Cosmopolitismo

Por Topher Hallquist (Effective Altruism Forum)

interesses-dos-outros

Os interesses dos outros valem tanto como os nossos? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Acredito que este é um rótulo que os altruístas eficazes devem adotar para melhor explicar uma parte fundamental do que é o altruísmo eficaz. Historicamente, tem origem grega significando “mundo” e “cidade”, e está associado a Diógenes de Sinope (c. 404-323 a.C.), que declarou ser um “cidadão do mundo”. Sem aludir a metáforas de cidades globais ou de cidadania, por “cosmopolitismo” refiro-me a uma posição moral e política que dá um peso igual (ou pelo menos quase igual) aos interesses de pessoas de outras nacionalidades e aos dos nossos compatriotas.

O apoio ao cosmopolitismo entre os altruístas eficazes é, tanto quanto sei, unânime. Por exemplo, não existe um grupo no movimento do altruísmo eficaz que se dedique exclusivamente à luta contra a pobreza nos EUA. No entanto, os altruístas eficazes não falam muito sobre o cosmopolitismo e quando o fazem, chamam-lhe “imparcialidade”, o que é demasiado vago. Espera-se que juízes, jurados, jornalistas, e assim por diante (limitando-me apenas à letra “j”) sejam de certa maneira imparciais, mas apenas em domínios específicos. As exigências do cosmopolitismo são muito mais abrangentes.

Parece-me que os altruístas eficazes não falam mais sobre o cosmopolitismo porque o tomam como algo garantido. Peter Singer há mais de quarenta anos, em seu influente artigo “Fome, Riqueza e Moralidade”, dedicou apenas um parágrafo ao assunto, afirmando: “Não acredito que precise dizer muito em defesa desta recusa a ter em conta a proximidade e a distância”. Mas há boas razões para duvidar que a maioria das pessoas esteja totalmente de acordo com o cosmopolitismo.

Isso é particularmente óbvio na política. Será que consegue imaginar um político que defenda o livre comércio alegando que, embora isso possa prejudicar um pouco o seu próprio país, traria benefícios enormes para pessoas que vivem em outros países? Ou que apresentasse um argumento análogo a favor da imigração? Nos EUA, os críticos de intervenções militares tendem a concentrar-se nos custos em termos de vidas e dólares americanos e na “falta de interesse nacional convincente”. O fato dessas intervenções muitas vezes causarem enorme estrago nos países que bombardeamos e invadimos pode parecer vir em um distante quarto lugar na retórica anti-guerra.

Suspeito que isso também explique muito quanto à razão para a maioria das pessoas não estar mais empenhada no combate à pobreza global. As pessoas podem alegar que acreditam, por exemplo, que as suas doações acabarão simplesmente por ser roubadas por governos corruptos, mas a maior parte das vezes isso soa como uma desculpa. E imagine o que aconteceria caso se fosse para além do elogio do custo-eficácia das redes anti-malária, e lhes fosse dito para redirecionarem os seus esforços evitando as causas locais específicas que apoiam. Em resposta, provavelmente não lhe iriam dizer exatamente que se preocupam mais com os seus vizinhos geográficos do que com os estrangeiros, mas poderia acabar por ouvir um pequeno discurso sobre a importância da responsabilidade para com a sua própria comunidade.

Há aqui um paradoxo. O rótulo “anti-estrangeiro” tem algumas conotações negativas, mas realmente não é um tabu da mesma maneira que o racismo é. Isto apesar do favoritismo baseado no local de nascimento não ser menos arbitrário do que o favoritismo baseado na cor da pele. Nos EUA, há um blogueiro anti-imigração famoso, chamado Steve Sailer, que é muitas vezes acusado de racismo. Examinei os textos de Sailer e conclui que, caso ele seja racista, é muito menos motivado pelo racismo do que pelo nativismo. Sailer prefere usar o termo “cidadanismo”; a Wikipédia cita-o dizendo: “Eu acredito que os americanos deveriam ser tendenciosos em prol do bem-estar de nossos cidadãos atuais e em detrimento dos seis bilhões [Pt. mil milhões] de estrangeiros”. Para muitos isto pode parecer racista, mas é difícil explicar as atuais políticas de imigração da América sem se assumir um grande apoio silencioso às ideias de Sailer.

Nos EUA, o racismo e o nativismo terem um relativo caráter de tabu pode ter sido influenciado pela história norte-americana face à raça. Ainda assim, os críticos dos partidos anti-imigração na Europa muitas vezes parecem fazer de tudo para criticá-los por serem racistas, como se não fosse suficiente fazê-lo por serem anti-imigrantes. Seria bom se as pessoas tratassem o nativismo como suficientemente ruim por si só, estivesse ou não associado ao racismo.

Até agora, tentei argumentar que os altruístas eficazes consideram o cosmopolitismo como demasiadamente garantido, ao passo que deveriam vê-lo mais como algo distintivo sobre si próprios. Não tentei argumentar que os altruístas eficazes deveriam apoiar ativamente reformas imigratórias ou outras causas políticas cosmopolitas. Na verdade, não sei se esse esforço valeria a pena. Parece-me que seria extremamente benéfico se os principais governos se tornassem mais cosmopolitas, mas fazer com que isso acontecesse pode ser uma causa demasiado concorrida e difícil de tratar.

Apesar disso, estou entusiasmado com a pesquisa do Open Philanthropy Project sobre a defesa de determinadas políticas, pois pode levar a formas custo-eficazes de influenciar políticas governamentais em uma direção mais cosmopolita. Mesmo que não haja muito que possamos fazer diretamente agora, defender explicitamente os ideais cosmopolitas pode ter importantes benefícios a longo prazo. Finalmente, pode ser esclarecedor analisar a política sob um prisma cosmopolita. Pode ser desanimador porque as políticas governamentais, frequentemente, não são cosmopolitas, mas também pode ser uma fonte de entendimento entre campos políticos superficialmente diferentes.

Muitas críticas ao clássico eixo político esquerda-direita são bem conhecidas. Os libertários gostam de se descrever como socialmente liberais e economicamente conservadores (estranhamente, poucas pessoas defendem o contrário). Outra taxonomia proposta usa três eixos: individualistas vs. autoritários, vencedores vs. perdedores e progresso vs. decadência. Ainda assim, parece-me que o cosmopolitismo vs. visões nacionalistas, nativistas e paroquiais é frequentemente um eixo mais importante.

Por exemplo, encontro muito de que se possa gostar no escritor libertário Bryan Caplan. Os nossos desentendimentos sobre os impostos ou o consequencialismo vs. deontologia parecem-me questões menores em comparação com os seus excelentes textos sobre a imigração e a guerra. Isso acontece porque ambos somos cosmopolitas. Por outro lado, existem libertários paroquiais que estão muito mais concentrados na oposição a regulamentos e impostos federais, mas não se importam muito se a polícia local maltratar aqueles que são vistos como “pessoas de fora”. Não tenho muito em comum com eles, assim como não tenho com os liberais paroquiais que se preocupam com coisas como o bem-estar dos sindicalistas da classe média local.

A esta altura gostaria de dizer algo sobre os conservadores religiosos, uma vez que são uma força tão importante nos EUA (embora saiba que isso não é assim em todos os países). A religião geralmente parece que acaba por estar alinhada com o nacionalismo, talvez porque as fronteiras religiosas e nacionais muitas vezes coincidam. Mas não há razão para que isso deva ser assim. As religiões modernas ambicionam atravessar as fronteiras nacionais. Muitos pensadores cristãos exageram a linha cosmopolita do cristianismo – segundo o que dizem, o cristianismo inventou o cosmopolitismo. Isso não é verdade; como já se fez notar, pode-se encontrar o cosmopolitismo até na Grécia antiga. Na altura em que o cristianismo apareceu, o cosmopolitismo já se tinha tornado dominante no mundo romano através do estoicismo. No entanto, o cosmopolitismo cristão é real: pense na parábola do bom samaritano, ou na frase de Paulo em Gálatas “não há judeu nem grego”.

Há algumas questões políticas em que as implicações do cosmopolitismo parecem relativamente claras: os governos deveriam dar mais peso aos interesses dos estrangeiros em decisões que os afetam, incluindo imigração, comércio, ajuda externa e questões ambientais globais (incluindo o aquecimento global). Mas ao invés de me estender muito sobre essas questões, quero terminar este texto falando sobre um problema um pouco mais complicado: a intervenção militar estrangeira.

Os EUA têm justificado ações militares em termos altruístas pelo menos desde a Guerra Hispano-Americana, que foi impingida em parte como uma defesa dos cubanos contra o seus opressores espanhóis. Outros países utilizaram uma retórica semelhante. O que devemos concluir a partir disso? Isso deveria ser rejeitado como propaganda óbvia? Ou será que os defensores de intervenções altruístas merecem ser levados a sério por terem os ideais certos?

O filósofo Richard Chappell propõe aqui um teste útil a que chama o teste cosmopolita civil para a proporcionalidade na guerra. Ele pergunta: “Será que essas baixas civis seriam consideradas ‘proporcionais’ se os cidadãos em questão fossem de uma nacionalidade diferente? Formulado nesses termos, parece-me óbvio que a resposta muitas vezes é “não”. Como Caplan diz: “Se um agente da polícia lutasse contra o crime da mesma forma que os exércitos ‘civilizados’ guerreiam, seria colocado na prisão”.

No entanto, pode haver exceções, por isso parece-me que é importante enfatizar o padrão, em vez das aplicações específicas. Provavelmente, os defensores de intervenções altruístas afirmariam que as ações que defendem passam no teste cosmopolita civil. Afinal de contas, não é como se os intervencionistas fossem dizer que atribuem grande valor à liberdade dos estrangeiros, mas não tanto às suas vidas. Pedir aos proponentes de intervenções específicas para explicar como uma intervenção passaria o teste cosmopolita civil pode ser uma boa maneira de distinguir altruístas genuínos (ainda que equivocados) de pessoas cujos motivos reais sejam menos nobres.

Repito, nada disto quer dizer que tentar adotar uma agenda política cosmopolita deva necessariamente ser uma prioridade máxima para os altruístas eficazes. Contudo, parece-me que o movimento do altruísmo eficaz beneficiaria caso tivesse uma maior consciência quanto ao seu cosmopolitismo.


Texto de Topher Hallquist publicado originalmente no Effective Altruism Forum a 10 de setembro de 2014.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

Botao-assineBoletim

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s