem uma contribuição generosa. Mas considerando todas as outras coisas em que esse dinheiro poderia ter sido aplicado, assemelha-se mais a uma oportunidade perdida.

Claro, é fácil apontar exemplos de excessos por parte de celebridades. Mas todos nós enfrentamos escolhas semelhantes quando escolhemos como ajudar. Devemos garantir que não estamos a perder oportunidades ao dar o nosso tempo ou dinheiro para projectos que são menos custo-eficazes do que as melhores opções que nos estão disponíveis.

Os economistas do desenvolvimento do Poverty Action Lab do MIT demonstraram que muitos programas (por exemplo, aqueles destinados a melhorar a frequência escolar) não fazem nada e, entre aqueles que têm algum impacto mensurável, os melhores têm mais do que dez vezes o impacto da média.

Comparar diferentes maneiras de fazer o bem é difícil, tanto emocionalmente como na prática. Mas essas comparações são vitais para garantir que ajudamos os outros o máximo que podemos. E quando se trata de comparar maneiras de fazer o bem, a escolha mais importante é a sua escolha quanto à causa.

Qual causa?

O mundo está a tornar-se mais pacífico e mais próspero. Apesar da cobertura dos meios de comunicação tender a concentrar-se em histórias negativas, o mundo está realmente a ficar mais seguro, as pessoas têm vidas mais longas e saudáveis, e as oportunidades à disposição da pessoa comum estão a crescer todos os dias. Essas mudanças mostram-nos que grandes melhorias na nossa qualidade de vida são possíveis, e às vezes podem ocorrer com muita rapidez.

Os esforços concertados para melhorar o mundo já tiveram um sucesso fenomenal. Consideremos apenas alguns exemplos. O número de pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial diminuiu para menos de metade desde 1990, e o número de mortes anuais devido à malária diminuiu para metade desde 2000. Vivemos a Guerra Fria sem que uma única arma nuclear fosse detonada num acto de agressão entre países. Ao longo dos últimos séculos, abolimos a escravatura, reduzimos drasticamente a opressão das mulheres e, em muitos países, fizemos muito para garantir os direitos e a aceitação de pessoas homossexuais, bissexuais, transexuais ou não-heterossexuais.

Mas muitas pessoas ficaram de fora. Mil milhões de pessoas vivem com menos de 2 dólares por dia (onde os 2 dólares são equivalentes ao que 2 dólares compram nos EUA — pouco mais do que um par de sacos de arroz). Milhões de pessoas morrem por ano devido a causas evitáveis, como a desnutrição, a diarreia ou a malária. E a nossa prosperidade e longevidade também trazem o seu próprio conjunto de problemas. A industrialização do nosso sector agrícola significa que milhares de milhões de animais passam as suas vidas em condições desumanas nas pecuárias industriais, antes de serem abatidos. As mudanças climáticas, a competição por recursos e as novas tecnologias disruptivas têm o potencial de impactar negativamente milhares de milhões de pessoas no futuro.

A causa na qual opte por trabalhar é quase certamente o maior factor que determinará quanto bem poderá fazer. Se escolher uma causa em que não é possível ajudar muitas pessoas, ou em que simplesmente não há boas maneiras de resolver o problema, limitará significativamente a quantidade de impacto que poderá ter.

Muitas pessoas começam com uma causa escolhida à partida. Há muitas razões para isso, como ter visto o problema de perto, ler um artigo nas notícias ou ter um amigo que já está a angariar dinheiro para uma determinada organização.

Mas se escolhermos uma causa que simplesmente nos parece relevante, podemos estar a ignorar os problemas morais mais importantes do nosso tempo. William Wilberforce foi uma das figuras-chave do movimento para abolir a escravatura nos séculos XVIII e XIX. Imagine se em vez disso ele tivesse escolhido usar a sua energia e influência para lutar pelos direitos dos trabalhadores brancos das fábricas, porque essa era a causa que, por acaso, mais o apaixonava? O mundo seria um lugar muito pior.

Infelizmente, as pessoas muitas vezes não optam por trabalhar nas causas mais importantes. Como consequência, mesmo que façam algum bem, acabam por perder uma oportunidade de fazer uma diferença muito maior.

Considere apenas uma maneira de fazer a diferença — doar dinheiro.

Uma grande quantidade de dinheiro é doada por ano. Somente nos EUA, 373 mil milhões de dólares foram doados em 2015. No Reino Unido, 10 mil milhões de libras foram doados por doadores individuais — um montante comparável aos gastos do Reino Unido em ajuda humanitária no estrangeiro.

Mas a maioria desses doadores optou por doar nas suas próprias comunidades. Embora seja compreensível que as pessoas desejem fazer uma diferença onde possam ver os efeitos das suas doações, o resultado é que o dinheiro vai para pessoas que, segundo padrões globais, já são favorecidas e não para quem mais precisa.

O empresário americano Marc Benioff, Presidente Executivo da Salesforce (empresa de software de venda na Web), doou mais de 100 milhões de dólares a hospitais infantis sediados em São Francisco. É improvável que esses hospitais salvem muitas mais vidas como resultado da sua doação, porque o sistema de saúde dos EUA já fornece um nível muito alto de cuidados face aos padrões globais. Essa mesma doação feita para instituições de caridade altamente eficazes que trabalham em países muito pobres teria salvo milhares de vidas.

O magnata da indústria musical David Geffen doou 100 milhões de dólares para remodelar um espaço público para ópera no Lincoln Center e outros 100 milhões de dólares para melhorias no Museu de Arte Moderna, ambos em Nova Iorque. Embora essas doações tornem esses espaços mais agradáveis para quem frequenta o museu e o teatro, também é fácil de ver que um bem muito maior poderia ter sido alcançado se esse dinheiro tivesse sido gasto em necessidades mais prementes.

Infelizmente, a maior parte das grandes doações seguem o mesmo padrão. Na verdade, a maioria das doações de mais de um milhão de dólares vão para causas em países ricos, e apenas 11% do dinheiro vai para o estrangeiro.

E não são apenas os multimilionários que não escolhem doar de forma tão eficaz quanto podiam. Dos 373 mil milhões de dólares que foram doados a instituições de caridade nos EUA, apenas 4% do total foi doado para instituições de caridade que operam internacionalmente. Apenas 12% dos 10 mil milhões de libras doados por indivíduos do Reino Unido em 2014 foram para o estrangeiro.

Isto é uma oportunidade perdida. Algumas das melhores oportunidades para fazer a diferença estão no estrangeiro. A quantidade de dinheiro adicional necessário para alcançar a cobertura universal com redes de malária — que, como já vimos, são uma maneira incrivelmente eficaz de prevenir o sofrimento e a morte — foi estimada em cerca de 200 milhões de dólares em 2015. Essa lacuna quase que poderia ser preenchida em exclusivo pelas doações que David Geffen fez para instituições culturais.

E não devemos apenas concentrar-nos em doações. O mesmo tipo de atenção pelas causas visíveis e próximas em vez de causas mais eficazes em outras partes do mundo também acontece face àquilo em que as pessoas escolhem gastar o seu tempo.

Se deseja descobrir em que causa se deve concentrar, é importante reflectir sobre a razão pela qual quer ajudar as pessoas. Pensa apenas que é errado que as pessoas sofram e morram por uma causa em particular (como o cancro [Br. câncer], a malária ou a guerra), ou pensa que todo o sofrimento e morte são errados, seja qual for a causa? A maioria das pessoas, mediante reflexão, concorda que, se quisermos melhorar a vida das pessoas, não importa o que causa o sofrimento — o importante é que estão a sofrer.

Ao mantermo-nos abertos ao trabalho em diferentes causas, temos a capacidade de mudar para onde possamos fazer a maior diferença, sem nos fecharmos a isso cedo demais.

Causas promissoras

Como podemos descobrir então em que causas nos devemos concentrar? Consideramos ser útil o seguinte enquadramento. Consideramos que é importante trabalhar nas causas na medida em que elas sejam de grande impacto (que afectem a vida de muitas pessoas, em grande medida), que sejam altamente tratáveis (recursos adicionais poderão dar um grande contributo para resolver o problema) e que sejam altamente negligenciadas (que poucas pessoas estejam a trabalhar para lhes fazer face).

Com base neste raciocínio, existem várias áreas de causas que têm uma especial importância entre os membros da comunidade do altruísmo eficaz.

Essas escolhas não são imutáveis. Representam simplesmente as melhores suposições sobre onde podemos ter o maior impacto, dadas as evidências actualmente disponíveis. À medida que novas evidências revelem que causas diferentes são mais promissoras, devemos considerar trabalhar nelas.

Combate à pobreza extrema

Cerca de 900 milhões de pessoas vivem abaixo da linha de pobreza do Banco Mundial de 1,90 dólares por dia. As doenças associadas à pobreza extrema, como a malária e doenças transmitidas pela água, matam milhões de pessoas por ano. A má nutrição nos países em desenvolvimento pode levar a deficiências cognitivas, a defeitos congénitos e ao atraso do crescimento.

A maior parte desse sofrimento pode ser facilmente prevenida ou mitigada. Os mosquiteiros anti-malária custam cerca de 2,50 dólares cada. Com uma assistência técnica, os países podem fortificar alimentos básicos como a farinha com micronutrientes essenciais (como o ferro, o iodo e vitaminas) de modo incrivelmente barato. Tratar uma criança que tenha uma infecção de vermes parasitas custa menos de 1,50 dólares.

As campanhas dos meios de comunicação de massas para impulsionar a mudança de comportamentos são uma maneira promissora de melhorar a saúde e o bem-estar e podem melhorar significativamente a eficácia de outros serviços de saúde. E, simplesmente, transferir dinheiro para pessoas que são muito pobres proporciona poder económico directamente, dando a quem recebe maior controle sobre as suas vidas.

Melhorar a saúde não evita apenas o sofrimento directo associado à doença e à morte, mas também permite que as pessoas participem mais plenamente na educação e no trabalho e, consequentemente, ganhem mais dinheiro e tenham mais oportunidades na vida.

Sofrimento animal

Muitas pessoas na comunidade do altruísmo eficaz acreditam que nos devemos preocupar com o bem-estar dos animais não humanos. Em particular, o advento da agricultura industrializada significa que milhares de milhões de animais são mantidos todos os anos em condições desumanas nas pecuárias industriais, e a maioria das suas vidas terminam prematuramente quando são abatidos para se tornarem comida. Os defensores do seu bem-estar argumentam que é relativamente barato reduzir a procura da carne produzida na pecuária industrial ou promulgar mudanças legislativas que melhorem o bem-estar desses animais e que o grande número de animais envolvidos significa que o progresso nesta questão poderia evitar uma grande quantidade de sofrimento.

O futuro da espécie humana

Se acreditarmos que devemos ter uma preocupação moral para com as pessoas que existem actualmente, mas que vivem noutras partes do mundo (ou seja, separadas de nós pelo espaço), da mesma maneira muitas pessoas argumentam que também devemos ter uma preocupação moral para com as gerações futuras (isto é, separadas de nós pelo tempo).

O número de pessoas que poderão existir no futuro é astronómico. Por isso, garantir que a espécie humana continue e que o futuro a longo prazo da espécie humana seja positivo parece muito importante.

No entanto, existem muitas maneiras pelas quais podemos perder um futuro muito positivo a longo prazo. As mudanças climáticas e a guerra nuclear são ameaças bem conhecidas para a sobrevivência a longo prazo da nossa espécie. Mas as tecnologias emergentes, como a geoengenharia e a criação de novos agentes patogénicos, apresentam riscos novos e, pelo menos, de grandeza semelhante. E outras tecnologias que serão desenvolvidas nas próximas décadas, como a inteligência artificial avançada, têm o potencial de moldar radicalmente o curso do progresso humano ao longo dos séculos vindouros. Muitas pessoas na comunidade do altruísmo eficaz, portanto, escolhem garantir que possamos aproveitar os benefícios dessas novas tecnologias, evitando os riscos.

Outras causas

Existem muitas outras causas promissoras que, embora não estejam actualmente entre os objectivos principais da comunidade do altruísmo eficaz, são candidatas plausíveis para terem um grande impacto. Nelas se incluem:

  • A pesquisa científica fundamental
  • As melhorias no estabelecimento científico, tais como maior transparência e reprodução de resultados
  • A pesquisa sobre saúde mental e distúrbios neurológicos, particularmente depressão e ansiedade, e a melhoria no acesso ao tratamento em países em desenvolvimento
  • Algumas formas de pesquisa e tratamento do cancro [Br. câncer]
  • A prevenção, a adaptação e a mitigação das mudanças climáticas
  • O controle do tabaco
  • A prevenção de acidentes rodoviários
  • A reforma da justiça criminal dos EUA
  • A reforma da política internacional de migração e comércio

Naturalmente é provável que tenhamos negligenciado algumas causas muito importantes. Portanto, uma maneira de ter um enorme impacto pode ser encontrar uma oportunidade de fazer o bem que seja potencialmente de alto impacto, mas que escapou a toda a gente.

O Open Philanthropy Project trabalhou na investigação de uma série de diferentes áreas de causas, a fim de determinar quais as melhores oportunidades para grandes doações. (Note que as principais causas variam de pessoa para pessoa, dependendo das suas competências e circunstâncias específicas). A sua lista actual das principais causas inclui saúde e desenvolvimento global, pesquisa científica, bem-estar dos animal da pecuária industrial, reforma da justiça criminal dos EUA, reforma da imigração, biossegurança e inteligência artificial.

Se quiser explorar com mais detalhe algumas das decisões envolvidas, criamos uma ferramenta de priorização de causas para ajudá-lo a decidir em que causa se concentrar.

Qual carreira?

Para a maioria de nós, uma fracção significativa da vida que passamos acordados e a produzir — mais de 80 000 horas — é gasta a trabalhar. Este é um recurso enorme que pode ser usado para melhorar o mundo.

Muitas vezes, os conselhos típicos sobre uma carreira “ética” são muito restritivos. O conselho mais comum é simplesmente trabalhar numa organização sem fins lucrativos: mas muitas organizações sem fins lucrativos são ineficazes, ou trabalham na causa errada, ou não irão capacitá-lo com as competências e experiências que venham a ter um grande impacto a longo prazo.

Pensamos que a pesquisa científica, o trabalho na política e em políticas, empreendedorismo e o trabalho em organizações altamente eficazes (tanto para fins lucrativos como sem fins lucrativos) são percursos de carreira muito promissores. Outra via é “ganhar para dar”: enveredar deliberadamente por uma carreira com um rendimento maior, com o objectivo de doar uma proporção significativa do seu rendimento; se possuir uma competência que tenha uma elevada procura, por vezes poderá doar o suficiente para financiar mais trabalho do que você mesmo poderia realizar. Uma opção final, compatível com algumas das outras, é o desenvolvimento de competências: assumir um emprego com o objectivo principal de desenvolver competências, experiências, credenciais e uma rede de conhecimentos que o ajudará a ter um impacto ainda maior mais tarde na sua vida.

Ao contrário das doações, a sua adequação pessoal com um determinado percurso de carreira é muito importante. Mas é necessário pensar sobre isso da forma correcta. O conselho de carreira habitual “siga a sua paixão” geralmente não faz muito sentido, especialmente se a sua paixão não se adequa a nenhuma das causas mais importantes. Mas descobrir a área em que possa fazer um trabalho em que se destaque é muito importante. A paixão também é muito menos importante do que pensa — acontece que outros factores afectam a satisfação do seu trabalho significativamente mais.

A 80,000 Hours é uma organização dedicada a ajudar as pessoas a descobrir em que carreira podem fazer o maior bem. Fornecem um guia para os conceitos mais importantes, relevantes para a sua escolha de carreira, um conjunto de ferramentas para ajudá-lo a tomar uma decisão e realizaram um grande número de avaliações de carreiras numa ampla gama de domínios.

Qual instituição de caridade?

Uma das maneiras mais fáceis de uma pessoa no mundo desenvolvido poder fazer a diferença é ao doar dinheiro para organizações que trabalhem em algumas das causas mais importantes. As doações monetárias permitem que uma organização eficaz faça mais coisas boas e é muito mais flexível do que as doações de tempo (como no voluntariado).

Conforme mencionado acima, a maioria de nós não se apercebe como somos ricos em termos relativos. Alguém com um rendimento mediano num país rico provavelmente estará nos 5% dos que mais ganham globalmente, e será cerca de vinte vezes mais rico do que a média das pessoas. Esta riqueza relativa apresenta uma enorme oportunidade de fazer o bem, caso seja usada eficazmente.

Doar eficazmente

Algumas organizações associadas ao movimento do altruísmo eficaz procuram as causas mais eficazes às quais doar, apoiando as suas recomendações em evidências rigorosas. A maior delas é a GiveWell, que conduz pesquisas aprofundadas sobre causas promissoras e instituições de caridade, e recomenda aquelas que lhe parecem ser as que representam a melhor oportunidade para um doador ter um grande impacto.

Doar dinheiro não requer qualquer competência em especial, nem é algo que só possa ter impacto se as doações forem muito grandes. Ao passo que ter mais dinheiro lhe possibilita doar mais, concentrando-se nas melhores organizações e causas poderá ter um grande impacto mesmo com uma pequena doação.

As principais instituições de caridade da GiveWell são todas no âmbito da saúde e do desenvolvimento global. Recomendam a Against Malaria Foundation, que distribui mosquiteiros para proteger as crianças da malária; a GiveDirectly, que faz transferências de dinheiro incondicionais para indivíduos muito pobres; e a Schistosomiasis Control Initiative e a Deworm the World, que tratam ambas das pessoas com infecções parasitárias.

Outra importante avaliadora de instituições de caridade — embora muito menor do que a GiveWell — é a Animal Charity Evaluators, que se concentra em encontrar as mais eficazes instituições de caridade de animais. Recomendam a Animal Equality, a Mercy for Animals e a The Humane League, todas elas estão envolvidas na tarefa de encorajar as pessoas a reduzirem o consumo de carne.

Infelizmente, na actualidade, não há qualquer organização que faça recomendações quanto às melhores instituições de caridade centradas no futuro a longo prazo para doadores comuns. Algumas organizações a que alguns na comunidade do altruísmo eficaz doam nesta categoria incluem o Future of Humanity Institute, o Machine Intelligence Research Institute, a Cool Earth, o UPMC Center for Health Security e o Ploughshares Fund.

Compromisso de doação

É fácil pretender dar um montante significativo a instituições de caridade, mas pode ser difícil cumprir. Uma maneira de nos responsabilizarmos é assumindo um compromisso público de doação.

A Giving What We Can tem um compromisso que apela às pessoas para doarem 10% do seu rendimento vitalício às organizações que farão as maiores melhorias no mundo. A The Life You Can Save tem um compromisso semelhante, começando com 1% do rendimento anual destinado a organizações que combatam os efeitos da pobreza extrema.

Como participar

O altruísmo eficaz é um conjunto de ideias. Mas as ideias não têm importância se não forem postas em acção.

Já existe uma crescente comunidade de pessoas que levam essas ideias a sério, e as põem em acção.

A comunidade

Mais de 3 000 pessoas assumiram o compromisso da Giving What We Can para doarem 10% do seu rendimento vitalício às organizações mais eficazes. Centenas de pessoas mudaram significativamente os seus planos de carreira com base no altruísmo eficaz. E há mais de uma centena de grupos locais de altruísmo eficaz.

Pode ler mais destas histórias na nossa página de Perfis da Comunidade .

Começar a agir

Caso se sinta inspirado pela ideia do altruísmo eficaz, há várias maneiras de agir.

Outras Leituras

Se quiser ler sobre o altruísmo eficaz com maior profundidade, há alguns livros que deverá ver:

80,000 Hours 

Find a fulfilling career that does good

Benjamin Todd

A Vida Que Podemos Salvar (Pt) Quanto custa Salvar uma Vida (Br)

Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo 

Peter Singer


Publicado no effectivealtruism.org em 22 de Junho de 2016 (acedido a 13 de Novembro de 2017).

Tradução de José Oliveira e revisão de Daniel de Bortoli.

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2 comentários sobre “Introdução ao Altruísmo Eficaz

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