Os meninos na gruta

Charlie Bresler (The Life You Can Save)

meninosGruta

Os meninos na gruta, e o resto? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Uma versão mais curta deste artigo apareceu como uma carta ao editor por Peter Singer e Charlie Bresler no New York Times a 13 de Julho

A imensa manifestação de preocupação e compaixão demonstrada pela comunidade mundial durante a provação de 18 dias dos 12 meninos e do seu treinador de futebol presos numa caverna inundada na Tailândia foi emocionante e gratificante. O risco pessoal significativo assumido pelos socorristas é inspirador e a morte de um deles foi um momento triste num resgate que de resto foi motivo de alegria. Os recursos financeiros utilizados no resgate também foram significativos.

Em simultâneo com essa generosidade pessoal e institucional, porém, está a nossa falha colectiva em salvar aproximadamente 7 500 crianças menores de cinco anos que morrem todos os dias de doenças evitáveis ​​ou tratáveis. Essa estatística nem sequer dá a entender a nossa capacidade colectiva de ignorar os 735 milhões de pessoas que vivem em pobreza extrema, para quem o sofrimento, a doença e a morte prematura são uma consequência da realidade quotidiana.

Pesquisas feitas por Paul Slovic e outros mostraram que ajudaremos alguns indivíduos identificáveis ​​numa situação de risco de vida quando os meios de comunicação se concentram momentaneamente sobre eles, mas ignoramos meras vítimas “estatísticas”, embora essas pessoas sejam igualmente reais e mesmo que as intervenções que salvam vidas estejam disponíveis e sejam muito menos caras, por cada vida salva.

A boa notícia é que esses problemas podem, na maioria das vezes, ser resolvidos sem riscos pessoais e são dramaticamente mais económicos do que resgatar meninos de uma gruta. Considere estes factos:

  • 3 000 crianças morrem todos os dias de malária ‒ 438 000 pessoas por ano. No entanto, apenas 2 dólares para a Against Malaria Foundation podem comprar um mosquiteiro tratado com insecticida que protege, à noite, de mosquitos portadores de malária, duas pessoas por um período máximo de três anos.
  • 36 milhões de pessoas em todo o mundo são cegas e 217 milhões sofrem de deficiência visual, e em grande parte estão entre os mais pobres do mundo. No entanto, mais de 80% de todos os problemas de visão podem ser prevenidos ou curados. As cataratas, que são a principal causa de cegueira em países de baixo e médio rendimento, podem ser tratadas cirurgicamente por 50 a 100 dólares, através da SEVA e da The Fred Hollows Foundation.
  • Podemos acabar com a pobreza extrema. Há vários anos, o economista Jeffrey Sachs estimou que a pobreza extrema poderia ser eliminada com 175 mil milhões [Br. 175 bilhões] de dólares por ano ao longo de vinte anos. Isso pode parecer muito, mas na América os donativos individuais foram mais de 280 mil milhões [Br. 280 bilhões] de dólares no ano passado ‒ no entanto, apenas cerca de 7% foram para organizações internacionais.

A The Life You Can Save, assim como a avaliadora sem fins lucrativos GiveWell, sugerem organizações sem fins lucrativos altamente eficazes e cuidadosamente avaliadas que demonstraram custo-eficácia na ajuda a pessoas que vivem na pobreza extrema.

Para salvarmos vidas e reduzirmos o sofrimento precisamos aproveitar a compaixão que é mobilizada durante as crises destacadas pelos meios de comunicação e tratar da miséria do dia-a-dia que é gerada pela permanente desigualdade social e económica.


Charlie Bresler é o Director Executivo da The Life You Can Save. Foi presidente da Men’s Wearhouse. Charlie interessa-se pelas maneiras que o possam ajudar a combater os efeitos devastadores da pobreza global e está muito interessado em soluções sistémicas para a desigualdade social e para problemas ambientais.

Texto de Charles Bresler publicado no blogue da TLYCS, a 16 de Julho de 2018.

Tradução de José Oliveira.

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