A política de mudanças climáticas com o maior potencial é a mais negligenciada

Por David Roberts (Vox)

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Altruísmo eficaz vs. mudanças climáticas? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

De acordo com os cientistas do clima do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], o mundo precisa fazer a transição completa para a energia limpa até meados deste século.

A transição está em andamento — mas chegar até lá é uma meta assustadora que exigirá a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos e serviços, especialmente em indústrias com uso intensivo de combustíveis fósseis, como a produção de concreto [Pt. cimento] e aço, que foram até agora amplamente negligenciadas.

Durante anos, nos círculos de estudos climáticos, aqueles que pediam mais pesquisa e desenvolvimento (P&D) foram lançados em uma batalha totalmente não-construtiva contra aqueles que pediam maior implementação das tecnologias de energia limpa já existentes. A “equipe de implementação” acusou a “equipe de inovação” de promover o atraso ao lançar dúvidas não construtivas sobre as tecnologias e as políticas atuais.

Acredito, ou pelo menos espero, que essa luta absurda tenha sido superada. A extrema urgência da crise climática e a escala da tarefa a ser realizada revelam a resposta óbvia: precisamos tanto de implementação como de inovação. Muito mais de ambas. Estamos ainda muito distantes de onde deveríamos estar em qualquer uma das duas.

Tendo chegado a essa reconciliação, acho que é hora dos fãs da implementação —  nos quais me incluo — observarem novamente, sem ser na defensiva, o argumento da inovação. Isso é realmente importante!

Tenho pensado nisso devido a um novo relatório emitido por um grupo chamado Let’s Fund, que aplica os princípios do “altruísmo eficaz” a direcionar o dinheiro de doadores para boas causas. O grupo analisou de perto as mudanças climáticas e chegou a uma conclusão bastante clara: a melhor aplicação do dinheiro dos doadores é na inovação. Especificamente, o grupo recomenda que os doadores apoiem o programa de Inovação em Energia Limpa do grupo de reflexão norte-americano Information Technology and Inovation Foundation, [a Fundação de Tecnologia da Informação e Inovação] (ITIF).

Resumindo, a Let’s Fund classificou as políticas climáticas em três métricas: importância, negligência e tratabilidade, ou seja, o nível de esforço político necessário para aprová-la.

Os gastos públicos com a P&D de energia limpa ficaram em primeiro lugar:

 

Obviamente (como os pesquisadores admitem livremente), métricas como estas envolvem todos os tipos de juízos de valor, particularmente quando se trata de economia política. Colocar os subsídios de energia limpa no n.º 10 chega a me irritar. (Quer estimular alguma inovação? Implemente em escala!)

Mas vou me concentrar apenas no argumento central da Let’s Fund sobre gastos públicos em P&D de energia limpa, porque, seja qual for a sua classificação face a outras políticas, trata-se de algo inquestionavelmente negligenciado e vital.

Em defesa das despesas públicas na P&D de energia limpa.

O argumento conceitual da Let’s Fund em defesa da P&D públicos é dividido em quatro partes.

1) A redução de emissões nas economias emergentes é o mais importante.

Até 2040, 75% das emissões globais virão de economias emergentes como a China e a Índia. É compreensível, e nobre, que as economias avançadas e ricas queiram reduzir suas emissões territoriais, e devem continuar a fazê-lo, mas se as emissões não diminuírem nas economias emergentes, tudo estará perdido. As economias avançadas poderiam estagnar suas emissões amanhã e, ainda assim, tudo estaria perdido.

2) Portanto, “as melhores políticas climáticas são aquelas que estimulam a inovação em energia limpa”.

Como podem as economias avançadas induzir economias emergentes a se desenvolver da forma mais limpa possível? Restrições ao crescimento impostas por instituições internacionais estão destinadas ao fracasso. A única coisa que pode funcionar é tornar a energia limpa barata e depois compartilhá-la com essas economias (“transbordamento” de tecnologia). A tecnologia de energia limpa mais barata é um bem público global, e as economias avançadas têm a obrigação moral e estão economicamente bem posicionadas para fornecê-la.

3) A P&D públicos criam o maior transbordamento.

“Muitas políticas estimulam a inovação em energia limpa e criam transbordamentos tecnológicos globais (por exemplo, impostos sobre o carbono, subsídios para a energia renovável, eliminação gradual dos subsídios aos combustíveis fósseis)”, diz o relatório. “Mas a política mais eficaz é aumentar os orçamentos governamentais para a pesquisa e o desenvolvimento de energia limpa (P&D).”

4) A P&D públicos lamentavelmente são negligenciados, mas são politicamente tratáveis.

Apenas 22 bilhões [Pt. 22 milhares de milhões] de dólares por ano são gastos globalmente em P&D de energia limpa. É uma insignificância — uma gota no oceano dos 600 bilhões [Pt. 600 milhares de milhões] de dólares em gastos militares anuais apenas nos EUA.

E praticamente qualquer economia avançada poderia aumentar substancialmente e unilateralmente esse número. É por isso que os pesquisadores consideram isso tratável; pois não requer coordenação internacional. Qualquer um pode decidir fazer isso.

Afirmam que um país como a Alemanha poderia eliminar completamente suas emissões baseadas na produção que isso dificilmente afetaria as emissões globais, enquanto que, por uma pequena fração do custo, poderia dobrar unilateralmente o orçamento global da P&D de energia limpa e estimular muito mais inovação, provavelmente com um impacto maior.

O relatório se desvia várias vezes para a armadilha da inovação contra a implementação, mas parece-me que a defesa da P&D aguenta-se independentemente disso. Não há necessidade de nenhum país gastar menos em implementação. Mas cada país deveria gastar mais em P&D.

Todos adoram P&D de energia limpa; mas ninguém faz

A Mission Innovation, um esforço internacional para coordenar e acelerar a P&D de energia limpa, foi lançada com muito alarde em 2015. Até agora, 24 nações e a Comissão Européia se comprometeram a dobrar seus gastos em P&D. No entanto, poucos países estão no rumo certo. Parece que atingirão em média um aumento de 50%.

Gráfico 3 - mudanças climáticas

Os gastos básicos de P&D de energia limpa de nações selecionadas, comparados com o seu progresso para atingir o compromisso de dobrá-los. Axios

Isso sempre foi um aspeto estranho sobre a P&D de energia limpa no setor público. Como diz o relatório, as políticas que estimulam a inovação “não exigem necessariamente coordenação internacional, o fornecimento é insuficiente e podem ter um enorme transbordamento global”. A inovação talvez seja a única política climática na qual praticamente todos concordam, em todo o espectro ideológico. Até mesmo os republicanos dos EUA a apoiam, pelo menos teoricamente.

Mas apesar de quase todos concordarem, quase ninguém o faz, pelo menos não na escala exigida. É algo perpetuamente subfinanciado, muito tempo depois de já se ter tornado claro que a energia limpa é vital para um futuro humano mais seguro.

Não me parece que haja quem tenha uma explicação completa e adequada sobre as razões de isso acontecer. Há, é claro, o problema do parasitismo — todo mundo eventualmente se beneficiará da P&D não importa quem o pague —, mas os problemas de parasitismo são abundantes na política climática e a P&D parece ser singularmente negligenciada.

O relatório também cita a culpa do “viés de omissão de ação”: “A nossa própria emissão de carbono é percebida como moralmente pior do que não tomar medidas para reduzir as emissões causadas por outros — embora as conseqüências sejam as mesmas”.

Em termos de mudanças climáticas, moralmente falando, uma tonelada de emissões de carbono evitadas é equivalente a qualquer outra, não importa onde esteja localizada. E em termos de poluição local e danos sociais, uma tonelada evitada em nações emergentes vale mais, provavelmente alivia mais sofrimento.

Ambos os argumentos sugerem que, na medida em que as emissões globais possam ser evitadas em escala por meio de P&D públicos, mais países devem avançar. Se é para resolver um problema global, qualquer verdadeiro Green New Deal deve adotar uma abordagem global. E tornar a energia limpa mais barata e mais disponível é algo que qualquer país rico pode fazer para ter um impacto global.

 


Artigo publicado originalmente por David Roberts na Vox em 11 de julho de 2019

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão José Oliveira.

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