A Antropologia do Altruísmo

Por Celso Vieira

Antropologia e AE(19)

O que nos diz a antropologia sobre o altruísmo? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Introdução

A proposta desse ensaio será apresentar um pouco da pesquisa realizada pelos antropólogos acerca dos métodos de cooperações sociais que parecem permear todas as sociedades humanas. Para tanto, vou me basear em estudos publicados pelos pesquisadores do Human Generosity Project. Eles pesquisam as estratégias cooperativas de sobrevivência em nove sociedades espalhadas pelo globo, desde vaqueiros no sul dos EUA até pescadores nas ilhas Fiji. O principal foco atual do grupo de pesquisa são as estratégias de transferência de recursos usadas para lidar com os riscos de se viver no ambiente em que essas sociedades habitam e das tarefas das quais dependem.

Mark S. Dorfman, autor na área de gestão de riscos e seguros, categoriza quatro tipos de estratégias contra riscos: retenção de risco, evitação de risco, redução de risco e transferência de risco. Entre essas, apenas a última é necessariamente social e, por isso, vou me concentrar nela. A transferência de risco se divide entre agrupamento (pool) e transferência por necessidade (need-based transfer).

O agrupamento consiste em algum tipo de estratégia de acumulação coletiva em vista de se reduzir os custos individuais enfrentados em dificuldades talvez previsíveis mas inesperadas. Sociedades humanas desenvolveram várias instituições públicas e privadas para agir assim, como é o caso dos seguros, impostos, planos de aposentadoria e de saúde, por exemplo. Por outro lado, temos a alternativa mais maleável da transferência por necessidade. Nesse cenário, o membro de uma comunidade é ajudado por outro baseado na sua necessidade. Esse é um comportamento identificado pelos antropólogos em várias culturas e, veremos, tem algumas similaridades importantes com o altruísmo eficaz.

Estudos de caso

Entre os Maasai, um povo pastoral que vive no Quênia, existe o sistema de Osotua (que significa, literalmente, cordão umbilical) em que eles lidam com os riscos através de transferências por necessidade. Alguém em necessidade pede e recebe ajuda daqueles que podem ajudar, em geral na forma de gado. Uma vez estabelecida, essa ligação é potencialmente eterna, o que quer dizer que ela continua entre as famílias envolvidas mesmo após a morte de quem selou o acordo. A relação não se trata de uma dívida em que o ajudado deve devolver exatamente a quantia recebida assim que puder. O que permanece é a predisposição de ajuda mútua entre as partes envolvidas no Osotua. Se quem recebe a ajuda não a devolve, quando pode, fica estigmatizado. Ademais, as pessoas se esforçam para estabelecer essa ligação com pessoas que vivem em zonas ecológicas diferentes. Isso faz sentido porque os seus perfis de risco são complementares, por exemplo, os que vivem em terras baixas que são secas e os que vivem nas terras altas que são ricas em água. Modelos de computador construídos a partir das regras do Osotua, ao simularem situações de risco, com ou sem ajuda das transferências por necessidade, provaram que essas regras aumentam as chances de sobrevivência e reduzem a desigualdade.

Consideremos um outro caso: Os habitantes das ilhas Yasawa em Fiji sobrevivem de pesca e horticultura. Eles também têm um sistema de transferência por necessidade que chamam de Kerekere. Ele ocorre entre indivíduos, mas também entre as vilas e ilhas, no sentido de que uma vila pode receber terras de outra vila para plantar em ocasiões especiais. Mais uma vez, o vocabulário de dívida não é utilizado. As trocas envolvem essencialmente bens de subsistência e terras. Bisbilhotar sobre os outros serem avaros ou sem-coração é o principal meio de controle social que mantém o kerekere. Confrontados com o jogo do ditador, um experimento psicológico em que o participante decide como dividir (ou não) uma certa quantia, entre si mesmo e outro participante, usando fotos dos moradores de uma vila, os Yasawa seguiram o kerekere e os resultado foram os seguintes: 43% dos habitantes não guardaram nada para eles mesmos e, em geral, a distribuição da quantia obedeceu à necessidade de cada morador.

Esses são alguns dentre vários outros exemplos estudados pelo Projeto da Generosidade Humana. Esses sistemas são essenciais para a sobrevivência dessas populações. Como todo sistema social, eles são ameaçados pela existência de trapaceadores, a saber, indivíduos que querem as vantagens sem incorrer nos custos de participar da dinâmica. Existem dois tipos de trapaça: uma é pedir quando não se tem necessidade e a outra é se recusar a ajudar quando se tem os recursos para tal. Várias regras, rituais e estratégias sociais são utilizadas para evitar esse tipo de comportamento. Duas das ferramentas gerais mais importantes para manter o funcionamento desses sistemas são a ‘vergonha’ e o ‘parentesco fictício’.

Parentesco fictício engloba todo tipo de relação modelado nas relações de parentesco mas que são criadas por convenção de costumes e não por circunstâncias de nascimento. Ele engloba amizades, fraternidades, ligações de gangues, relações baseadas na similaridade fenotipica (de traços físicos), etc. Relações embasadas por convenções institucionais como nacionalidade ou narrativas religiosas, como um deus sendo a origem comum de todos fiéis, são especialmente importantes. O que esse tipo de relação realiza é tornar as relações sociais como intrínsecas ao invés de apenas instrumentais. Quem participa dessas relações ajuda os outros porque reconhece o valor de ajudar os outros e não porque espera extrair alguma vantagem futura desse comportamento.

A vergonha é outro mecanismo que parece ser universal para manter esses sistemas operando. Ela é caracterizada por indivíduos que deixam de realizar atos que trariam vantagem individual a despeito dos outros devido ao custo advindo da desvalorização social de tal ato (roubar, por exemplo). Bisbilhotar é o principal instrumento de aplicação da vergonha. Isso tem a virtude de ser um método não violento, porém tem vários pontos negativos incluindo o mal que causam aos envolvidos. Prova disso é que as pessoas também têm vergonha de serem identificadas como alguém que gosta de bisbilhotar.

Depois desse breve resumo acerca da antropologia da generosidade, a proposta é fazer uma primeira reflexão sobre os pontos de convergência e divergência com o altruísmo eficaz:

  • No que concerne ao ponto das estratégias de transferência por necessidade há um acordo evidente. Afinal de contas, ambos reconhecem o dever daqueles que possuem uma profusão de recursos de ajudar quem está em necessidade, sem buscar qualquer vantagem ou retribuição direta.
  • Por outro lado, o altruísmo eficaz é muito mais cosmopolita do que esses casos estudados na medida que não se importa com nenhum tipo de proximidade ou relação social entre as duas partes envolvidas.
  • Ao defender a ‘expansão do círculo de preocupação moral’ o altruísmo eficaz parece tentar engajar em um certo tipo de parentesco fictício para legitimar a consideração de pessoas que vivem em partes bem afastadas do mundo e também animais de outras espécies. Porém, o debate sobre isso ser uma das prioridades da divulgação do movimento ainda está em aberto.
  • No que concerne o uso da vergonha há uma diferença maior já que o altruísmo eficaz se esforça para evitar qualquer tipo de condenação pública seja daqueles que não doam uma porcentagem dos seus rendimentos ou daqueles que participam mas doam quantias menores ou para organizações menos consensuais do que as priorizadas pelo movimento. Embora não use o reforço negativo, o movimento incentiva a divulgação pública de atos individuais de altruísmo e da priorização regrada da ajuda, usando o reforço positivo como forma de tentar mudar a cultura filantrópica.

A principal diferença, então, parece poder ser colocada em termos dos métodos que o altruísmo eficaz utiliza para levar o público a agir de maneira altruísta. Os mecanismos que se provaram eficazes no contexto de seleção natural como parentesco fictício e a vergonha ou não são explorados ou são explicitamente negados. Isso provavelmente se deve ao fato de os parentescos fictícios serem difíceis de se justificar e de a vergonha gerar um mal desnecessário. Em outras palavras, os fins altruístas são os mesmos, mas os instrumentos para alcançar esses fins são bem diferentes. O crescimento do movimento pode ser visto como um indicativo de que tais traços instrumentais não sejam necessários para incentivar o comportamento altruísta. De qualquer forma, aprofundar o nosso conhecimento sobre o funcionamento das estratégias de transferência por necessidade e dos instrumentos pelos quais elas são alcançadas, pode trazer informações importantes para o altruísmo eficaz. Ademais, o estudo desses comportamentos face ao risco, no sentido de desenvolver um envolvimento social que incrementalmente previna possíveis perdas elevadas, pode fornecer uma fonte importante para quem aborda o altruísmo eficaz centrado na prevenção do risco da extinção humana.


Texto de Celso Vieira.

 

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