Uma Canção de Natal

Por Celso Vieira

Ilustrações: Anna Cunha

 

Um cover da obra de Charles Dickens no espírito Altruísta Eficaz

Dezembro, 2018

Estrofe I: O Fantasma de Marley

altruismo_anna2.jpgToda manhã tem gosto de novo dia. O cheiro do café no fogo tempera o ar. As manhãs da véspera de Natal têm sabor de esperança. Para uns, o gosto de esperança é o da segunda-feira. Hoje começo a fazer aquilo que planejei. Para outros, gosto esperado vem no sábado. O dia em que, calçado em meias, curto a preguiça com a sensação de já ter feito o que devia. Esse natal, pela primeira vez, Ebenézer Scrooge acorda com o gosto da esperança de sábado.

De olho na chama do fogão, seu começo azul e fim amarelo, Scrooge se lembra do natal passado. Acordara sozinho e sovina. A rotina marchava obediente até o fantasma do seu falecido sócio aparecer. O senhor Marley, arrastando correntes e pesos de ferro, anunciara uma jornada vindoura. Scrooge seria levado a ver como suas ações passadas presentes e futuras influenciam o mundo muito além de onde e quando ele se encontra. O passeio foi assustador. Ele aprendeu como o corte de gastos feito na sua empresa, justificado pela gestão dos negócios, acabara por esgotar os recursos da família do seu funcionário. A vida frágil do filho do casal estava sob ameaça. Algumas das nossas piores ações acontecem quando estamos certos de que fazemos tudo correto, Scrooge resume. Uma borboleta pousa no parapeito da janela. Para que é que ela bate as asas sem voar?

Estrofe II: O Fantasma do Natal Passado.

Café pronto, Scrooge põe a mesa para quatro. O primeiro gole reaviva a lembrança do que se seguiu no ano anterior. A visão do desespero o convencera e, mais importante, o comovera. Afinal, mover é mais importante do que vencer. Sua primeira ação foi aumentar o salário do seu funcionário, Bob Cratchit e, por conseguinte, salvar a vida do pequeno Tim. Após passar pasta de amendoim no pão, Scrooge identifica seus olhos refletidos na lâmina da faca. Ele sorri. Desde então vive tranquilo e até tira o chapéu para desejar um bom dia aos seus antigos fantasmas.

Na porta da geladeira pousa um desenho tremido. Contam-se quatro figuras, com muita boa vontade, o que não falta a Ebenézer, um observador pode identificar três adultos de pé e uma criança na cadeira de rodas. Sobre o geoide que representa a cabeça de um dos adultos plaina um rabisco, com esforço se vê um chapéu. Bob, ao lhe presentear com o desenho, contou que Tim, o autor, dissera que aquele era o tio Scrooge.

Estrofe III: O Fantasma do Natal Presente.

Scrooge, aos assobios, caminha na direção da loja de brinquedos. A sua cabeça está ocupada por um problema presente, o que comprar para o pequeno Tim. Presentear as crianças que amamos é uma arte culinária, convém combinar educação e diversão. Um boneco de super-herói com certeza agradaria ao pequeno. Mas, não sei, ele se questiona, todos aqueles músculos, armas e superpoderes não são os desejos que as nossas crianças deveriam ter. Talvez eu encontre um livro que traga algum ensinamento importante. Não, ele para, estou sendo egoísta. Não faz sentido dar um presente que a criança vai odiar! Acho que escolher presentes é um superpoder que me falta. Scrooge, cabisbaixo, põe o pé no asfalto. Um ciclista, em uma bicicleta motorizada, passa bem perto, buzina e grita, Olha a ciclovia! Já sei!, ainda se recompondo do susto Scrooge intui a solução perfeita: um quadrinho de super-herói! Seu próximo passo vem confiante. Ele sequer vê o carro que lhe atropela.

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Ebenézer Scrooge sente algo apertando seus pulsos. Os braceletes metálicos estão ligados a correntes. Ao fim das correntes encontram-se pesos enormes. Um fantasma se aproxima. Onde estou? Fantasmas não respondem perguntas às quais já sabemos a resposta. Eu não entendo, Scrooge reformula, eu mudei antes do fim! Eu fiz o que devia. Eu salvei o pequeno Tim! O fantasma vira de costas e começa a se afastar. Scrooge está paralisado. O fantasma se vira na sua direção, desvira, e continua seu caminho. Scrooge vai atrás.

O fantasma aponta o que parece uma constelação ou um formigueiro, depende do ponto de vista. Você consegue contá-los? Scrooge levanta os ombros. São 767 milhões, o fantasma responde, 767 milhões de pessoas que vivem hoje no mundo em condições de pobreza extrema. O número parece enorme, mas Scrooge não está comovido. O fantasma continua a caminhar na direção dos pontos. Eles se aproximam de uma estrada de terra, vermelha e granulada, e passam por ela, entre algumas cabanas. Alguns quilômetros adiante, a estrada começa a se afinar, mais alguns metros e pululam algumas veredas. O fantasma, sem hesitar, escolhe uma. Scrooge ainda o segue. À beira de um poço d’água há várias pessoas. Crianças brincam. Mulheres enchem bacias com água, outras lavam roupas. Todas pedem ajuda às crianças. Essas ajudam brincando.

O fantasma para diante de uma criança, se vira, e pergunta, Consegue ver? Scrooge encara aqueles pequenos olhos, as pupilas grandes e negras brilham, é como se o buraco negro emanasse a luz das estrelas engolidas. Eles continuam o caminho, entram dentro dos olhos da criança. O importante nesses casos é o que você não vê, o fantasma leciona, percebe? Falta vitamina A. Sabe o que acontece se uma criança não tem vitamina A o suficiente? Scrooge está calado, vire-se para o outro lado. Penumbra. Se a criança tiver sorte, fica cega, se não tiver, torna-se uma vítima fácil de infecções letais. A penumbra se acinzenta. Uma forma geodésica negra e borrada, lentamente, adquire nitidez. Scrooge identifica um rosto e roupas de médico. Uma voz feminina lhe pergunta: O senhor consegue me dizer quem você é?

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Estrofe IV: Fantasma do Natal Futuro

Eu vou ser o super-borboleta, Scrooge respondeu, ainda no leito do hospital, quando o pequeno Tim lhe perguntou quem ele gostaria de ser na brincadeira de liga da justiça. E o que ele faz?, foi Bob quem ficou curioso sobre os superpoderes daquele herói. Muita coisa! Ele fornece suplementos de vitamina A, mosquiteiros antimalária, tratamento para a desparasitação, acesso à água potável, combate a desnutrição, reforço de Iodo, controle da esquistossomose e outras doenças tropicais negligenciadas, cirurgias de catarata, entre outros. O pequeno Tim nunca tinha ouvido muitas daquelas palavras. Por menos de cinco reais por unidade, Scrooge explica, essas intervenções proporcionam vários anos de vida saudável a várias pessoas. Nesse momento Bob percebeu. Aquela visita de agradecimento não bastava. Ele olha nos olhos do pequeno Tim que traduz o sentimento: Abençoados sejam todos e cada um.

Mais do que presentes, o natal celebra a chegada de uma mudança. Nesse fim de ano, ultrapasse a doação isolada, assuma o compromisso de doar regularmente, tendo o cuidado de escolher o melhor modo de reduzir o sofrimento no mundo.

Desejamos a todos um natal cheio de significado.


Texto de Celso Vieira.

Ilustrações: Anna Cunha.

 

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