O modelo de fidelidade para difundir ideias

DifundirAE(19)

Como difundir o altruísmo eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Resumo

Neste texto desenvolvo uma distinção entre mecanismos para difundir as ideias AE de acordo com a probabilidade de manter intactas as nuances das ideias. Depois uso essa distinção para argumentar que quem promove o movimento deveria preferir mecanismos para difundir ideias AE que retenham as nuances das ideias.

Essa consideração levou o CEA a ser céptico quanto às tentativas de difundir ideias AE através de mecanismos como os meios de comunicação de massa e a preferir outros mecanismos de difundir as ideias AE.

Definição

Fidelidade
O termo chave neste modelo é a “fidelidade”. Portanto, será útil definir este termo. Por fidelidade, tenho em mente nada mais que a clássica definição de dicionário de “adesão aos factos ou detalhes” ou “precisão; exactidão”.

Por exemplo, imagine que estou a gravar um filme numa câmara antiga. Se a imagem capturada pela câmara faz parecer que estou a usar uma camisa azul quando a minha camisa é vermelha, a imagem capturada pela câmara é de baixa fidelidade.

O modelo

O Efeito do “Jogo do Telefone”

Imagine uma brincadeira básica de infância: o Jogo do Telefone. No jogo do telefone, um jogador sussurra uma mensagem a outro, que por sua vez a passa a uma fila de pessoas até que a mensagem seja finalmente anunciada. Invariavelmente, a mensagem anunciada é muito diferente da original, tendo muitas vezes um efeito cómico.

Este jogo funciona porque sussurrar é uma forma de transmitir informação de relativa baixa fidelidade. O participante deve entender a mensagem anterior, mantê-la na sua mente e transmiti-la com sucesso à próxima pessoa. Como se constata, esta não é uma tarefa trivial, e assim a mensagem se torna cada vez mais distorcida a cada passagem.

Diferentes maneiras de comunicar ideias demonstram o Efeito do Jogo do Telefone em diferentes graus.

Por exemplo, imagine que a primeira pessoa tivesse simplesmente escrito a mensagem e depois tivesse passado a mensagem à próxima pessoa que também a escrevesse e assim por diante. Poderíamos esperar que a mensagem final fosse muito mais próxima do original do que no jogo do telefone, mas também poderíamos esperar algumas distorções devido a factores como uma má caligrafia.

Por outro lado, poderíamos imaginar que a mensagem fosse escrita num e-mail e depois re-enviada via e-mail de uma pessoa para outra. Aqui poderíamos esperar que o destinatário final do e-mail tivesse uma cópia exacta da mensagem original.

A ideia básica é que podemos considerar mecanismos para difundir continuamente uma mensagem entre mecanismos que retenham quase nada da mensagem original e aqueles que retenham quase tudo da mensagem original. Aqueles que retêm a maior parte da mensagem original são de muito alta fidelidade e aqueles que retêm pouco da mensagem original são de muito baixa fidelidade.

Difundir as ideias AE

No caso da difusão de ideias AE, o problema da fidelidade assume uma forma ligeiramente diferente do que no Jogo do Telefone. Em geral, o problema que enfrentamos não é que o público não receba a mensagem pretendida. Em vez disso, o problema da fidelidade é que o “altruísmo eficaz” contém um grande número de ideias inter-relacionadas e com muitas nuances. Alguns métodos de difundir essas ideias exigem que se retire a profundidade das ideias ou as suas nuances, ou ambas.

Quando o contexto é removido, aqueles que recebem as ideias saem com algo que é similar ao altruísmo eficaz, mas diferente. Assim, quando a mensagem AE nos é devolvida, recebemos frases como “O AE é para se ganhar todo o dinheiro que se pode e doar a instituições de caridade da GiveWell” ou “os AEs só se importam com intervenções apoiadas por estudos aleatórios controlados”. Até certo ponto, podemos influenciar as frases que nos são devolvidas ao sermos mais inteligentes na forma de contextualizarmos as nossas ideias, mas parece improvável que o contexto possa fazer o trabalho todo.

Um óptimo exemplo é o conceito de Ganhar para Dar.

A ideia central de Ganhar para Dar é sofisticada e tem muitas nuances. Inclui considerações complicadas como capacidade de substituição, vantagem comparativa, capital de carreira, fungibilidade de recursos e assim por diante. De facto, o Will publicou um artigo de 15 páginas sobre o tema numa revista de filosofia com revisão por pares, o Ben escreveu uma dissertação de mestrado de 100 páginas sobre o tema e a 80K escreveu extensivamente sobre este tópico no seu blog.

Infelizmente, enquanto uma revista de filosofia ou um blog de pesquisa são métodos de transmissão de alta fidelidade, os meios de comunicação de massa não são. Assim, quando o Will e os outros promotores iniciais de Ganhar para Dar apresentaram uma versão simplista da ideia nos meios de comunicação de massa, talvez não seja surpreendente que daí tenham resultado manchetes como as seguintes: “Esqueça os seus sonhos. Ganhe para dar“, “Junte-se a Wall Street. Salve o mundo” e “Os jovens profissionais que acreditam que a maior hipótese de tentar salvar o mundo é ganhar milhões indo para Wall Street“. Estes artigos comunicam os principais conceitos de ganhar para dar em vários graus de fidelidade, mas, sem surpresa, nenhum se aproxima da explicação da ideia com a fidelidade de um artigo de filosofia ou de uma série de posts.

Em algumas situações não há problema. Os artigos cujas ligações estão acima provavelmente alcançaram muitas ordens de magnitude a mais de pessoas do que o artigo de filosofia do Will. Will e os outros AEs envolveram-se nessas entrevistas com a esperança de que, ao alcançar mais pessoas, isso compensaria as inevitáveis simplificações e distorções envolvidas nas formas de expor dos meios de comunicação social. No entanto, os mecanismos de baixa fidelidade de difusão de ideias AE ganham esse aumento de distribuição à custa de se arriscar a difusão de ideias que estão relacionadas com as ideias que queremos difundir, mas que são significativamente diferentes destas.

Como podemos avaliar a fidelidade relativa dos diferentes mecanismos de difusão AE?

Podemos analisar a fidelidade de um mecanismo particular para difundir o AE observando quatro componentes:

  • Amplitude: Quantas ideias se pode explorar?
  • Profundidade: Em que medida se pode acrescentar nuances às ideias?
  • Contexto: O público estará num contexto propício à actualização das suas opiniões?
  • Retorno: Podemos adaptar a nossa mensagem ao longo do tempo para melhorar a sua fidelidade?

Um exemplo de um método de comunicar o AE de extrema baixa fidelidade seria durante uma acalorada discussão política no Twitter.

Dado o limite de caracteres do Twitter, não poderia explorar muitas ideias, nem explorar as ideias em profundidade, nem obter muito retorno útil, e como a política é um contexto muito mau para actualização de ideias, isto falharia na totalidade das quatro componentes.

Um exemplo de um método de alta fidelidade de comunicação AE seria uma longa conversa pessoal. Nessa situação, pode-se abordar um grande número de ideias em grande detalhe num contexto (uma conversa frente a frente) que é particularmente adequado para a actualização de ideias. Um método similarmente de alta fidelidade na difusão do AE seria uma conferência presencial de vários dias com especialistas da comunidade AE (por exemplo, a EA Global).

Implicações

Quando se combina modelos e pressupostos adicionais, podemos começar a construir um caso geral acerca de se agir com cautela face à difusão de ideias AE através de mecanismos de baixa fidelidade. Explico abaixo como essa consideração interage com outros modelos.

O Modelo de Noção/Inclinação

Owen Cotton-Barratt concebeu um modelo de desenvolvimento do movimento denominado Modelo Noção/Inclinação, segundo o qual podemos resumir o conhecimento do AE a duas dimensões: o quanto se sabe sobre as ideias (noção) e em que medida se é, ou se poderia ser, favorável às ideias (inclinação). Uma implicação desse modelo é que aumentar a noção sem aumentar a inclinação pode causar uma maior adopção das ideias a curto prazo, mas à custa de diminuir o número total potencial de pessoas que podem adoptar as ideias no futuro (dados alguns pressupostos).

Dado o pressuposto de que muitas pessoas responderiam favoravelmente às ideias AE se as entendessem, parece plausível que mecanismos de baixa fidelidade para difundir ideias AE aumentem a probabilidade de aumentarmos a noção sobre as ideias sem aumentar a inclinação. Artigos como “Vá para Wall Street. Salve o mundo.” pode estar a fazer um bom trabalho a aumentar a noção sem estar a fazer um bom trabalho a aumentar a inclinação (como algumas críticas ao artigo sugerem) e, portanto, pode estar a diminuir o número máximo de pessoas que podem adoptar as ideias no futuro.

Por outro lado, mecanismos de alta fidelidade para difundir ideias AE (por exemplo, conferências) podem fazer um trabalho muito melhor para aumentar a inclinação e a noção.

O modelo de diluição de colapso do movimento

Uma preocupação comum ao difundir as ideias AE é que as ideias sejam “diluídas” com o tempo e venham a representar algo muito mais fraco do que representam actualmente. Por exemplo, agora, quando falamos sobre quais áreas de causas são de alto impacto, queremos dizer que a área tem fortes argumentos ou provas que a apoiem, tem uma ampla escala, é relativamente negligenciada e é potencialmente solucionável.

Com o tempo, podemos imaginar que a ideia de uma causa de alto impacto passará a significar que a área tem algumas provas subjacentes e tem algumas intervenções plausíveis que podem ser realizadas. Assim, no futuro, a adesão às ideias AE pode implicar relativamente pouca diferença em relação à situação actual.

Não tenho a certeza se isso é uma preocupação séria. No entanto, se for, difundir mensagens sobre o AE com baixa fidelidade, exacerbaria significativamente o problema. À medida que a profundidade e a amplitude das ideias são eliminadas, devemos esperar que as ideias em torno do AE enfraqueçam com o tempo, o que acabaria por levar a que assumissem uma forma mais próxima às ideias mais convencionais.

Mudanças na estratégia do CEA

Este modelo (juntamente com outros modelos e observações) resultou em várias mudanças concretas na estratégia do CEA. Algumas delas estão listadas e explicadas brevemente abaixo:

  • Diminuição da ênfase nos meios de comunicação de massa
    • Historicamente, difundir o AE pelos meios de comunicação de massa era um dos principais objectivos do CEA. Com o tempo, ficou claro que os meios de comunicação de massa não são particularmente adequados para divulgar ideias com alta fidelidade. Portanto, afastamo-nos dessa intenção e direccionamo-nos para métodos de maior fidelidade como livros e podcasts.
  • Enfatizar a acção local e em pessoa
    • Muitos projectos do CEA têm como objectivo fazer com que as pessoas se reúnam para conversar sobre o AE com pessoas que lhe estão próximas (por exemplo, a EA Global, a EAGx e a criação de comunidades locais). Uma razão para esse objectivo é que as interacções pessoais têm o potencial de ser especialmente de alta fidelidade. As pessoas parecem conseguir actualizar as suas ideias melhor quando conversam umas com as outras pessoalmente, e a comunicação em pessoa permite que a conversa se concentre em áreas de equívoco ou desacordo.
  • Credibilidade académica e a marca AE
    • O CEA tornou-se mais interessado em estabelecer a credibilidade académica de algumas das nossas ideias. A academia oferece um método de alta fidelidade de disseminar ideias e pode ajudar a criar mais oportunidades de alta fidelidade para difundir ideias no futuro.

 


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