Bem-Estar Animal

Por Jess Whittlestone (effectivealtruism.org)

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Devemos priorizar o bem-estar animal? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

 

Introdução

Um dos maiores problemas do mundo na atualidade poderá ser o do sofrimento de animais na indústria da carne. Em 2015, cerca de 9,2 bilhões [Pt. 9,2 mil milhões] de animais foram criados e abatidos na pecuária industrial somente nos Estados Unidos,[1] em condições que provavelmente causam sofrimento extremo.[2]

Esse problema parece ser incrivelmente negligenciado. Muitos especialistas acreditam que os animais têm experiências conscientes[3] e são capazes de sentir dor.[4] Tendemos a atribuir muito mais peso ao sofrimento dos seres humanos do que ao sofrimento dos animais — isso é potencialmente uma forma de “especismo”, valorizar os animais muito menos do que eles merecem.

Há coisas que podemos fazer para ajudar a resolver esse problema. Três tipos principais de intervenção parecem promissores: persuadir as pessoas a mudarem suas dietas, fazer pressão para se melhorar os padrões de bem-estar animal e desenvolver alternativas aos produtos de origem animal. No entanto, as provas nessa área não são tão fortes como nas intervenções globais de saúde.

Esta descrição define por que se pode querer trabalhar para melhorar o bem-estar animal — e por que se pode não querer fazê-lo. Esta área, particularmente, parece ser de alto impacto caso se entenda que a capacidade dos animais para sofrer é semelhante à dos seres humanos, e é improvável que o tratamento de animais melhore naturalmente à medida que a humanidade progride.

O caso do bem-estar animal como uma importante área de intervenção

Como saber onde seus recursos farão o maior bem?

  • Heurística: Podemos usar regras gerais para concentrar a nossa atenção. Em particular, podemos procurar problemas importantes que estão sendo negligenciados por outros, ou intervenções para as quais há muitas provas, e há a possibilidade de recolher mais (valor da informação).
  • Estimativas quantitativas: Podemos examinar estudos que calculem o custo-eficácia das intervenções, com base em dados empíricos de estudos aleatórios controlados (EACs), embora não existam EACs para muitas das intervenções mais promissoras em bem-estar animal.
  • Provas empíricas: para intervenções, como campanhas face a corporações, onde não é possível executar EACs efetivos, poderíamos tentar avaliar se a intervenção fez com que a empresa mudasse e, em seguida, usar os números na escala da mudança para calcular o impacto da intervenção.

O sofrimento animal é de grande escala

A cada ano, dezenas de bilhões [Pt. dezenas de milhares de milhões] de animais são criados para carne e abatidos na pecuária industrial. Isso é muitas vezes mais do que o número total de humanos vivos hoje (cerca de 7 bilhões [Pt. cerca de 7 mil milhões]). Um relatório sobre as condições da pecuária industrial moderna feito pela Humane Society dos Estados Unidos detalha quão terríveis essas condições podem ser. As galinhas criadas para carne são mantidas em barracões densamente povoados, com grandes quantidades de lixo acumulando.[5] Galinhas poedeiras são acondicionadas em pequenas gaiolas, enquanto pintos machos são moídos vivos ou intoxicados por gás.[6] Algumas vacas leiteiras são mantidas presas durante todo o ano[7] e mais da metade delas são separadas de seus bezerros 14 horas após o nascimento.[8] Porcas reprodutoras são mantidas em compartimentos por anos, nos quais nem sequer se podem virar.[9]

Também está ficando claro que a pecuária industrial está prejudicando o meio ambiente. Um relatório da Organização para Agricultura e Alimentação estima que a agropecuária representa 14,5% de todas as emissões poluentes provocadas pelos seres humanos.

O problema do sofrimento dos animais parece ainda maior em escala quando consideramos também animais selvagens, que em número excedem largamente os animais criados na pecuária. Por exemplo, estima-se que entre 0,97 e 2,74 trilhões [Pt. 0,97 e 2,74 biliões] de peixes selvagens sejam capturados e abatidos a cada ano para consumo humano.[10] Muitos outros animais selvagens sofrem no ambiente natural.

O bem-estar animal é negligenciado

Especialmente dada a escala do problema, o bem-estar animal parece incrivelmente negligenciado. Cerca de 97% do financiamento filantrópico nos EUA é para ajudar seres humanos.[11] Os restantes 3% estão divididos entre o ambiente e os animais. Mesmo no próprio financiamento gasto com o bem-estar animal, apenas 1% é destinado a animais da pecuária, embora mais de 99% dos animais domesticados sejam animais da pecuária.[12] [13] No total, estima-se que 10 a 40 milhões de dólares sejam gastos a cada ano na redução do sofrimento dos animais da pecuária industrial,[14] aproximadamente um décimo de centavo [Pt. cêntimo] por animal.[15] O trabalho para melhorar o bem-estar dos animais selvagens é ainda mais negligenciado.

Parece que podemos fazer progressos

Há uma base pequena, mas crescente, de provas sobre intervenções de bem-estar animal, sugerindo maneiras promissoras de fazer progressos face a este problema e que algumas abordagens poderiam ser custo-eficazes.

Campanhas para tentar fazer com que grandes empresas reduzam seu impacto no sofrimento animal são um dos tipos de intervenção mais promissores. As campanhas face a corporações até ao momento resultaram em compromissos de banir as gaiolas por parte de cerca de 100 empresas, poupando do confinamento cerca de 60 milhões de galinhas anualmente.[16] Lewis Bollard (Gerente de Programas para o bem-estar animal no Open Philanthropy Project e gerente do Fundo do Altruísmo Eficaz do bem-estar animal) estima que essas campanhas pouparão cerca de 38 galinhas por ano do confinamento em gaiolas por cada dólar gasto — e pode salvar até 250 galinhas por ano do confinamento (dependendo de como se conta o dinheiro gasto nessas campanhas).[17]

Persuadir indivíduos a se tornarem veganos/vegetarianos também pode ser uma abordagem promissora. O valor esperado de se tornar vegetariano parece ser significativo.[18] Este caso é fortalecido pelo fato de que cada indivíduo que se torna vegetariano pode fazer com que seja mais provável que outras pessoas também se tornem vegetarianas. Distribuir panfletos é barato, de modo que a distribuição de panfletos poderia ser rentável, mesmo que, como consequência, apenas uma em cada cem pessoas decidisse se tornar vegetariana. Houve alguns estudos preliminares sobre o impacto da panfletagem, mas os resultados ainda não são particularmente conclusivos. O estudo de panfletagem da ACE descobriu que uma pequena proporção de pessoas que receberam um panfleto sobre a redução do consumo de produtos animais relatou parar de comer carne, em relação a nenhuma mudança em um grupo que recebeu um folheto de “controle”. No entanto, a amostra era pequena demais para que esses resultados fossem estatisticamente significativos.[19]

No geral, os EACs e análises de custo-eficácia sugerem que existem oportunidades de ter um grande impacto no bem-estar animal. As evidências das campanhas face a corporações parecem particularmente promissoras. No entanto, o conjunto de provas ainda é relativamente pequeno, o que sugere que deveríamos estar menos confiantes nessas estimativas de custo-eficácia direta. Isso porque podemos pensar que a maioria das intervenções não é muito custo-eficaz, por isso devemos ser céticos quanto a provas fracas de alto impacto. No entanto, também sugere que pode valer a pena investir mais recursos na avaliação do impacto das intervenções de bem-estar animal. Isso poderia nos ajudar a tomar melhores decisões no futuro — concentrando nossos esforços em outros lugares, se essas intervenções não parecerem ser eficazes, e ampliando-as se os resultados forem mais promissores.[20]

Resumindo, acreditamos que é possível ter um grande impacto no bem-estar animal porque:

  • Escala: Dezenas de bilhões [Pt. dezenas de milhares de milhões] de animais sofrem e são abatidos na pecuária industrial anualmente. Mais animais (em várias ordens de grandeza) sofrem em estado selvagem.
  • Negligenciada: Menos de 3% de todo o financiamento filantrópico é destinado a ajudar animais, e apenas uma pequena porção desse financiamento vai realmente para os animais que mais sofrem.
  • Custo-eficácia: As campanhas face a corporações obtiveram grandes sucessos em persuadir as grandes empresas a mudarem suas práticas, e os cálculos aproximados sugerem que essas campanhas poderiam ser extremamente custo-eficazes.
  • Alto valor da informação: realizar mais pesquisas sobre essa questão pode nos ajudar a decidir quantos recursos devemos dedicar ao problema.

Algumas preocupações sobre priorizar o bem-estar animal como uma área de intervenção.

Algumas pessoas se opõem à ideia de reduzir a pecuária industrial alegando que comer carne é natural — ou que precisamos comer carne para sermos saudáveis. Existem alguns pontos importantes a serem observados em resposta a essas preocupações.

Comer carne é natural

Primeiro, só porque algo é “natural” não significa necessariamente que seja bom. Por exemplo, é natural que as crianças não sejam vacinadas, com uma grande proporção delas morrendo ainda jovens. Mas esse estado de coisas parece claramente errado.

Segundo, mesmo se uma certa quantidade de predação for natural e necessária, a pecuária industrial não é particularmente natural. As galinhas não são mantidas naturalmente em pequenas gaiolas dentro de casa, e as vacas não são naturalmente separadas de suas crias. Na melhor das hipóteses, querer fazer coisas “naturais” poderia justificar caçar pessoalmente animais e comê-los — mas não comprar no supermercado carne preparada na pecuária industrial.

Além disso, muitas das condições não naturais na pecuária industrial são evitáveis. Temos os recursos para criar animais de uma maneira mais humana, aliviando seu sofrimento.

Precisamos comer carne para sermos saudáveis

Muitas pessoas defendem a produção em massa de carne dizendo que precisamos de carne para sermos saudáveis. No entanto, está longe de ser claro que os seres humanos de hoje precisem comer animais ou produtos de origem animal, com algumas provas sugerindo que vegetarianos e veganos são de fato mais saudáveis do que quem come carne.[21] [22]

Ainda há riscos de que uma dieta vegana possa levar a deficiências em certos micronutrientes, como B12 e Omega 3.[23] É relativamente fácil encontrar alimentos veganos que contenham esses nutrientes (como vegetais verde-escuros e cereais fortificados/bebidas) e/ou tomar suplementos, mas isso requer um pouco de reflexão e esforço.

Por que poderá não escolher priorizar o bem-estar animal como uma área de intervenção?

Bem-estar animal parece ser uma área de intervenção promissora. Mas há também uma série de razões pelas quais poderá não estar convencido com essa análise, ou poderá pensar que uma área de intervenção diferente provavelmente terá oportunidades ainda maiores de fazer o bem.

Poderá pensar que as provas da eficácia das intervenções neste espaço não são suficiente fortes.

O conjunto de provas aqui ainda é relativamente fraco, especialmente quando comparado às intervenções globais de saúde. Normalmente é claro exatamente onde e como mais dinheiro direcionado para a pobreza global pode melhorar e salvar vidas. Em contraste, muito menos pesquisas foram feitas sobre intervenções de bem-estar animal.

No entanto, mesmo não havendo provas suficientes para dizer que a intervenção é definitivamente de alto impacto, parece haver uma probabilidade significativa de um impacto muito alto, o que poderia elevar o valor esperado. Alguns tipos de trabalho, particularmente pesquisas adicionais, também podem nos ajudar a obter mais provas. Isso é valioso porque nos ajuda a tomar melhores decisões sobre financiamento no futuro.

Poderá pensar que devemos priorizar a ajuda aos seres humanos e não aos animais

Apesar da força das provas, poderá escolher priorizar áreas de intervenção centradas no ser humano e não nos animais simplesmente porque acha que melhorar vidas humanas é uma prioridade maior. Decidir como priorizar o bem-estar animal em relação aos problemas enfrentados pelos seres humanos depende de uma série de questões complexas:

1. O significado do sofrimento animal em relação ao sofrimento humano

Embora pareça provável que os animais tenham a capacidade de sofrer e sentir dor,[24] parece razoável estar mais confiante da consciência humana do que da consciência animal. Temos provas diretas do primeiro caso, mas ainda sabemos muito pouco sobre quais características físicas ou funcionais são necessárias para criar uma experiência consciente. Dependendo de quanto mais confiança consideramos que devemos ter face à consciência humana, isso pode sugerir atribuir um peso moral consideravelmente menor aos animais do que aos seres humanos e, portanto, priorizar intervenções no bem-estar humano.[25]

Também poderá pensar que existem outras razões que, por exemplo, tornem os seres humanos vivendo na pobreza algo pior do que os animais vivendo presos em uma jaula. Poderá acreditar que a maior complexidade cognitiva dos seres humanos significa que sua capacidade de sofrer é maior ou mais significativa. Talvez a liberdade e a dignidade sejam mais importantes para os seres humanos do que para os animais, por exemplo. Ou talvez pense que formas mais complexas de consciência — como a capacidade de raciocinar e refletir, por exemplo — são mais importantes do que o prazer e a dor, e que apenas seres humanos são capazes de vivenciá-las.

2. Os efeitos indiretos de intervenções na pobreza versus intervenções animais

As sociedades humanas são capazes de se desenvolver de uma forma que as sociedades animais não conseguem, e assim podemos pensar que os efeitos indiretos das intervenções centradas nos seres humanos serão maiores.[26] No entanto, melhorar as atitudes em relação aos animais pode aumentar nosso círculo de empatia em geral, o que poderia ter efeitos indiretos positivos.[27]

No entanto, melhorar a vida dos seres humanos também pode ter efeitos indiretos negativos para os animais,[28] já que as pessoas geralmente comem mais carne à medida que ficam mais ricas. Isso às vezes é conhecido como o problema dos comedores de carne.

3. Qual lhe parece ser a probabilidade de os problemas enfrentados por cada um deles serem resolvidos de qualquer maneira?

Da mesma forma, vale a pena considerar a probabilidade de os problemas enfrentados por seres humanos e animais serem resolvidos sem a nossa intervenção. Pode haver boas razões para esperar que os seres humanos se sintam naturalmente motivados a melhorar suas vidas e as vidas de outras pessoas. É menos claro se os seres humanos virão a sentir-se naturalmente inclinados a melhorar a vida dos animais.

Isso pode ser um ponto a favor de priorizá-los em nossos esforços altruístas. Mesmo se pensarmos que a capacidade da humanidade de ter empatia com os animais provavelmente aumentará naturalmente, não está claro se isso acontecerá rápido o suficiente para compensar nossa crescente capacidade de “acidentalmente” prejudicar os animais como resultado de perseguir outros objetivos. Provavelmente prejudicamos muito mais animais hoje por meio da prática da pecuária industrial do que nossos ancestrais faziam há centenas de anos, apesar do fato que nossa empatia para com os animais parecer ter aumentado — simplesmente porque é mais fácil prejudicarmos os animais em grande escala e participar desse dano aos animais (por exemplo, comprando carne) sem ter que causar o sofrimento nós mesmos, diretamente.

Poderá pensar que é possível ter um impacto maior concentrando-se no futuro da humanidade a longo prazo

O futuro a longo prazo pode ser incrivelmente importante. Poderemos ter bilhões [Pt. milhares de milhões] ou até trilhões [Pt. biliões] de descendentes. Isso significa que mesmo uma baixa probabilidade de melhorar a vida das gerações futuras, ou garantir que a humanidade sobreviva no futuro, pode ser significativo. (Apresentamos esse caso com mais detalhes em nossa descrição sobre futuro a longo prazo.)

No caso dos animais, concentrar-se mais no futuro a longo prazo pode significar concentrar-se mais na mudança de atitudes e na redução do especismo, e menos nas práticas da pecuária de curto prazo.

No entanto, até que ponto poderá optar por concentrar seus esforços/doações altruístas no futuro a longo prazo, e o que isso significa na prática, depende de alguns critérios próprios do nosso julgamento:

1. Qual a importância das vidas futuras?

Como as vidas futuras ainda não existem (por definição), algumas pessoas acham que temos menos razões morais para ajudá-las do que aquelas que existem. Em visões que “afetam-pessoas”, uma ação só pode ser boa ou ruim se for boa ou ruim para alguém — e assim ações que beneficiarão gerações futuras de pessoas ou animais não podem ser nem boas nem ruins, já que não há ninguém específico para as quais fossem boas ou ruins.

Se considerar que as vidas futuras não importam, então deverá se concentrar em aliviar as formas mais imediatas de sofrimento. Também vale a pena notar que visões que afetam-pessoas também podem afetar quão importante são certos tipos de intervenções na defesa animal — já que os animais vivem vidas relativamente curtas, o impacto de muitas dessas intervenções será em animais que ainda não existem, dando menor peso moral para essas visões.

No entanto, achamos que existem algumas razões convincentes para nos opormos a visões que afetam-pessoas (além de que elas nos conduzem a algumas conclusões contraintuitivas), e que seres futuros realmente têm importância moral, o que discutimos mais detalhadamente em nossa descrição sobre futuro a longo prazo.

2. Existe alguma coisa que possamos fazer para melhorar, com alguma certeza, a vida dos seres sencientes futuros?

Há uma questão empírica a propósito da facilidade com que as nossas ações hoje possam ter algum impacto sobre as pessoas e os animais que vivam no futuro a longo prazo. Poderá pensar que os seres vivos futuros e existentes são igualmente importantes, mas que é muito mais fácil para nós fazer coisas que ajudem os seres que estão vivos atualmente, e que, portanto, podemos ter um impacto maior centrando-nos apenas neles.

3. Quão preocupados devemos estar sobre a possibilidade de extinção, e haverá algo que possamos fazer sobre isso?

Se acreditar que há uma séria ameaça de extinção humana no próximo século (ou menos), e que existem ações que possamos tomar agora para reduzir essa ameaça, então pode ser mais importante concentrar-se na redução dessas ameaças do que em melhorar a mais curto prazo o bem-estar de ambos, seres humanos ou animais. Suponha que havia uma chance maior que 50% de um asteroide atingir a Terra nos próximos 50 anos, o que destruiria todo tipo de vida. Suponhamos ainda que estaríamos certos de que haviam coisas que poderíamos fazer para detectar e evitar o impacto do asteroide, mas que isso exigiria uma grande quantidade de recursos. Nessa situação, provavelmente estaríamos dispostos a priorizar o investimento de recursos para isso, ao invés de colocar recursos na redução da pecuária industrial neste momento — precisamente porque é pouco útil melhorar as vidas dos animais se toda a vida no planeta em breve pudesse ser extinta.

Claro, isso depende muito do grau de probabilidade em que se acredita que o asteroide (ou outra ameaça existencial) poderá de fato acontecer, e quão confiante estará de que qualquer tentativa de o impedir poderá fazer a diferença. Caso não se tenha 100% de certeza sobre a ameaça e de como evitá-la, não iriamos querer desviar todos os recursos do mundo de problemas mais imediatos — mas provavelmente iriamos fazer uma outra séria priorização. Mesmo que a ameaça seja relativamente pequena, parece que deveríamos investir alguns recursos na antecipação e prevenção de uma possível catástrofe global, considerando o quanto está em jogo. Nós achamos que esse tipo de trabalho pode estar a ser negligenciado atualmente, dada a sua importância, porque é tão abstrato. Essa perspectiva e as razões para levá-la a sério são delineadas com mais detalhes em nossa descrição do futuro a longo prazo.

Resumo

  • O problema do sofrimento dos animais é enorme em escala: a cada ano, pelo menos dezenas de bilhões [Pt. milhares de milhões] de animais vivem em condições terríveis e são abatidos na pecuária industrial.
  • O estado atual das provas científicas sugere que devemos atribuir uma alta probabilidade ao fato de animais serem conscientes e capazes de sofrer.
  • O problema do sofrimento animal é incrivelmente negligenciado em relação à sua escala, com menos de 3% do financiamento filantrópico total voltado para o bem-estar animal e menos de 1% desse financiamento destinado à pecuária industrial, a prática que representa mais de 99% dos animais usados e depois mortos por seres humanos.
  • Há também boas razões para se pensar que o problema é relativamente tratável: campanhas de várias formas têm mostrado no passado que são eficazes na mudança de comportamento individual e institucional assim como na regulamentação em torno do tratamento de animais, e a inovação na indústria alimentícia parece uma maneira muito promissora de tornar mais fácil para as pessoas evitar produtos de origem animal.
  • No entanto, essas intervenções não são tão bem comprovadas quanto outras centradas no bem-estar humano, como as intervenções globais de saúde.
  • Se acredita que essa é a causa mais importante isso depende de: qual é a importância que atribui ao fato de se ter fortes provas de eficácia; quão confiante se está de que os animais são conscientes; se se considera que o nosso tratamento de animais provavelmente melhorará de qualquer maneira, e quão importante considera ser concentrar-se no futuro da civilização a longo prazo em detrimento de problemas mais imediatos.

 

 

Notas

[1] Da Humane Society, Estatísticas da Pecuária: Totais de abate.

[2] “Esses animais da pecuária — sencientes, complexos e capazes de sentir dor e frustração, alegria e excitação — são vistos pela pecuária industrial como produtos e sofrem uma miríade de agressões ao seu bem-estar físico, mental e emocional, a quem normalmente é negada a possibilidade de realizar as necessidades comportamentais específicas de suas espécies. Apesar dos abusos rotineiros que enfrentam, nenhuma lei federal protege os animais da crueldade na pecuária, e a maioria dos estados isenta as práticas agrícolas costumeiras — não importa quão abusivas — do âmbito de seus estatutos de crueldade animal. O tratamento de animais da pecuária e as condições em que são criados, transportados e abatidos na pecuária industrial são incompatíveis com o fornecimento de níveis adequados de bem-estar.”  Humane Society dos Estados Unidos, “Um Relatório da HSUS: O Bem-Estar dos Animais nas Indústrias de Carnes, Ovos e Laticínios”

[3] Em 2012, um grupo de neurocientistas assinou a Declaração de Cambridge sobre Consciência, afirmando que “O peso das provas indica que os seres humanos não são únicos em possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e pássaros, e muitas outras criaturas, incluindo polvos, também possuem esses substratos neurológicos.”

[4] Um relatório recente de Luke Muehlhauser no Open Philantropy Project sobre “Consciência e Paciência Moral” analisa detalhadamente diferentes maneiras de avaliar a consciência de diferentes criaturas. O relatório conclui que ainda sabemos muito pouco sobre quais características são necessárias, suficientes ou indicativas de consciência, e adota uma visão mais cética de muitos dos estudos da consciência animal (apontando, por exemplo, que provavelmente existe um viés de seleção naqueles pesquisadores que escolhem estudar a consciência animal). No entanto, o relatório ainda sugere a atribuição de probabilidades relativamente altas para a probabilidade de consciência em vários animais — 90% para chimpanzés, 80% para vacas e galinhas e 70% para truta arco-íris — com base na semelhança dessas criaturas com os seres humanos em várias formas relevantes. Embora essas probabilidades possam parecer surpreendentemente baixas, ainda parecem altas o suficiente para justificar levar muito a sério a possibilidade de sofrimento animal, especialmente dada a escala do problema.

[5] Frangos Criados na Pecuária Industrial: suas vidas e mortes difíceis.

[6] G. John Benson, DVM, MS e Bernard E. Rollin, PhD, eds., The Well-Being of Farm Animals: Challenges and Solutions [O Bem-estar dos Animais da Pecuária: Desafios e Soluções] (Blackwell Publishing, 2004); Wikipédia sobre a mesma prática.

[7] US EPA, Ag 101: Produção de Laticínios, 27 de junho de 2012.

[8] USDA APHIS NAHMS, Laticínios 2014: Práticas de Manejo de Gado Leiteiro nos Estados Unidos, fevereiro de 2016 (pág. 7).

[9] Bernard E. Rollin, PhD, Bem-estar dos Animais da Pecuária (Iowa State University Press, 2003); Ética Animal na mesma prática.

[10] “Estudos anteriores sugerem que os peixes sentem dor e medo e que, para os peixes capturados para comércio, a severidade e a duração provavelmente são altas. Este estudo procura determinar o número de tais animais… Estatísticas de captura da pesca (tonelagem por espécie) publicadas pela FAO foram usadas, juntamente com estimativas de pesos médios para diferentes espécies, para calcular o número global de peixes capturados anualmente.” Estimando o número de peixes capturados na pesca global a cada ano.

[11] Fonte: Estatísticas de doações da Charity Navigator, 2015 https://www.charitynavigator.org/index.cfm/bay/content.view/cpid/42

[12] Fonte: Animal Charity Evaluators, “Animais da Pecuária, porquê?” https://animalcharityevaluators.org/donation-advice/why-farmed-animals/

[13] “Bem-estar animal é uma área que recebe muita atenção e financiamento, mas a maior parte é destinada a animais de estimação e animais usados para testes de laboratório; animais da pecuária recebem menos atenção. Isso pode ser porque as pessoas não querem pensar de onde vem a sua comida, porque lhes parece repugnante ou não querem sentir que deveriam mudar sua dieta. Certos eventos criaram aumentos de curta duração no interesse público, como a doença da vaca louca ou o escândalo da carne de cavalo. No entanto, esse interesse diminui, porque as pessoas geralmente confiam no governo federal para tratar de questões de saúde pública”. Notas de uma conversa entre o Open Philanthropy Project e Adam Sheingate.

[14] O relatório do Open Philantropy Project sobre o Tratamento de Animais na Pecuária Industrial cita as seguintes fontes principais de financiamento neste espaço, no qual esta estimativa é baseada: a Humane Society dos Estados Unidos que tem um orçamento anual de 1 milhão de dólares por ano para a Proteção dos Animais da Pecuária (embora os recursos de outras partes da organização também possam ser direcionados a animais da pecuária, aumentando potencialmente o total até cerca de 10 milhões de dólares); seis organizações menores de defesa têm orçamentos anuais na faixa de 500.000 a 2 milhões de dólares, e a Farm Sanctuary, que tem um orçamento de cerca de 9 milhões de dólares por ano.

[15] Há também razões psicológicas para esperar que possamos negligenciar este problema. Tendemos a ficar mais motivados para ajudar quando podemos ter empatia com um ser vivo específico, e quando nos sentimos pessoalmente responsáveis por aliviar seu sofrimento. Mas esses fatores motivadores estão ausentes para a pecuária industrial. O problema é um tanto oculto, afeta muitos seres anônimos e é algo sobre o qual nenhuma pessoa sente grande responsabilidade.
Além disso, podemos ter a tendência a não levar a sério o sofrimento dos animais. Esse viés às vezes é chamado de “especismo”. Há provas experimentais de que as pessoas pensam que os animais têm muito menos capacidades mentais do que de fato têm. Esse viés talvez se deva à ampla aceitação do consumo de carne e às práticas da pecuária. Para alguém que come carne, reconhecer o dano que isso causa provavelmente será emocionalmente difícil.  Isso significa que podem ter um forte incentivo para fechar os olhos e encontrar maneiras de se convencer de que o problema não é tão grande assim.

[16] Fonte: http://www.openphilanthropy.org/focus/us-policy/farm-animal-welfare/humane-league-corporate-cage-free-campaigns#Effectiveness_of_corporate_campaigns

[17] Contando apenas os cerca de 2,5 milhões de dólares gastos nos últimos anos em campanhas face a corporações para eliminar as gaiolas, e presumindo, de forma conservadora, que as campanhas só aceleraram os compromissos em cinco anos, essas campanhas pouparão cerca de 250 galinhas por ano de confinamento em gaiolas por cada dólar gasto. E mesmo ao se adicionar o desembolso de 1,5 milhão de dólares para o primeiro ano de nossos três financiamentos, e os 12,5 milhões de dólares (no máximo) gastos em Prop 2 em 2008 e todas as investigações secretas na produção de ovos já realizadas nos EUA, essas campanhas ainda irão poupar cerca de 38 galinhas por ano do confinamento em gaiolas por cada dólar gasto. Na minha opinião, a suposição de que essas campanhas só aceleraram os compromissos em cinco anos, é muito conservadora. Parece igualmente provável que essas empresas nunca teriam abandonado gaiolas em baterias, ou teriam apenas mudado para gaiolas “aprimoradas”. Por exemplo, recentemente, em março de 2015, uma aliança apoiada pelo McDonald’s, General Mills e outras grandes empresas de alimentos divulgou um relatório que endossou amplamente gaiolas “aprimoradas” como alternativa aos sistemas livres de gaiolas.” (Da descrição das campanhas face a corporações da The Humane League na OPP.)

[18] Brian Tomasik argumenta convincentemente que a escolha de um indivíduo para se tornar vegetariano faz diferença, pelo menos em valor esperado. Parece que é improvável que cada indivíduo vegetariano faça a diferença relativamente ao número de animais criados. Mas se fizerem diferença, essa diferença provavelmente será muito grande, então o valor esperado será grande.

[19] Fonte: https://animalcharityevaluators.org/advocacy-interventions/interventions/leafleting/2013-leafleting-study

[20] Isso também é relevante quando se trata do problema do sofrimento de animais selvagens, que como mencionamos pode ser um problema maior por várias ordens de grandeza mesmo face à pecuária industrial. Embora atualmente não seja claro como esse problema possa ser tratável, os ganhos potenciais de explorar formas potenciais de resolver esse problema podem ser extremamente altos, dada a escala e o grau de negligência do problema.

[21] O Estudo Vegetariano de Oxford analisou a saúde de 6.000 vegetarianos e 5.000 indivíduos não vegetarianos no Reino Unido entre 1980 e 1984. “Análises transversais dos dados do estudo mostraram que os veganos tinham menores concentrações de colesterol total e LDL do que os que comiam carne; vegetarianos e comedores de peixe tinham valores intermediários e similares… Após o ajuste para tabagismo, índice de massa corpórea e classe social, as taxas de mortalidade foram menores em não comedores de carne do que em comedores de carne para cada um dos desfechos de mortalidade estudados… a saúde dos vegetarianos neste estudo é geralmente boa e compara-se favoravelmente ao dos indivíduos não-vegetarianos.”

[22] “Pesquisas mostram que as dietas à base de vegetais são intervenções custo-eficazes e de baixo risco que podem reduzir os índices de massa corporal, pressão arterial, HbA1C e os níveis de colesterol”. Atualização nutricional para médicos: dietas à base de plantas.

[23] “Os veganos tendem a ser mais magros, têm colesterol sérico mais baixo e pressão arterial mais baixa, reduzindo o risco de doença cardíaca. No entanto, a eliminação de todos os produtos de origem animal da dieta aumenta o risco de certas deficiências nutricionais. Micronutrientes de preocupação especial para os veganos incluem vitaminas B-12 e D, cálcio e ácidos graxos n-3 (ômega-3) de cadeia longa. A menos que os veganos consumam com regularidade alimentos fortificados com esses nutrientes, devem ser consumidos suplementos apropriados. Em alguns casos, a ingestão de ferro e zinco dos veganos também pode ser preocupante devido à biodisponibilidade limitada desses minerais.” Efeitos de dietas veganas na saúde, The American Journal of Clinical Nutrition.

[24] Fonte: http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf

[25] É importante notar que há uma série de etapas e suposições complexas envolvidas na conclusão sobre a priorização de intervenções de bem-estar animal ou humano, especialmente se estivermos considerando tipos específicos de intervenções. Primeiro, há a questão de quão confiantes devemos estar de que diferentes tipos de animais são conscientes, o que acaba sendo incrivelmente complicado. Em seguida, há uma questão de como essa avaliação da consciência deve ser combinada com outros fatores para avaliar o peso moral relativo de seres humanos versus animais — uma questão separada, que pode depender de teorias mais detalhadas de bem-estar ou de como “unificar” a experiência consciente de diferentes seres. Finalmente, mesmo se pudermos decidir quanto peso moral relativo devemos atribuir aos animais, então precisamos considerar a escala dos problemas enfrentados pelas/o sofrimento infligido a diferentes espécies — mesmo se atribuirmos às pessoas o dobro do peso moral dos animais, por exemplo, podemos ainda priorizar intervenções de bem-estar animal se pensarmos que o sofrimento animal é mais que o dobro da escala do sofrimento humano.

[26] Poderíamos esperar tirar as pessoas da pobreza, por exemplo, para ter todos os tipos de benefícios indiretos resultantes de essas pessoas poderem contribuir mais para o progresso da sociedade. Como os animais não vivem em sociedades tão organizadas, parece menos provável que haja benefícios adicionais além de apenas reduzir seu sofrimento — animais mais satisfeitos parecem ser menos capazes de contribuir para o progresso da sociedade. Owen Cotton-Barratt sugere que isso pode ser uma razão para favorecer intervenções centradas no bem-estar humano em detrimento daquelas centradas no bem-estar animal.

[27] Embora seja importante notar que, se o seu objetivo é aumentar a empatia amplamente, pode haver outras/maneiras mais diretas de fazer isso do que se concentrar no bem-estar animal que valham a pena considerar. Há também alguns argumentos contra o trabalho explícito em defesa moral aqui: https://rationalaltruist.com/2013/06/13/against-moral-advocacy/

[28] Especialmente se o progresso humano não for acompanhado por níveis semelhantes de progresso moral.

 


Texto publicado originalmente por Jess Whittlestone no effectivealtruism.org a 16 de novembro de 2017

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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