Ninguém é uma estatística

Por Julia Wise (Blog Giving Gladly)

Vida_estatística

Qual o valor de uma vida estatística? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Cheguei tarde a essa discussão, mas tenho pensado no documentário “The Life Equation[A equação da vida], sobre como as pessoas usam dados para tomar decisões de vida ou morte. O exemplo central é o de uma mulher chamada Crecencia, mãe de sete filhos que vive na zona rural da Guatemala e tem câncer [Pt. cancro] do colo do útero. O médico que a trata sabe que exames para diagnosticar o câncer em outras mulheres são mais custo-eficazes do que tratá-la, e que a comunidade não tem dinheiro suficiente para financiar completamente ambas as alternativas.

O cineasta escreve: “A vida de Crecencia depende de decisões tomadas por médicos e doadores, decisões cada vez mais impulsionadas pelo Big Data*. É uma abordagem científica, baseada em evidências, que deixa de lado as emoções e promete transformar a vida de centenas de milhões de pessoas. Mas quem, e o quê, se perde no processamento desses números?”

O filme é emocionante ao retratar as orações de Crecencia pela sua cura, seu relacionamento com os filhos, seu ardente desejo de permanecer viva. Pergunta como seu médico deve decidir entre essa paciente individual e “estatísticas”.

Mas eis a questão sobre essas “estatísticas”: todas são pessoas.

As outras mulheres que não são examinadas, cujo câncer não é detectado a tempo? Também são pessoas. Têm famílias. Querem permanecer vivas também.

É mais provável que ajudemos uma pessoa se pudermos ver seu rosto e conhecer seu nome (o que às vezes é chamado de “viés da vítima identificável”). As pessoas vão realmente doar mais dinheiro se lhes disserem que esse vai para uma criança do que para duas crianças.

Os defensores dos animais agora recomendam que é melhor informar sobre animais individuais em vez de grandes massas indiferenciadas deles. Meu cérebro tem mais facilidade em pensar no leitão resgatado Lily do que nos 769 milhões de suínos criados em todo o mundo.

Penso ser boa ideia trabalhar com essa realidade do pensamento humano e apresentar exemplos de quem se beneficiará com intervenções específicas. Mas também precisamos examinar nossas intuições e perceber que, mesmo que não nos tenha sido apresentado um exemplo individual, intervenções eficazes são importantes porque afetam mais indivíduos.

Cada pessoa no mundo tem suas próprias particularidades, preferências e senso de humor. Todos começaram como bebês, a maioria com pais que memorizaram o redemoinho nos seus cabelos e o cheiro da sua pele. Mesmo aqueles que ainda não nasceram, passando a existir, terão sardas, medos, músicas favoritas.

Acho que os cristãos andarão perto da verdade ao referir-se às pessoas como “almas” em vez de “população”. Isso ajuda nossas nossas mentes humanas falaciosas a ver o valor do todo ao concentrar-se no valor das partes.

As multidões são importantes porque cada um de nós é importante. Ninguém é uma estatística, mas a estatística é a maneira como ajudamos mais indivíduos insubstituíveis.

 

* Em tecnologia da informação, o termo Big Data refere-se a um grande conjunto de dados gerados e armazenados (N. do T.).


Texto de Julia Wise publicado originalmente no blog Giving Gladly, a 10 de outubro de 2018.

Tradução de Daniel de Bortoli e revisão de José Oliveira.

Botao-assineBoletim

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s