Resumo da pesquisa: A experiência subjetiva do tempo

Por Jason Schukraft (EA Forum)

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Como sofrem os animais? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Considerar as diferenças na experiência subjetiva do tempo pode afetar a proporção de recursos que desejamos alocar para diferentes espécies. Recentemente escrevi dois textos sobre o assunto, aqui e aqui. Contando de forma um pouco conservadora, as duas postagens totalizam mais de 23.000 palavras. Nesta postagem (muito mais curta), tento apresentar o tópico de forma sucinta e transmitir as minhas principais conclusões. O objetivo é criar uma visão geral do meu pensamento atual que seja compreensível e que consuma menos tempo aos leitores.

Se você já teve a infelicidade de sofrer um acidente de carro, de lutar em uma zona de guerra ou de ser atacado por um animal selvagem, talvez já esteja familiarizado com as aparentes diferenças na experiência subjetiva do tempo. Quando confrontados com circunstâncias de risco de vida, os seres humanos relatam frequentemente que o tempo parece mais lento. Eventos que terminam em dezenas de segundos parecem se estender por minutos, permitindo uma avaliação rápida da cena e decisões rápidas que, em alguns casos, salvam a nossa vida. Esses tipos de diferenças às vezes também são induzidos artificialmente. Uma viagem de LSD pode parecer se estender por dias, quando na verdade demorou uma tarde. Se esses tipos de eventos constituem diferenças genuínas na nossa fenomenologia temporal, eles mudam a quantidade de experiência subjetiva pela qual passamos em um determinado período objetivo de tempo.

Há evidências empíricas intrigantes de que indivíduos de espécies diferentes diferem em sua experiência do tempo. Assim, por exemplo, um tentilhão zebra (um tipo de pássaro pequeno) pode experimentar o tempo caracteristicamente da mesma forma que um ser humano durante o momento do impacto de um acidente de carro: uma vida inteira se desenrolando em (o que os seres humanos descreveriam como) câmera lenta. Por outro lado, alguns animais podem experimentar o oposto: se pudéssemos adotar o ponto de vista temporal de, digamos, uma tartaruga-de-couro, o mundo poderia parecer como se tivesse sido acelerado 4 vezes.

Essas diferenças – se existirem – afetariam o valor moral das experiências. Para um determinado estímulo negativo com a mesma intensidade subjetiva e duração objetiva, animais com uma velocidade mais rápida de experiência subjetiva, como o tentilhão-zebra, sofreriam mais do que animais com uma velocidade mais lenta de experiência subjetiva, como a tartaruga-de-couro. O tentilhão-zebra experimentaria o estímulo doloroso por mais tempo, em um sentido robusto, do que a tartaruga-de-couro. Ou seja, na mesma duração objetiva, o tentilhão experimentaria um número maior de momentos dolorosos do que a tartaruga.

Novamente, não temos a certeza quais são os animais – se é que há algum – que experimentam o tempo em velocidades diferentes e, dado que essas diferenças potenciais dizem respeito à experiência privada e subjetiva, nunca poderemos ter a certeza de que essas diferenças existem. No entanto, existem pistas tentadoras que podem nos permitir tirar conclusões provisórias.

Algumas das pistas são comportamentais: [1] os ornitólogos há muito estudam a complexidade temporal do canto dos pássaros, com seus períodos fundamentais extremamente curtos (medidos em meros milissegundos), muito mais curtos do que os seres humanos podem produzir ou identificar. Na verdade, os etologistas aviários afirmam frequentemente que os seres humanos não podem realmente apreciar o canto dos pássaros, a menos que a gravação seja tornada mais lenta.

Algumas das pistas são neurológicas. Se o cérebro for como um computador, podemos ser capazes de medir a velocidade do relógio do cérebro observando a velocidade com que pode transmitir sinais. Os cérebros de papagaios e pássaros canoros acumulam muito mais neurônios por milímetro cúbico do que os de elefantes e baleias, permitindo que os cérebros mais pequenos e densos dos pássaros transmitam sinais muito mais rápido.

Algumas das pistas referem-se a diferenças na resolução temporal, que é a velocidade na qual um sistema perceptivo coleta informações sobre o seu ambiente. Imagine uma luz alternando entre acesa e apagada; se a alternância for rápida o suficiente, você deixará de ver uma cintilação e, em vez disso, irá ver um brilho constante. O limiar no qual essa mudança ocorre é chamado de frequência crítica de fusão ou de oscilação da visão (CFF) e é uma medida de resolução temporal visual. Os limiares CFF foram determinados para mais de 70 espécies. Os seres humanos normalmente percebem a mudança da cintilação para o brilho constante aos cerca de 60 Hz. Para alguns pássaros canoros, o número comparável é 146 Hz.

Em breve, poderemos até mesmo ser capazes de identificar correlações neurais aproximadas para a experiência subjetiva do tempo. Em seres humanos, as diferenças nas oscilações neurais na banda alfa (ondas cerebrais na faixa dos 8 a 12 Hz) estão correlacionadas com as diferenças nos tempos de reação, CFF, e com janelas de integração temporal. Conversei com um neurocientista que deseja estender este trabalho para ver se a variação natural nas oscilações da banda alfa prevê diferenças nas estimativas de duração. Ele pensa que, com o financiamento adequado, o paradigma experimental poderia eventualmente ser alargado para investigar a experiência temporal em muitos animais não humanos.

Considerar as diferenças na experiência subjetiva do tempo pode mudar a maneira como alocamos recursos para diferentes tipos de animais. Atualmente, se desejarmos um valor aproximado das diferenças de estatuto moral ou da capacidade para o bem-estar usando uma métrica mensurável, o melhor que se pode fazer é apelar para a contagem de neurônios, para a relação da massa do cérebro com a massa do corpo, para o quociente de encefalização ou algo semelhante. Um aspecto interessante dos termos de comparação para a experiência temporal que identifiquei é que os rankings de animais que estes geram diferem drasticamente dos rankings baseados em métricas do tamanho do cérebro. As abelhas melíferas têm apenas cerca de um milhão de neurônios, mas a sua velocidade de experiência subjetiva parece ser muito mais rápida do que a de animais de cérebro grande como os elefantes. Incorporar a consideração das diferenças na experiência subjetiva do tempo em nosso processo de priorização (talvez ponderando as métricas de experiência temporal com um peso igual às métricas do tamanho do cérebro) mudaria a nossa classificação geral dos animais.

Ao ler as duas postagens na íntegra, você ficará a saber por que acredito no seguinte:

  • Há cerca de 70% de chance de haver diferenças características na experiência subjetiva do tempo entre as espécies
  • Se tais diferenças existem, provavelmente não abrangem mais do que duas ordens de magnitude, com os seres humanos posicionados aproximadamente no meio da escala
  • Há cerca de 40% de chance de que as diferenças na frequência crítica de fusão ou de oscilação da visão acompanhem as diferenças na experiência subjetiva do tempo para animais que habitam ambientes relativamente brilhantes, que dependem fortemente da visão para interagir com o mundo e que exibem alta plasticidade comportamental

Esta área de pesquisa é reconhecidamente bastante especulativa. Falei com vários especialistas que sugeriram que seria difícil fazer progressos concretos neste tópico, embora não seja impossível. Por outro lado, esta área de pesquisa também é bastante negligenciada. Embora haja uma literatura rica sobre assuntos adjacentes, apenas houve um punhado de estudos científicos que tentaram investigar diretamente as diferenças na experiência subjetiva do tempo em seres humanos, e nenhum tentou estender a investigação a animais não humanos. Ao reunir tópicos díspares de campos relacionados, podemos encorajar a pesquisa interdisciplinar que comece a desvendar o mistério da experiência temporal.

Este ensaio é um projeto da Rethink Priorities. Foi escrito por Jason Schukraft. Agradecimentos a Kim Cuddington, Marcus A. Davis, Derek Foster, Peter Hurford, Jeff Sebo, Saulius Šimčikas e Daniela Waldhorn pelos comentários úteis sobre os rascunhos anteriores. Se gostar do nosso trabalho, considere assinar a nossa newsletter. Você pode ver todo o nosso trabalho até o momento aqui.

Notas

  1. Esses exemplos se concentram em pássaros porque os dados relevantes já existem, mas pesquisas científicas futuras podem descobrir pistas semelhantes para outros tipos de animais. ↩︎

Publicado originalmente por Jason Schukraft no EA Forum, a 10 de Agosto de 2020.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira. 

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