O vocabulário moral do Altruísmo Eficaz (1 de 3)

Por Celso Vieira

VocabularioAE1

Como ser bom? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

Essa série de ensaios traz um primeiro esforço para tentar mapear o funcionamento do vocabulário moral quando utilizado da perspectiva do altruísmo eficaz. A princípio, o projeto é fazer um tríptico para começar a determinar os sentidos dos termos: bom, dever e correto.

É mais difícil do que se pensa entender o que nós (realmente) queremos dizer ao nos servimos de palavras que sabemos usar perfeitamente. Um bom exemplo é a palavra ‘bom’. O caráter positivo desse adjetivo é óbvio, mas trata-se de um termo tão amplo em aplicação que, muitas vezes, corre o risco de perder o significado por indeterminação. Quantas vezes você já respondeu a uma pergunta do tipo ‘Gostou do filme?’ com um ‘Estava bom’ com o simples intuito de não precisar pensar no que é que faz que um filme seja bom? O termo ‘bom’ usado em contextos morais partilha dessa amplitude, mas uma diferença é clara. Diante dele, não conseguimos manter a mesma indiferença. Queremos saber o que faz com que uma pessoa ou uma ação sejam boas.

Três tipos de ‘bom’

Um primeiro passo para clarear o assunto é dividir os nossos usos em subáreas. No caso do ‘bom’, podemos destacar, pelo menos, três: prazeres, capacidades e a moral. No âmbito do prazer utilizamos ‘bom’ para qualificar algo como gostoso. No caso das capacidades, ‘bom’ indica a destreza na realização de um objetivo. Confunda esses usos e uma afirmação como ‘um bom cozinheiro é quem faz um bom prato’ passa a endossar o canibalismo. Mas e no caso da moral? O que é que queremos dizer quando qualificamos um ato como moralmente bom?

Uma linha de resposta é dizer que atos moralmente bons são aqueles que concordamos que todos deveriam fazer. Por exemplo, cumprir as nossas promessas. Como concordamos? Justamente pelo fato de aplicarmos a palavra ‘bom’ em contextos morais a atos desse tipo de maneira intuitiva. (1) Entretanto, muitas pessoas não se sentem satisfeitas diante desse tipo de definição. Afinal de contas, não é difícil encontrar exemplos em que essa postura se prova desastrosa. Sacrificar animais já foi considerado moralmente bom. Diante disso, o que se pede é alguma justificativa que certifique a bondade de um ato.

Uma maneira de resolver essa dificuldade é apelar para a universalidade. O jeito mais tradicional de fazer isso é recorrer à chamada regra de ouro da moral. Essa regra, que aparece em várias tradições sapienciais, prescreve que devemos fazer aos outros o que queremos que façam a nós mesmos. Assim se justificaria o caso de cumprirmos nossas promessas (ou de não comermos o cozinheiro). (2)

A divisão permite ver que os diferentes sentidos de ‘bom’ podem conflitar. Pense no bom da capacidade e o bom da moral. Várias situações nos vêm em mente em que violar as regras e intuições morais nos capacita a realizar um objetivo (e, inclusive, tirar prazer daí). Quantas raposas prometeram que não comeriam os ratinhos ao convidá-los para comer com elas?

Há quem defenda que, mesmo fora das fábulas, esse tipo de pensamento não gera os melhores resultados. Para tanto, eles oferecem uma explicação dinâmica para confirmar a regra de ouro. A sociedade é um universo de múltiplas interações e iterações. Assim, agentes moralmente ruins ou serão punidos por violarem a regra, ou, pior, o comportamento como o deles poderá virar a regra e eles acabarão recebendo o que não queriam. Funciona para bancos e mafiosos, quanto maior a inadimplência [Pt. incumprimento], maior a taxa de juros (pois é mais arriscado emprestar e mais difícil cobrar). Portanto, em vista da figura geral, será mais vantajoso (o bom da capacidade) cumprir suas promessas (o bom moral), e é isso que vai gerar, no todo, mais prazer. Nesse modelo, não só temos as três áreas de ‘bom’, mas elas também caminham de mãos dadas. No entanto, nem sempre funciona assim. É hora de ver como elas se relacionam no caso do altruísmo. (3)

Altruísmo

A vantagem de tornar clara a separação dos usos de ‘bom’ é a de entender melhor quando é que elas acontecem misturadas a fim de identificar os pontos fortes e os pontos fracos dessa associação. Isso é especialmente produtivo no que concerne ao altruísmo. Não há dúvidas de que o altruísmo seja considerado bom no sentido moral do termo, seja intuitivamente ou em qualquer tipo de teste de universalização proposto. Além disso, é um fato empírico que agir de maneira altruísta também é prazeroso. Portanto, nesse caso há uma correlação entre moral e prazer. O que é bom, pois o bom hedonista (prazer) serviria para nos impelir a fazer o bem moral. No entanto, uma vez que estamos cientes da separação, fica clara também a falibilidade dessa relação. O bom do prazer sentido pelo agente o impele a agir, mas não é o bom do prazer percebido pelo agente que torna uma ação boa moralmente. Em vista dessa assimetria, podemos perfeitamente ter prazer de realizar uma ação que nos parece altruísta mas que, na verdade, prejudica os outros.

Um caso oposto acontece se pensarmos a relação entre o bom da capacidade e o moral. Nesse caso, parece que, intuitivamente, lidamos com eles como se fossem duas coisas diferentes. Isso fica claro diante do fracasso. Comparem as nossas atitudes diante de um ato altruísta e um ato não-altruísta que fracassa. Um bom cozinheiro incapaz de produzir uma boa refeição não é um bom cozinheiro. Ao passo que, quando ouvimos a história de uma pessoa que entregou a vida para ajudar os outros, mesmo que lhe faltasse a capacidade para realizar o seu objetivo, ainda assim a vemos como uma boa pessoa.

Altruísmo Eficaz

Depois de fazermos algumas distinções do uso de bom e vermos como elas se aplicam ao altruísmo segundo o senso-comum, possuímos, agora, as ferramentas para entender as peculiaridades do uso de ‘bom’ no altruísmo eficaz. A diferença proclamada entre o altruísta e o altruísta eficaz é a eficácia, ou seja, o valor dado na quantidade de ajuda fornecida. Com isso em mente, vamos comparar três tipos de altruístas relacionados às áreas vistas acima:

  • Um bom altruísta hedonista é aquele que sente muito prazer em ajudar.
  • Um bom altruísta capaz é aquele que tem muita habilidade para ajudar os outros.
  • Um bom altruísta eficaz é aquele que ajuda os muitos necessitados.

Veja que o ‘bom’, na denominação, se converte em ‘muito’, na definição. Trata-se, portanto, de uma abordagem quantitativa. Ademais, no caso do altruísta eficaz, o ‘muito’ qualifica os ajudados e não o altruísta. A diferença é importante, afinal de contas, um altruísta é altruísta porque ajuda os outros. Em vista disso, o melhor altruísta, sob a perspectiva da eficácia, é o que ajuda mais, não o que abriu mão de mais coisas para ajudar nem o que tem mais prazer em ajudar. De maneira mais direta: o ‘bom’ do prazer que importa no altruísmo eficaz é do outro, a saber, o benefício gerado ou sofrimento evitado a quem se ajuda.

Depois que separamos, é hora de ajuntar mais uma vez. Rotina essa que, apesar de parecer, não tem nada de sisífia, pois, veremos, os resultados de reajuntar serão bem diferentes e produtivos. O foco na eficácia deixa claro que uma atitude altruísta não será altruísta se não realizar o seu objetivo e, será melhor, enquanto altruísta, quanto mais o fizer. É em vista disso que o ‘bom’ da capacidade torna-se assaz proeminente no altruísmo eficaz. É preciso ser bom (capacidade) para fazer o bem (moral) ou, de maneira mais sucinta, o altruísmo eficaz tenta fazer o bem, bem.

E como medir quem é bom (capacidade) em ser altruísta? Se o bom (prazer) que importa é o do ajudado, a tentativa será a de achar o modo pelo qual se gerará mais benefício para os ajudados. Aqui temos a relação das três áreas. O bom moral dá o princípio. O bom da capacidade é o meio. E o bom do prazer (do outro, segundo o bom moral) dá o fim.

 

(1) Quem quiser entender melhor essa posição deve ler sobre o intuicionismo moral.
(2) Para aprofundar sobre universalismo e a regra de ouro.
(3) A posição bem esboçada deriva do egoísmo ético.


Texto de Celso Vieira.

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