É por isto que não conseguimos controlar a pandemia

Por Tomas Pueyo (New York Times)

Porque não conseguimos parar o coronavírus? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Para deter o coronavírus, os países mais bem-sucedidos fecharam completamente as suas portas aos visitantes. Funcionou. 

Até deixarem entrar novamente quem estava de fora.

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Para Derrotar o Coronavírus, Constrói uma Cerca Melhor.

Em Março, escrevi dois artigos sobre a pandemia emergente do coronavírus que foram lidos por muitos, “Por que se deve agir de imediato”, seguido de “O Martelo e a Dança”, que apelava para o uso de um “martelo” (medidas exigentes para parar o vírus) seguido de uma “dança” (acções inteligentes, mas menos agressivas, para evitar que a pandemia regressasse).

Desde então, muitos países usaram o martelo: as escolas fecharam; os negócios encerraram; os eventos públicos foram proibidos; as máscaras tornaram-se obrigatórias; os cidadãos foram obrigados a ficar em casa.

Todas estas acções ajudaram a abrandar a propagação do vírus. Mas, como o mundo falhou, não dançando da maneira certa, tem enfrentado ressurgimentos da pandemia. Estive a examinar os fracassos — e o que é necessário ser feito da próxima vez. 

Medidas como máscaras, testes, rastreamento de contacto, isolamentos, quarentenas ainda são necessárias, mas uma abordagem não foi suficientemente enfatizada: a cerca. Os países que fecharam rapidamente as suas fronteiras ou que monitorizaram cuidadosamente qualquer pessoa que entrasse tiveram mais sucesso a abrandar as infecções.

Alguns países usam cercas para impedir que os de fora atravessem as suas fronteiras. Alguns países limitam as viagens dentro das suas fronteiras. À medida que os Estados Unidos consideram flexibilizar alguns controlos de fronteiras e os países europeus consideram reimpor as restrições de viagens, precisam de perceber que estas cercas são necessárias para controlar o vírus — e que, se forem impostas, serão eficazes. 

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Já em Maio, o coronavírus estava fora de controlo. O Brasil, a Rússia e os Estados Unidos tiveram, visivelmente, mais casos do que o Japão, Taiwan e a Coreia do Sul. Podemos pensar que isto ocorre porque os três primeiros foram mais negligentes na sua abordagem. Certamente, os líderes destas nações tiveram pouca convicção — e pior — ao lidar com o vírus.

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Mas, na verdade, muitos governos regionais dentro de cada país impuseram restrições bastante severas às actividades. Isto mostra o Índice de Rigor da Universidade de Oxford, que se concentra nas medidas mais rígidas de um país, quer sejam parte de uma resposta do governo nacional, estatal ou local para abrandar o vírus, como encerrar negócios e limitar ajuntamentos. Como podemos ver, o Brasil, a Rússia e os Estados Unidos têm uma classificação mais elevada no rigor das suas medidas — muito mais rígidas, no geral, do que no Japão, Taiwan e Coreia do Sul. No entanto, esses países ainda assim tiveram dos piores surtos do mundo.

Isto por que os seus governos nacionais não coordenaram uma resposta central, deixando os governos estatais a enfrentar o vírus por conta própria. 

Alguns estados adoptaram acções agressivas para abrandar a pandemia, enquanto outros adoptaram uma abordagem de não intervenção. Essas respostas divergentes prejudicaram os estados que adoptaram medidas mais rígidas, visto que as viagens entre os estados continuaram, comprometendo os esforços de governos empenhados na supressão do vírus, e propagando-o por todos os países.

PRIMEIRA PARTE: A Propagação

Este é o aspecto dos casos activos por região à medida que se propagaram pela China no início deste ano. O vírus expandiu-se do epicentro em Wuhan, capital da província de Hubei, para as regiões vizinhas.

Duas semanas depois do encerramento da província de Hubei, a 23 de Janeiro, 60% de todos os casos chineses ocorreram em Wuhan, 20% no resto de Hubei e os 20% restantes nas províncias vizinhas. 

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É como se houvesse círculos concêntricos em torno do epicentro. Quanto mais perto se estava, mais casos havia.

A mesma coisa aconteceu em Itália. 

O surto principal concentrou-se inicialmente em Lodi. Explodiu e infectou as áreas vizinhas, incluindo Milão.

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Quando o impacto do encerramento pode ser visível

O surto de Itália está concentrado em Lodi. O vírus propaga-se para as regiões vizinhas. Roma tem o seu próprio pequeno surto. O sul da Itália é quase todo poupado.

O governo aplicou um martelo: foram emitidas ordens para se ficar em casa, foram encerrados os negócios não essenciais. As restrições incluíam uma cerca: os cidadãos foram explicitamente proibidos de viajarem para outras partes do país.

Sem viagens, a propagação paralisou. As províncias que não tinham sido afectadas, como as do sul da Itália, seriam poupadas. A forma do mapa quase não se alterou. Os casos continuavam a diminuir em todas as províncias.

Vimos o mesmo padrão a ocorrer em Espanha e em França. 

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Os casos de Espanha começam em Madrid

As proibições de viagens começam em Março

As infecções parecem ter parado

As infecções desvanecem em Maio

E continuam a diminuir

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O surto de França ganha terreno

O vírus explode

As contramedidas entram em vigor

Em Junho, as infecções diminuem

E continuam a diminuir

Agora vejamos o que aconteceu em Portugal, no Brasil e na Rússia. 

No início, Portugal não sofreu um surto tão grande como outros países da União Europeia. Talvez seja por isso que foi relativamente brando. Portugal realmente fechou a sua fronteira terrestre com Espanha, o seu único vizinho, e impôs ordens para se ficar em casa, mas não proibiu explicitamente o movimento interno. Também não fechou os seus aeroportos a visitantes de outros membros da União Europeia, dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha ou do Brasil.

O resultado? Os pontos quentes continuaram a reacender em todo o país durante o encerramento. A capital, Lisboa, teve um surto tão grave que teve de reimpor as ordens para se ficar em casa a meio de Junho, quando o resto da União Europeia estava a reabrir.

No final de Junho, quando todos os membros da União Europeia abriram as suas fronteiras uns aos outros, apenas a Suécia — que nunca aplicou um martelo — tinha mais casos por habitante do que Portugal. 

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Os casos da Rússia começam em Moscovo

As infecções não ficam por aí

Propagam-se para Este

E pioram

Em Junho, está por toda a parte

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Portugal viu casos por todo o lado

As pessoas continuaram a viajar

Os casos permaneceram constantes

Na Rússia, o governo de Vladimir Putin alegou que a situação estava “sob controlo”, não administrou a situação de forma centralizada e deixou que fossem os estados a impor restrições. Muitos deles implementaram encerramentos; apenas alguns fecharam as fronteiras. Como resultado, o coronavírus viajou por milhares de quilómetros, desde Oeste a Este, numa questão de semanas, e o surto persiste.

Algo semelhante aconteceu no Brasil. O seu presidente, Jair Bolsonaro, ridicularizou as medidas de distanciamento social, sugeriu que o coronavírus era como uma gripezinha e exigiu a reabertura da economia. Foi deixado aos estados todo o trabalho que tinha de ser feito. Estes adoptaram medidas rígidas, incluindo ordenar o encerramento de empresas, ficar em casa e limitar o transporte público entre cidades e estados. Mas, o mais crucial, poucos estados fecharam as fronteiras com outros estados. Como resultado, a epidemia propagou-se por toda parte, começando no litoral que tem muitos acessos e alcançando, por fim, as áreas remotas da Floresta Amazónica.

Agora, vejamos o que aconteceu nos Estados Unidos. 

Os Estados Unidos fecharam as suas fronteiras a muitos países, começando pela China a 2 de Fevereiro, seguiu-se o Irão um mês depois, grande parte da Europa em meados de Março e o Brasil em Maio. Também eliminou as “viagens não essenciais” do México e do Canadá em Março.

Mas muitas dessas proibições chegaram demasiado tarde ou foram demasiado brandas. Por exemplo, cerca de 40 000 pessoas viajaram da China para os Estados Unidos nos dois meses após o presidente Trump ter imposto as restrições. E os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças reconheceram que a proibição de viajantes da União Europeia chegou tarde demais para evitar a transmissão generalizada na comunidade da cidade de Nova York.

O coronavírus atingiu primeiro maioritariamente cidades que são centros internacionais. 

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O vírus moveu-se rapidamente a partir daí. Em meados de Abril, a maior parte dos Estados Unidos estava a ter infecções, demonstradas aqui usando dados sobre a prevalência de casos, o número de casos activos por população.

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Os dados anónimos de telemóveis [Br. celulares] desta época permitem-nos ver quantos viajantes passaram entre as regiões metropolitanas. Usando a prevalência do vírus nesses lugares, podemos calcular aproximadamente quantos desses viajantes poderiam estar a transportar o vírus. Cada ponto representa 100 viajantes possivelmente infectados, com base nas médias das duas primeiras semanas de Abril.

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É assim que o vírus funciona: se uma área sem infecções receber visitantes de outra área infectada, inevitavelmente ficará infectada.

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Esta foi uma das primeiras lições do surto que começou na cidade de Nova York e se propagou. O Connecticut foi um dos primeiros estados a ser encerrado, mas isso não impediu o vírus de cruzar a sua fronteira a sudoeste.

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Mas consideremos também o Novo México, que aplicou um dos martelos mais duradouros, encerrando escolas e empresas e obrigando as pessoas a usar máscaras. Mesmo assim, os casos no condado de Doña Ana, que faz fronteira com o Texas, começaram a aumentar na sequência dos casos no vizinho El Paso.

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O encerramento do Novo México manteve os casos em Albuquerque sob controlo, mas não impediu a propagação do vírus à Nação Navajo, que inclui partes do Novo México, Arizona e Utah. O primeiro surto naquela área teve origem num ajuntamento numa igreja em Chilchinbeto, Arizona, dentro da Nação Navajo, em Março.

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O mesmo padrão ocorreu na zona rural do Oregon. Em Julho, surgiram casos no condado de Malheur, que fica a oeste da capital de Idaho, Boise. O director de saúde de Malheur disse que a proximidade do condado com os condados de Canyon, Payette e Washington em Idaho desempenhou um papel fundamental no número de casos locais.

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Em Washington, os casos apareceram inicialmente na área de Seattle. Os condados a sudeste foram os próximos. De seguida, o condado de Umatilla, Oregon, sofreu o seu primeiro surto. Os condados vizinhos em Oregon ainda tinham uma reduzida prevalência de casos. Os trabalhadores agrícolas que viajavam para Umatilla para a colheita foram as sementes prováveis.

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Quando o coronavírus apareceu na área da baía de São Francisco, seis dos seus condados ordenaram um encerramento; alguns residentes fugiram da área para o Lago Tahoe, apesar de uma ordem para se ficar em casa em todo o estado. Logo depois, o condado de Washoe, um dos condados no lado de Nevada do lago, teve um surto. Dos seis casos originais que tiveram origem fora do condado, quatro eram da Califórnia, três deles da Bay Area.

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Durante Julho, o vírus espalhou-se pelos estados do sul e oeste da América.

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Ao mesmo tempo, as pessoas começaram a viajar mais, com base nas médias das duas últimas semanas de Julho. Conforme o número de casos aumentou em todo o país, o risco de mais viajantes infectados também aumentou.

Se as pessoas puderem viajar de regiões infectadas para lugares com poucas ou nenhuma infecção, as infecções irão espalhar-se, não importa o trabalho que tenha sido feito para manter o vírus sob controlo. E bastam apenas algumas sementes virais para causar o caos.

Inicialmente, Singapura controlou bastante bem o vírus. Infelizmente, foi lenta a fechar as suas fronteiras com outros países para além da China. Por volta de Março, sementes suficientes tinham sido introduzidas vindas de outros países para causar um grande surto, com mais de 57 000 casos até ao momento, mais do que Wuhan.

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A mesma coisa aconteceu na Argentina. Algumas sementes do exterior logo no início — cerca de 800 no total — levaram a mais de 500 000 casos.

Algumas infecções são suficientes para um grande surto. É por isso que todas as regiões devem considerar uma cerca.

PARTE DOIS: A Cerca

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As cercas são políticas que países ou estados implementam para impedir a entrada de infecções. Existem três tipos.

Muros, ou fortes proibições de viagens, são as mais agressivas. A maioria das pessoas é impedida de entrar, por isso a maioria das infecções é evitada. A maioria dos países do Leste Asiático e da União Europeia ergueram muros ao banir cidadãos de muitos países com taxas elevadas de infecção, incluindo os Estados Unidos.

Quarentenas são menos agressivas: em vez de serem impedidos de entrar, os visitantes precisam de passar vários dias sem contacto social até estarem autorizados a sair. Normalmente, os governos exigem duas semanas de quarentena, mas algumas comunidades permitem que pessoas com testes de P.C.R. negativos (normalmente feitos com esfragaços nasais ou da garganta) saiam da quarentena mais cedo. Hong Kong é um bom exemplo disso.

O último tipo de cerca é o posto de controlo: os viajantes podem entrar, mas devem ser examinados individualmente primeiro.

Quarentenas e postos de controlo impedem que muitas pessoas contagiosas, mas não todas, espalhem o vírus. Ainda assim, as infecções que passam, podem ser controladas mais facilmente.

Taiwan, a Coreia do Sul, o Japão e a Islândia todos estes têm um muro: banem pessoas de muitos países. Para aqueles que deixam entrar, têm tipos especiais de quarentena.

Em Taiwan, por exemplo, à chegada, devemos apresentar um teste de P.C.R. negativo feito nos últimos três dias, fornecer o número de telemóvel às autoridades, ir directamente para a quarentena em transporte particular ou autocarros [Br. ônibus] especiais, que não param a meio do caminho, e permanecer isolado por duas semanas. Duas vezes por dia, o governo confirma a quarentena ao verificar o nosso paradeiro por meio de chamadas telefónicas. Também rastreia o nosso telemóvel. Se o nosso telemóvel se afastar do local de quarentena ou caso se desligue, a polícia aparecerá em minutos. Se o telemóvel permanecer no mesmo lugar por demasiado tempo, o sistema de rastreamento poderá presumir que nos esquecemos dele e liga-nos.

A Coreia do Sul é muito semelhante, no entanto usa uma aplicação [Br. aplicativo] em vez do nosso número de telemóvel para rastrear os visitantes. Abriga viajantes estrangeiros em instalações de quarentena, que variam de prédios em ruínas do governo a hotéis de cinco estrelas.

O Japão é semelhante à Coreia do Sul e ao Taiwan, mas com menos imposição de quarentena — e prevalência de casos mais elevada. A Islândia também tem um processo mais brando e mais casos. Permite que os viajantes evitem a quarentena de duas semanas se tiverem dois testes de PCR negativos, um à chegada e outro cinco ou seis dias depois, com isolamento entretanto.

E relativamente a outros países? 

Durante meses, a maioria dos países da União Europeia proibiu as viagens dentro das suas fronteiras e dos seus vizinhos da União Europeia. A maioria desses países controlou as suas epidemias.

Mas, no início de Julho, as fronteiras entre esses países foram reabertas. E agora, a União Europeia está a sofrer o início da sua segunda vaga.

A Espanha, por exemplo, tem um muro com muitos países fora da União Europeia, mas apenas um brando posto de controlo para os países da União Europeia. As temperaturas dos viajantes são verificadas e devem preencher um formulário que informa de onde vêm, o seu endereço de destino e se já tiveram o coronavírus.

Por si só, estas etapas são quase inúteis. As pessoas podem mentir no formulário. E as verificações de temperatura detectam apenas um pequeno número de casos.

Os pré-sintomáticos, aqueles que ainda não desenvolveram os sintomas, causam cerca de metade de todas as infecções. Daqueles que são sintomáticos, 20 por cento não têm febre. E os termómetros podem não ser suficientemente sensíveis para detectar parte dos restantes. 

A melhor precaução em postos de controlo é um teste de PCR, que detectará cerca de 70% dos casos. Alguns países, no entanto, pedem apenas que os viajantes apresentem prova de um teste PCR negativo realizado nas últimas 72 horas. Por si só, isto também é quase inútil.

As pessoas geralmente testam negativo logo após serem infectadas. Conforme a doença progride nos dias seguintes, os sintomas podem aparecer e é mais provável que o teste dê positivo. O pico de contágio é por volta do quinto dia, e o teste é mais sensível por volta do oitavo dia, detectando cerca de 80% dos casos. Isto significa que as pessoas com um teste PCR negativo há 72 horas podem ter contraído o vírus um pouco antes ou depois do teste e estão a atingir o pico de contágio durante a viagem ou depois de chegarem ao seu destino.

Um teste no posto de controlo dá mais oportunidades de detectar pessoas infectadas. E outro teste de PCR alguns dias depois, com uma quarentena entretanto, também irá detectar aqueles que foram infectados antes de viajar.

O que está a fazer os Estados Unidos?

Quase 30 estados impuseram quarentenas aos visitantes nos últimos sete meses, mas houve pouca ou nenhuma aplicação da lei. E a maioria dos estados atenuou-as ou suspendeu-as. Dos estados que adoptaram quarentenas, dois dos mais interessantes são o Alasca e o Havai. As diferenças são muito reveladoras.

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O Alasca aplicou um martelo quando tinha cerca de 100 casos. No final de Março, exigiu que todos os viajantes que entravam no estado fizessem uma auto-quarentena e, especialmente, proibiu viagens internas para todos os trabalhos excepto para trabalhos essenciais ou para necessidades pessoais urgentes.

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Os casos diminuíram abruptamente. O Alasca começou a reabrir no final de Abril.

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O estado foi totalmente reaberto em Maio. Mas, embora as autoridades tenham ameaçado os infratores da quarentena com multas até 25 000 dólares e penas de prisão, a regra não foi aplicada. Os casos começaram a crescer, com infecções a chegar em barcos de pesca e a atingir fábricas de processamento de alimentos e depois as comunidades. A prevalência de casos saltou de quatro casos activos por 100 000 pessoas, no final de Maio, para mais de 200 no final de Julho.

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Inicialmente, o Havai seguiu uma abordagem semelhante à do Alasca. Também emitiu um mandato para se ficar em casa no final de Março, quando havia poucos casos. As pessoas que voavam para o estado eram obrigadas a ficar em quarentena. Os infratores enfrentaram multas até 5000 dólares ou uma pena de prisão até um ano.

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Mas o Havai fez o que o Alasca não fez: impôs a sua quarentena. À chegada, os visitantes tinham de identificar o seu hotel, e as autoridades ligavam para o hotel para garantir que os hóspedes cumpriam o confinamento. Às vezes, o governo ligava para os visitantes ou verificava as suas redes sociais. Os funcionários de hotéis e os residentes do Havai também alertaram as autoridades apontando os infratores. Quase 200 pessoas foram presas por não cumprirem a quarentena.

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Infelizmente, este sistema era muito mais brando do que em lugares como Taiwan ou a Coreia do Sul e, eventualmente, entraram casos suficientes em Oahu para gerar um surto em Agosto.

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No final, não foi o suficiente para conter a maré.

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No cômputo final, isto pode dever-se a apenas cerca de 40% dos visitantes do Havai terem respeitado completamente as medidas do estado durante as duas semanas inteiras da quarentena, isto com base na análise de registos anónimos de telemóveis de viajantes fornecidos pela Cuebiq. A quarentena do Havai não foi hermética.

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Ainda assim foram confinados muito mais visitantes do que no Alasca. Inicialmente, obedeceram à quarentena do Alasca, mas eventualmente menos viajantes ficaram em casa.

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Outros estados pediram aos viajantes que fizessem auto-quarentena voluntariamente ou ameaçaram-nos com multas. Nesses estados, os visitantes parecem maioritariamente ignorar as regras.

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Isto seria menos problemático caso as pessoas não continuassem a viajar tanto. Foi o que aconteceu por uns tempos: as viagens diminuíram abruptamente em Março e Abril.

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Mas recentemente, as viagens no Alasca voltaram aos níveis pré-coronavírus. No Havai, os visitantes provavelmente receberam a informação de que terão de fazer a quarentena se aí forem. Menos pessoas estão a entrar e a sair.

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No entanto, o país em geral seguiu a rota do Alasca, em vez do Havai. As viagens estão acima dos níveis pré-coronavírus.

Se o sistema do Havai tivesse sido tão hermético como o do Japão, de Taiwan ou da Coreia do Sul, poderia ter evitado o seu surto de Agosto. O Havai tem uma vantagem óbvia sobre os outros estados dos EUA: é um conjunto de ilhas. O Japão, Taiwan e a Islândia também são ilhas; a Coreia do Sul é quase uma. Quase todos os visitantes chegam ao aeroporto, tornando-os mais fáceis de monitorizar, o que é importante porque as viagens aéreas têm um impacto maior na propagação do que as outras formas de se viajar.

No entanto, as viagens rodoviárias também propagam o vírus e controlar viagens rodoviárias é difícil, especialmente nas fronteiras estatais. Como se aplicam restrições às viagens de carro?

Quase todos os países da União Europeia fecharam as suas fronteiras e muitas viagens foram limitadas dentro das suas fronteiras, incluindo áreas com muitos acessos, como a Bélgica, o Luxemburgo e a Holanda, e as suas fronteiras com a França e a Alemanha.

Os países da União Europeia realmente levaram isto a sério. A França e a Espanha, cada uma multou mais de um milhão de pessoas por violarem as regras. Em alguns casos, a polícia montou postos de controlo, como na Finlândia e na Alemanha, e até bloqueou algumas estradas.

Nos Estados Unidos, este sistema poderia ser simples: todas as pessoas que viajassem para um estado que requeira quarentena preencheriam um formulário antes de entrar, detalhando os seus planos de viagem, o local da quarentena nas duas semanas seguintes e como contactá-los para confirmar que estão a cumpri-la. A norma seria aplicada por meio de verificações aleatórias e multas ou por meio de uma aplicação que os visitantes teriam de instalar nos seus telemóveis para rastrear o seu paradeiro. (Isto, é claro, levanta questões de privacidade.)

Poderiam encurtar a quarentena usando testes de PCR negativos, idealmente no momento da entrada e quatro dias depois. As medidas poderiam ser adaptadas ao tipo de visitante e à situação no seu local de origem. Por exemplo, trabalhadores essenciais, como camionistas [Br. caminhoneiros], estariam isentos, mas iria ser necessário que reduzissem o contacto com outras pessoas durante a sua estadia. Regiões que partilham uma baixa prevalência de casos — “zonas verdes” — poderiam unir-se para formar uma área livre de cercas, mas protegida por cercas nas suas fronteiras com estados de elevada prevalência de casos.

Os regulamentos da cidade de Nova York estão concebidos de acordo com esta abordagem. A cidade montou postos de controlo nos principais pontos de entrada. Mas as autoridades apenas informam os visitantes sobre as normas da quarentena. São possíveis multas até 10 000 dólares, mas, até ao final da semana passada, apenas duas pessoas tinham recebido intimações por violarem as ordens de quarentena. Até que a cidade aplique realmente a sua quarentena, os visitantes irão continuar a visitar e é provável que as infecções aumentem.

A Grã-Bretanha também exige quarentenas para os viajantes que chegam, mas multou apenas cerca de 30 pessoas entre milhões de viajantes. Essa medida ameaçadora — mas essencialmente inútil — foi tomada contra os países da União Europeia desde que estes reabriram as suas fronteiras entre si em Julho, com muitos destes a enfrentar mais surtos. Novas proibições de viagens e limites de ajuntamentos sociais foram impostos. As infecções estão a aumentar novamente na Grã-Bretanha e novas infecções parecem estar garantidas para este mês, à medida que os alunos voltam para a escola e os trabalhadores voltam para os seus postos.

Nenhum país foi capaz de controlar o vírus sem uma cerca. As cercas não são suficientes para deter o vírus por si só, mas são uma parte necessária da solução. Os países europeus e os Estados Unidos esperavam o contrário. Estavam enganados. Abriram os braços para os seus vizinhos demasiado cedo e ficaram infectados com o abraço.

Precisam de compreender que nem todos os países ou estados estão a lutar contra o vírus de forma eficaz. Por que é que os seus cidadãos devem sacrificar tanto por tanto tempo, com confinamentos e encerramentos de empresas, apenas para desperdiçar os seus esforços quando os seus vizinhos os visitam?

E enquanto os estados não conseguirem controlar as suas fronteiras, o coronavírus irá voltar novamente. 


Publicado originalmente por Tomás Pueyo (com Nathaniel Lash e Yaryna Serkez e Ilustrações de Annie Jen) no New York Times, a 14 de Setembro de 2020.

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

 

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