A natureza não nos diz nada sobre o veganismo

Por Stephen Fenwick-Paul (The Vegan Society)

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O Veganismo é natural? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

Já usou o argumento de que os nossos corpos não foram feitos para comer carne? Stephen Fenwick-Paul acredita que tais “apelos à natureza” podem não servir de ajuda e propõe alternativas ao debater com pessoas que não são veganas.

 

Quando os primeiros filósofos se depararam com questões delicadas como “por que será que as coisas caem em vez de subirem?” responderam, sem constrangimento, “está na sua natureza fazê-lo”. Agora, tal resposta seria justamente ignorada, e mais, seria merecidamente ridicularizada. Versões ligeiramente mais sofisticadas do argumento da “natureza” e do “natural” ainda são utilizadas em muitas arenas de debate e ainda amedrontam com frequência em discussões vegetarianas e veganas.

Um argumento sem sentido

Algumas pessoas veganas afirmam que é natural que os seres humanos comam apenas vegetais, enquanto algumas pessoas que comem carne afirmam que é natural que os seres humanos comam carne (frequentemente citando Desmond Morris e a hipótese da Savana). Ambos os lados, em seguida, escolhem as características anatômicas humanas que mais lhes convém para fundamentar as suas afirmações. Caso se depare com uma discussão em que o seu oponente está a usar o mesmo argumento que o seu para provar o contrário, deveria haver uma forte suspeita de que um dos dois, ou provavelmente ambos, não  entenderão o seu próprio raciocínio. Para entender por que esses argumentos não têm sentido, é preciso dividi-los em partes mais acessíveis.

Usar as palavras certas

Costuma-se argumentar que não fomos concebidos nem destinados a comer carne. Para muitas pessoas veganas isso parecerá uma afirmação razoável e com bases sólidas, mas não é. Em primeiro lugar, é preciso eliminar as palavras “concebidos” e “destinados” porque ambas implicam intenção e, a menos que se tenha ideias fundamentalistas de criação divina, é necessário substituir essas palavras pela única palavra que pode ser aplicada: “evoluímos”. A evolução concede a todos os seres vivos as capacidades que melhoram as possibilidades de reprodução desses organismos. Não há concepção ou intenção, nem plano, nem há um conjunto de princípios morais ou éticos na evolução, apenas a pequeníssima recompensa do sucesso reprodutivo que decorre das variações no DNA (Pt. ADN), fruto do acaso.

Ao substituir a palavra “evoluímos” por somos “concebidos”, os argumentos acima começam a mostrar a sua fragilidade. O que queremos dizer quando afirmamos que uma espécie evoluiu, ou não, para fazer determinada coisa? Sabemos que um pardal evoluiu para voar porque pode fazê-lo: deve haver uma vantagem evolutiva no voo para o pardal, a fim de sobreviver na luta pela vida. Sabemos que os pinguins não obteriam uma vantagem evolutiva caso voassem a partir do fato de terem perdido a capacidade de fazê-lo (os seus recursos são usados ​​com melhores resultados de outras maneiras). Em suma, sabemos que uma espécie evoluiu para fazer algo porque pode fazê-lo.

Algumas pessoas veganas afirmam que é natural que os seres humanos comam apenas vegetais, enquanto algumas pessoas que comem carne afirmam que é natural que os seres humanos comam carne. Ambos os lados, em seguida, escolhem as características anatômicas humanas que mais lhes convém para fundamentar as suas afirmações.

Algumas pessoas irão argumentar que, uma vez que os seres humanos podem sofrer consequências prejudiciais e as suas vidas podem encurtar devido ao consumo de carne, ou que não possuem as garras e dentes apropriados para derrubar um antílope em fuga, que isso seria prova suficiente de que os seres humanos não evoluíram para comer carne e, portanto, devem estar agindo de uma forma que não é natural. Vamos ver como essas ideias se aplicam a outros animais. Sabemos que os abutres comem a carne que os leões evitarão porque a possibilidade de intoxicação alimentar para estes é muito elevada. Sabemos que os abutres estão mal equipados para matar as suas presas e devem procurar presas já mortas. Seria ridículo, então, argumentar que não é natural que os abutres comam carne, porque lhes faltam as armas ofensivas adequadas e para os leões, porque lhes falta o sistema digestivo apropriado para consumir uma maior quantidade de carnes. O fato de os golfinhos serem consideravelmente melhores nadadores do que os seres humanos não é um argumento para impedir os seres humanos de nadar.

Para alguns, isso pode soar como um ataque direto ao veganismo, mas não é, é um ataque a argumentos mal formulados e irrelevantes. Para o afirmarmos com clareza: os seres humanos evoluíram para comer carne (assim como vegetais). A implicação muitas vezes presumida desta afirmação, de que se evoluímos para fazer determinada coisa, daí se segue que devemos fazê-lo, é onde o erro lógico se esconde, e não entender esse erro é o motivo pelo qual muitas pessoas veganas se opõem, tão apaixonadamente, à afirmação acima. Uma habilidade evolutiva não leva diretamente à sua aceitação moral. Podemos ver facilmente a razão de isso ser assim, substituindo comer carne por outros traços humanos, como roubar, mentir, guerrear, assassinar, etc.

Para tudo isso, aprovamos leis prontamente para parar ou limitar o seu uso de alguma forma. Portanto, torna-se claro que uma característica evolutiva não confere aceitação moral ─ outras considerações precisam ser tidas em conta antes que se possa afirmar que um ato é moral ou imoral.

Para além de sucos gástricos e garras

Por que será que tanta gente associa a justificação da sua dieta ao grau em que esta é natural? No centro desta questão está a seletividade dos atributos evolutivos que os proponentes dessas teorias apresentam. É fácil entender a relação direta entre a capacidade de capturar e comer carne e a nossa dieta ─ as duas estão intimamente ligadas, mas a reprodução e o estupro também estão. A nossa espécie não é simplesmente uma máquina de comer bem evoluída. O nosso sucesso como espécie não se deve à nossa capacidade de consumir alimentos ─ existem e têm existido muitas outras espécies que foram muito melhores caçadoras e coletoras do que nós ─ deve-se à nossa capacidade de agir socialmente.

As capacidades mentais necessárias para prosperar em grandes grupos interdependentes são imensas: linguagem complexa, empatia, noções alargadas de parentesco, simpatia, lealdade, vingança, pensamento lógico, justiça, reciprocidade reforçada, para citar apenas algumas. Quando procuramos a justificação para a nossa moralidade, os lugares menos importantes para se procurar são os vestígios da herança anatômica de algum antepassado remoto ─ tal como o comprimento dos nossos dentes caninos ─ devemos prestar atenção é às características mentais evoluídas que nos permitem compreender a angústia que causamos às nossas vítimas e o impacto das nossas escolhas no nosso meio ambiente e nos nossos corpos. Podemos imaginar um planeta distante onde as espécies inteligentes e comunitárias dominantes evoluíram diretamente de um antepassado carnívoro. No entanto, a sua inteligência lhes dá uma empatia com as suas presas e uma compreensão de seu ambiente que, com o tempo, vê a adoção do veganismo como a escolha moral e lógica inescapável.

A justificação para o veganismo não é a da dieta: essa justificação deve ser encontrada em nossas mentes.


Publicado originalmente por Stephen Fenwick-Paul na The Vegan Society a 30 de junho de 2017.

Tradução Ligea Hoki. Revisão José Oliveira e Lara André.

 

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2 comentários sobre “A natureza não nos diz nada sobre o veganismo

  1. Que maravilha de texto! Fiz uma pesquisa com uma grupo de pessoas vegetarianas e veganas e nenhuma conseguiu me confirmar que sua dieta alimentar não tem falhas… Independente de como se escolhe alimentar, carne ou só vegetais, acho que é tudo como tudo na vida, o equilíbrio… e lindo ser algo “moral”, não havia pensado nessa hipótese, mas ao ler em outro blog que em algum país oriental os golfinhos não poderiam ser caçados pois são “pessoas não humanas”, ou seja, seria assassinato matá-los mesmo… Obrigado por compartilhar e me fazer refletir mais sobre, adorei!!! =)

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