Para que um movimento cresça saudável, escolha os frutos mais fáceis de colher

Por Nick Fitz e Ari Kagan (The Life You Can Save)

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Altruísmo eficaz, que frutos são mais fáceis de colher? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Todos já conhecemos pessoas que nunca estarão abertas às ideias do altruísmo eficaz (AE), não importa como sejam contextualizadas: o seu vizinho que pensa que fazer o bem é puramente uma questão de preferência pessoal, ou o seu tio que argumenta que é errado comparar instituições de caridade porque todas estão a fazer o bem. Apesar de horas a discutir, não é feito nenhum progresso real. Todos também tivemos a experiência oposta: uma pessoa amiga que concorda no primeiro minuto da conversa; aquela que ficou entusiasmada ao saber que outros pensavam da mesma maneira que ela já pensava. Provavelmente, esse seria também o seu caso — só precisou conhecer o movimento para o apoiar.

Grande parte do debate sobre como construir o movimento do AE concentra-se em como enquadrar as questões para convencer as pessoas dos méritos da visão do mundo AE em geral. Devemos falar na doação como uma oportunidade ou como uma obrigação? Devemos enfatizar a saúde global e a pobreza em detrimento da inteligência artificial e da ética animal? Tais discussões são vitais, mas elaborar a nossa mensagem só nos pode levar até certo ponto. Muitos daqueles que potencialmente seriam altruístas eficazes (AEs) altamente empenhados ainda não ouviram falar do AE. Se soubéssemos quem são essas pessoas, poderíamos fazer crescer o movimento de maneira muito mais rápida e sustentável. É muito mais eficaz priorizar a identificação de pessoas que já estejam altamente predispostas a aceitar os princípios do altruísmo eficaz do que debatermo-nos com aqueles a quem isso é muito mais difícil de “vender”.

Muitos daqueles que potencialmente seriam altruístas eficazes (AEs) altamente empenhados ainda não ouviram falar do AE. Se soubéssemos quem são essas pessoas, poderíamos fazer crescer o movimento de maneira muito mais rápida e sustentável.

No modelo “Conhecimento/Predisposição”, desenvolvido pelo Centre for Effective Altruism (CEA), Owen Cotton-Barratt propõe que a construção de movimentos é composta de dois elementos: fazer com que as pessoas conheçam melhor as ideias do AE e tornar as pessoas mais predispostas a aceitar as ideias do AE. O CEA observa que é muito mais difícil aumentar a predisposição do que o conhecimento: “A nossa maneira atual de resolver isso é concentrar nossos esforços a aumentar o conhecimento daqueles que já têm uma predisposição relativamente alta”. Isso não quer dizer que devemos estar fechados à hipótese das pessoas mudarem radicalmente as suas crenças (muito pelo contrário), mas priorizemos os frutos mais fáceis de colher.

Para fazer isso, precisamos encontrar pessoas que tenham uma predisposição elevada relativamente ao AE, mas que atualmente desconhecem as ideias do AE. De fato, um dos objetivos futuros da The Life You Can Save é visar explicitamente “grupos demográficos que provavelmente serão mais receptivos a conceitos de doação eficaz em relação à população em geral”. Já todos assumimos tratar-se de alguém do gênero masculino, branco, ateu, programador a viver na Baía de São Francisco, que ouve os podcasts de Sam Harris e que lê o site Less Wrong. Talvez por boas razões: o questionário do AE de 2017 apurou que o movimento atual é 89% branco, 81% ateu, 81% na faixa etária entre os 20 e os 35 anos de idade e 70% masculino. Mas serão esses números representativos das pessoas receptivas ao altruísmo eficaz? Ou será que simplesmente revelam como o AE se espalhou historicamente através de redes sociais muito homogêneas, equipes de desenvolvimento de software e universidades de elite?

Em um estudo recente, exploramos essas questões para identificar quem já poderá ser receptivo ao AE. Fizemos um estudo on-line com 530 americanos para determinar aquilo que prevê o apoio ao AE. Depois dos participantes lerem uma descrição geral do AE, foi medido o seu apoio ao AE (por exemplo, atitudes e comportamentos de doação). Por fim, os participantes responderam a uma série de perguntas que mediam suas crenças, valores, comportamentos, características demográficas e muito mais.

…o estereótipo típico da “personalidade de um AE” pode estar ligeiramente equivocado.

Os resultados sugerem que o movimento do AE pode estar a passar ao lado de uma população muito maior de apoiantes altamente empenhados. Por exemplo, não só as mulheres seriam mais altruístas em geral (um resultado amplamente comprovado), mas também seriam mais favoráveis ao AE especificamente (mesmo quando comparadas a homens igualmente generosos). E os brancos, ateus e jovens não seriam mais propensos a apoiar o AE do que a média. Ao contrário, ser negro ou cristão indicava uma maior probabilidade de apoiar o AE. Além disso, o estereótipo típico da “personalidade de um AE” pode estar ligeiramente equivocado. Muitas pessoas — dentro e fora da comunidade — vêem os AEs como pessoas frias e calculistas que usam a racionalidade para dominar as suas emoções — o tipo de pessoa que pode facilmente ignorar um pedinte na rua. No entanto, os dados sugerem que quanto maior é a empatia de alguém (tanto cognitiva como afetiva), mais provável é que apoie o AE. É importante ressaltar que outro indicador chave foi o traço psicológico da “tendência a maximizar”, um desejo de otimizar escolhendo a melhor opção ao tomar decisões (em vez de se contentar com algo suficientemente bom). Isto é, não basta apenas se preocupar com os outros, ou apenas ter uma tendência a otimizar. Quando uma pessoa tem alta pontuação em empatia e maximização, é muito mais provável que apoie o AE. Propusemo-nos a aumentar o retorno do investimento no trabalho de construção do movimento; ao fazê-lo, descobrimos um grupo pouco explorado e muito mais diversificado interessado no AE, e descobrimos que a personalidade AE  pode ser de certa forma mal compreendida. Para mais informações sobre esses resultados, veja este breve resumo.

A maioria concorda que o movimento precisa de mais apoiantes altamente comprometidos, mas a questão é como obtê-los. Há preocupações de que a construção do movimento possa levar à “diluição do movimento”, a preocupação de que “uma versão excessivamente simplista do AE, ou que um grupo de indivíduos menos alinhados possa dominar a comunidade, limitando a nossa capacidade de nos concentrarmos nos problemas mais importantes”. Para evitar esse problema, alguns sugerem que ao invés disso devemos concentrar-nos em aumentar o envolvimento dos AEs existentes. Embora um objetivo não impeça o outro, as abordagens tradicionais à construção de movimentos podem até agora ter atraído principalmente apoiantes pouco alinhados, tornando essas abordagens menos valiosas. Espalhar ideias através dos meios de comunicação em massa é uma forma de comunicação de baixa fidelidade, e moldar o AE para melhor convencer as pessoas pode apenas persuadir aqueles que não estejam fortemente alinhados. A abordagem que defendemos aqui contorna essas preocupações: a construção de movimentos baseada em evidências pode nos ajudar a identificar apoiantes altamente alinhados. O esforço mínimo necessário para aumentar o conhecimento de alguém que já está altamente predisposto pode resultar imediatamente em um alto nível de contribuição para o movimento. A discussão completa está fora do âmbito desta publicação, mas este compromisso merece ser melhor avaliado.

Para onde iremos a partir daqui? Este trabalho é apenas a ponta do iceberg e há muito mais para se resolver. Ainda não foi realizado o trabalho suficiente para que se possam elaborar modelos baseados em evidências sobre a construção sustentável de movimentos. Algumas organizações começaram a construir essas ferramentas: a Students for High-Impact Charity (SHIC) começou a “reunir uma variedade de métricas para encontrar estudantes mais predispostos a se envolver com caridade eficaz a longo prazo” e o projeto Jogos de Doação [Giving Games] também está a reunir dados de questionários com um fim similar. Uma vez que tenhamos dados suficientes sobre as principais características que permitem prever a abertura às ideias do AE, deveríamos trabalhar para encontrar grupos de pessoas com essas características e concentrar os nossos esforços onde houver maior retorno. Adoraríamos que isso se espalhasse pela comunidade e que o movimento do AE incorporasse, de maneira mais geral, a tomada de decisões baseada em dados.

Se o movimento do AE entender melhor quem possa já estar interessado no que este tem para dizer, então será capaz de crescer de forma sustentável a um ritmo muito mais elevado. Isso pode parecer óbvio, mas não é a abordagem atual. Isso pode mudar não apenas quem tentamos envolver no altruísmo eficaz, mas também como contratamos pessoas, como fazemos campanhas de angariação de fundos e muito mais. Está na hora de entender quem tende a apoiar o altruísmo eficaz e por quê. Ao adotar abordagens baseadas em evidências para construir o movimento de altruísmo baseado em evidências, podemos fazer um bem ainda maior com os nossos recursos.


Nick e Ari são pesquisadores do comportamento no Center for Advanced Hindsight e no Startup Lab da Duke University, e são co-fundadores do Sparrow, um aplicativo que integra doações eficazes na vida cotidiana.

Texto de Nick Fitz e Ari Kagan publicado originalmente na The Live You Can Save a 1 de junho de 2018.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

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