Os cientistas calcularam o custo de erradicar 11 doenças que poderão matar milhões numa pandemia

Por Abigail Higgins (Vox)

Pandemia global

O que fazer em caso de uma pandemia global? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Pixabay)

Uma das melhores maneiras de salvar a humanidade de uma pandemia global no futuro é desenvolver, agora, vacinas contra doenças infecciosas. Mas a pesquisa científica tem sido lenta, em parte porque ninguém sabe quanto custaria produzir tais vacinas.

Isso mudou na semana passada, quando pesquisadores da Coalition for Epidemic Preparedness Innovations (CEPI) [Coligação para Inovações em Prontidão Epidémica] publicaram um estudo no Lancet que calcula o custo do desenvolvimento de vacinas para doenças que têm o potencial de se transformar em crises humanitárias globais.

Prevenir pandemias é um trabalho extremamente importante: os especialistas acreditam que nas próximas duas décadas, existe uma probabilidade razoável de uma pandemia que mate mais de 30 milhões de pessoas em todo o mundo. Compare isso com o surto de Ébola de 2014, que matou mais de 11 000 pessoas em três países — em parte porque à época não tínhamos uma vacina.

Mas as vacinas são caras e difíceis de colocar em funcionamento. De acordo com o Lancet, “Em geral, o desenvolvimento de vacinas, desde a descoberta até ao licenciamento, pode custar milhares de milhões [Br. bilhões] de dólares, pode levar mais de 10 anos para ser concluído e a possibilidade de falhar é em média de 94%”. É um investimento arriscado e não há muitas pessoas que o queiram fazer — até que, é claro, haja uma epidemia mortal como a de 2014. Por essa altura, muitas vezes, já é tarde demais.

Graças à pesquisa científica da CEPI, sabemos agora o custo mínimo de desenvolver pelo menos uma vacina para cada uma das 11 doenças que os especialistas destacaram como riscos pandémicos: de 2,8 mil milhões [Br. bilhões] a 3,7 mil milhões [Br. bilhões] de dólares. Parece muito caro, mas as pandemias também são: o surto de SARS em 2003 no leste da Ásia custou 54 mil milhões de dólares [Br. 54 bilhões de dólares]. Além disso, se o desenvolvimento precoce nos impedir de enfrentar outra gripe espanhola, que matou quase uma em cada 20 pessoas em 1918, então é realmente uma pechincha.

É difícil obter financiamento para doenças raras até que haja uma epidemia

Os pesquisadores escolheram os patógenos com base numa lista que a Organização Mundial de Saúde desenvolveu após o surto de Ébola em 2014 a partir dos 11 patógenos que acreditava serem os mais prováveis ​​de causar surtos graves num futuro próximo. A lista incluía:

  • Febre Hemorrágica da Crimeia e do Congo
  • Chicungunha
  • Ébola
  • Febre de Lassa
  • Febre hemorrágica de Marburg
  • Síndrome respiratória por coronavírus do Médio Oriente[Br. Oriente Médio]
  • Vírus Nipah
  • Febre do Vale do Rift
  • Síndrome respiratória aguda grave
  • Febre grave com síndrome de trombocitopenia
  • Vírus Zica

Esta lista mudou um pouco quando foi actualizada este ano, mas todas as doenças permanecem com “considerável importância na preparação para epidemias”.

Estas são, na sua maioria, doenças relativamente raras que tendem a atacar os países mais pobres. A Chicungunha ocorre principalmente em África e na Ásia, e apesar do Sudão ter tido um surto recente, as mortes por esta doença não são comuns. A febre de Lassa existe apenas na África Ocidental e, nos últimos anos, tem havido surtos periódicos na Nigéria, incluindo o pior surto em Março que matou mais de 100 pessoas.

A Febre do Vale do Rift normalmente nem afecta os seres humanos. É uma doença que afecta principalmente animais na África Subsariana e ocorreram surtos importantes no Quênia, na Somália e na Tanzânia. Não é comum, mas os seres humanos podem contraí-la através de picadas de mosquito ou ao manusear o tecido de animais infectados, e quando isso acontece, é mortal.

Como essas doenças causam relativamente poucas mortes (por enquanto) e atingem principalmente os pobres, é difícil obter financiamento para elas, especialmente os milhares de milhões [Br. bilhões] necessários para o desenvolvimento de vacinas.

Mas isso pode mudar. O Ébola era uma doença tropical relativamente obscura, até que deixou de ser. Também vimos o que aconteceu quando o vírus Zica passou do desconhecimento absoluto para uma preocupação internacional com a saúde pública. Não sabemos qual será o próximo Ébola ou em que medida será nocivo. A melhor coisa que podemos fazer agora é encontrar uma vacina quanto antes.

Qual a probabilidade de uma pandemia global? Bastante provável.

Os riscos de uma pandemia global podem parecer remotos, mas não são menores agora do que há 100 anos, escreve Klain. Apesar dos avanços da medicina moderna, como os antibióticos, nos protegerem das doenças, outras realidades da vida moderna não o fazem.

“Redes de transporte globais podem levar um vírus de um canto remoto do mundo para uma das cidades mais populosas em menos de 24 horas. O agrupamento de mais pessoas nas cidades — especialmente as megacidades na Ásia — cria um terreno fértil para que essas doenças se espalhem rapidamente”, diz Klain. As mudanças climáticas também significam que os mosquitos estão a atingir novas populações, e a crescente resistência aos antibióticos ameaça inverter os benefícios na saúde pública.

Vimos a forma como as pandemias podem sair do controle: como na epidemia de HIV/SIDA [Br. AIDS], a SARS em 2002, a gripe H1N1 em 2009, a MERS em 2012 e o Ébola em 2014.

Foi só quando o Ébola começar a disparar — a dado momento a projecção era que infectaria um milhão de pessoas — que a pesquisa da vacina entrou em acção. O sector público e privado despejou recursos no desenvolvimento da vacina e o processo de aprovação, normalmente demorado, foi acelerado.

E funcionou. Quando um surto atingiu a República Democrática do Congo no início deste ano, as vacinas foram enviados para esse país e foram fundamentais para conter o surto.

Mas muitas pessoas tiveram que morrer antes que houvesse pressão suficiente para desenvolver a vacina.

“Se uma vacina estivesse disponível no início da epidemia do Ébola, milhares de vidas poderiam ter sido salvas”, disse o Dr. Jeremy Farrar, director da Wellcome Trust, uma fundação global de caridade que financia pesquisas sobre o Ébola depois de ter sido desenvolvida a vacina eficaz em 2016. “Temos que nos antecipar e fazer diagnósticos promissores, medicamentos e vacinas para doenças que sabemos que podem ser uma ameaça no futuro”.

Conhecer o custo do desenvolvimento dessas vacinas poderia ajudar a promover uma importante mudança de paradigma: prevenir pandemias antes que elas comecem.


Tradução de José Oliveira.

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