Eis porque alguns laboratórios trabalham para tornar vírus mais mortíferos – e porque é que deveriam parar

Por Kelsey Piper (Vox)

Tornar vírus mais mortíferos, faz sentido? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

No início desta semana, a Newsweek e o Washington Post relataram que o Instituto de Virologia de Wuhan, um laboratório próximo do local dos primeiros casos de coronavírus no mundo, estava a estudar o coronavírus de morcegos.

O relatório da Newsweek revelou um detalhe alarmante: o laboratório de Wuhan, no centro da controvérsia, esteve durante anos envolvido em investigações de ganho de função. O que é isso, exactamente? É uma linha de investigação na qual os cientistas pegam em vírus e estudam como é que estes podem ser modificados para se tornarem mais mortíferos ou transmissíveis. Porque é que fariam isso? Os cientistas que participam neste tipo de investigações dizem que isso os ajuda a descobrir quais são os vírus que ameaçam as pessoas, para que possam criar contra-medidas.

Para que fique claro, o novo coronavírus, SARS-CoV-2, não é, definitivamente, um agente patogénico criado por engenharia biológica. Não foi libertado propositadamente e é provável que tenha sido o resultado de uma transmissão acidental através do contacto humano com animais selvagens, como é o caso em quase todos os surtos de doenças na história.

Mas os relatórios emergentes sobre o laboratório em Wuhan estão pela primeira vez a chamar a atenção de muitas pessoas para o facto das investigações de ganho de função acontecerem se quer. Não culparia quem tivesse a seguinte reacção a esta notícia: O governo concede financiamento a investigadores para tornar os vírus potencialmente pandémicos mais mortíferos e para torná-los mais facilmente transmissíveis entre as pessoas? Porque motivo fazemos isso?

A atenção acrescida face à investigação de ganho de função é uma coisa boa. Esse tipo de investigações altamente controversas –  banidas sob a administração de Obama depois de incidentes de segurança demonstrarem que a segurança dos laboratórios raramente é total – começou novamente sob a administração de Trump, e muitos cientistas e investigadores da área da saúde pública acham que essa é uma ideia muito má. O nosso confronto com os horrores de uma pandemia poderá forçar-nos a reconsiderar os avisos que esses especialistas têm feito há anos.

Os EUA pararam de financiar a investigação de ganho de função. E depois voltaram a fazê-lo.

Em 2019, a revista Science deu a notícia que o governo dos EUA retomou o financiamento de duas controversas experiências para tornar a gripe aviária mais transmissível.

As duas experiências estavam suspensas desde 2012, no meio de um intenso debate na comunidade de virologia sobre as investigações de ganho de função. Em 2014, o governo dos EUA, sob a administração de Obama, impôs uma moratória sobre essas investigações.

Esse foi um mau ano no que diz respeito a riscos biológicos. Em Junho de 2014, pelo menos 75 cientistas nos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças foram expostos a antraz. Algumas semanas depois, funcionários da Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA encontraram 16 frascos de varíola que tinham sido esquecidos em armazenamento. Enquanto isso, “o maior, o mais grave e o mais complexo” surto de Ébola da história estava a ocorrer em toda a África Ocidental, e o primeiro paciente a ser diagnosticado nos EUA acabava de ser anunciado.

Foi nesse contexto que os cientistas e os especialistas em biossegurança se viram envolvidos num debate sobre as investigações de ganho de função. Os cientistas que fazem esse tipo de investigação argumentam que podemos antecipar melhor doenças mortais tornando as doenças mais mortíferas em laboratório. Mas muitas pessoas, na altura e desde então, têm ficado cada vez mais convencidas de que os potenciais benefícios das investigações – que parecem limitados – simplesmente não superam os riscos de nós próprios desencadearmos a próxima pandemia mortífera.

Embora internamente dividido, na altura, o governo dos EUA escolheu o lado da cautela. Anunciou uma moratória face ao financiamento de investigações de ganho de função – suspendendo experiências potencialmente perigosas para que o mundo pudesse discutir os riscos que essas investigações implicam.

Mas em 2017, o governo sob a administração de Trump publicou novas directrizes para as investigações de ganho de função, sinalizando o fim da moratória geral. E as notícias de 2019 sugerem que projectos perigosos estão em andamento.

Especialistas em biossegurança estão preocupados que esta área de investigação esteja a caminhar na direcção de um erro que poderá matar pessoas inocentes. Argumentam que, para avançar com investigações como estas, deve haver um processo transparente que sentasse à mesa as partes interessadas de todo o mundo. Pois afinal, se acontecer algo de errado, o caos que enfrentaremos certamente será global.

Deveríamos realmente estar a fazer este tipo de investigações?

Os defensores deste tipo de investigações de ganho de função (nem todas as investigações de ganho de função usam agentes patogénicos que podem causar pandemias) apontam para algumas coisas que esperam que isso nos permita fazer.

Em geral, argumentam que aumentará a vigilância e a monitorização de novas potenciais pandemias. Como parte dos nossos esforços para impedir pandemias antes que estas comecem – ou antes que se tornem graves – recolhemos amostras dos vírus que estão a circular actualmente. Se soubermos quais são as estirpes mais mortíferas e perigosas que existem, segundo diz o argumento, então seremos capazes de monitorizá-las e de preparar uma resposta caso nos pareça que essas mutações estão a surgir na natureza.

“À medida que melhorem a coordenação das actividades de vigilância internacional e a partilha global de vírus”, escreveram alguns defensores na mBio, iremos ficar a saber melhor quais as estirpes que existem por aí. Depois, as investigações de ganho de função irão dizer-nos quais são as que estão perto de se tornarem mortíferas.

“Os dados sobre ganho de função foram usados para lançar investigações de surtos e alocar recursos (por exemplo, o H5N1 no Cambodja), para desenvolver critérios para a Ferramenta de Avaliação de Risco de Gripe e para tomar decisões políticas difíceis e, às vezes, de custo elevado, relacionadas com planeamento de pandemias”, argumentam.

“O governo dos Estados Unidos ponderou os riscos e os benefícios… e desenvolveu novos mecanismos de supervisão. Sabemos que isso traz riscos. Também acreditamos que é um trabalho importante para proteger a saúde humana”, disse à revista Science Yoshihiro Kawaoka, um investigador cujas experiências de ganho de função foram aprovadas.

De acordo com essa lógica, se tivéssemos sabido durante anos que o coronavírus SARS-CoV-2 – o vírus que agora nos mantém a todos dentro de casa – era particularmente perigoso, talvez pudéssemos ter tido sistemas de vigilância de doenças para nos alertar caso desse o salto para os seres humanos.

Outros são sépticos. Thomas Inglesby, Director do Centro para a Segurança na Saúde da Johns Hopkins, disse-me no ano passado que não lhe parece que os benefícios para o desenvolvimento de vacinas se verifiquem na maioria dos casos. “Não vi nenhuma empresa de vacinas dizer que precisa de fazer esse trabalho para fazer vacinas”, apontou. “Não vi provas de que as informações que as pessoas procuram possam ser amplamente utilizadas neste campo”.

Além disso, existe um número inimaginável de variantes possíveis de um vírus, das quais os investigadores podem identificar apenas algumas. Mesmo se nos deparássemos com uma das maneiras em que um vírus pudesse sofrer uma mutação e tornar-se mortífero, milhares de outras podem escapar-nos. “É uma questão em aberto se os estudos de laboratório vão encontrar a mesma solução que a natureza encontraria”, disse-me o biólogo do MIT Kevin Esvelt, no ano passado. “Em que medida é que esses estudos podem realmente fazer previsões?” Neste preciso momento, essa ainda é uma questão em aberto.

E, mesmo no melhor dos casos, a utilidade deste trabalho seria bastante limitada. “É importante ter em mente que muitos países não possuem sequer qualquer mecanismo preparado – muito menos uma maneira de, em tempo real, identificar e reduzir ou eliminar os riscos à medida que as experiências e as novas tecnologias são concebidas”, disse-me Beth Cameron, vice presidente das políticas e programas biológicos mundiais da Iniciativa da Ameaça Nuclear.

Com riscos tão altos, muitos investigadores estão frustrados pelo governo dos EUA não ter sido mais transparente sobre quais foram as considerações que o levaram a financiar as investigações. É mesmo necessário estudar como tornar o H5N1, que causa um tipo de gripe aviária com uma taxa de mortalidade surpreendente, mais transmissível? Estarão implementadas medidas de precaução para dificultar a fuga do vírus do laboratório? Que benefícios se esperam das investigações e quais foram os riscos considerados pelos especialistas que aprovaram o trabalho?

“As pessoas que propõem o trabalho são virologistas altamente respeitados”, disse Inglesby. “Mas os sistemas de laboratório não são infalíveis e, mesmo nos maiores laboratórios do mundo, acontecem erros.” Que medidas estão implementadas para evitar isso? Irão ser publicados resultados potencialmente perigosos em todo o mundo, onde intervenientes sem escrúpulos possam seguir as instruções?

Essas são exactamente as perguntas a que o processo de avaliação deveria ter respondido, mas não o fez.

Às vezes, os  agentes patogénicos escapam do laboratório. Eis como isso acontece.

O motivo pelo qual o tema das investigações de ganho de função pode inspirar uma oposição tão acesa é porque os riscos podem ser muito elevados. Não é a primeira vez que agentes patogénicos já escaparam de laboratórios.

Considere-se a varíola, que já foi uma das doenças mais mortíferas.

Em 1977, o último caso de varíola foi diagnosticado na natureza. A vítima foi Ali Maow Maalin, da Somália. A Organização Mundial de Saúde rastreou todas as pessoas com as quais este teve contacto pessoal, para vacinar todos em risco e encontrar quem já pudesse ter contraído o vírus. Felizmente, não encontraram quem o tivesse contraído. Maalin recuperou e a varíola parecia ter acabado para sempre.

Aquele momento foi o fim de uma campanha de décadas para erradicar a varíola da face da Terra – uma doença infecciosa mortífera que matou cerca de 30 porcento daqueles que a contraíram. Cerca de 500 milhões de pessoas morreram de varíola no século antes desta ser aniquilada.

Mas em 1978, a doença voltou a aparecer – em Birmingham, Inglaterra. Janet Parker era uma fotógrafa na Escola de Medicina de Birmingham. Quando desenvolveu uma horrível erupção na pele, os médicos inicialmente desvalorizaram, pensando que era varicela. Afinal, todos sabiam que a varíola tinha sido expulsa do mundo, certo?

Parker piorou e foi internada no hospital, onde os testes determinaram que afinal tinha varíola. Morreu da doença algumas semanas depois.

Como é que apanhou uma doença que era suposto ter sido erradicada?

Acontece que o prédio em que Parker trabalhava também continha um laboratório de investigação, um dos poucos onde a varíola foi estudada por cientistas que tentavam contribuir para o esforço de erradicação. Alguns artigos científicos relataram que o laboratório tinha sido mal administrado, ignorando importantes medidas de precaução devido à urgência. (O médico que dirigia o laboratório suicidou-se logo após Parker ter sido diagnosticada). De alguma forma, a varíola escapou do laboratório para infectar um funcionário noutra parte do edifício. Por pura sorte e uma resposta rápida das autoridades de saúde, o que incluiu uma quarentena de mais de 300 pessoas, o erro mortífero não se transformou numa autêntica pandemia.

Em 2014, enquanto a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA fazia limpezas para uma mudança planeada para um novo escritório, foram encontradas centenas de frascos abandonados de amostras do vírus numa caixa de cartão no canto de um armazém refrigerado. Acontece que seis desses frascos eram de varíola. Ninguém estava a supervisioná-los; ninguém sabia que estavam aí. Poderiam estar aí desde os anos 60.

Cientistas em pânico colocaram os materiais numa caixa, selaram-na com fita adesiva transparente e levaram-na para o escritório de um supervisor. (Esta não é uma forma aprovada de manuseio de materiais biológicos perigosos). Mais tarde foi descoberto que a integridade de um frasco foi comprometida – felizmente, não foi um que contivesse um vírus mortífero.

Os incidentes de 1979 e 2014 chamaram a atenção porque envolviam a varíola, mas os incidentes de exposição não intencional a agentes biológicos controlados são na verdade bastante comuns. Centenas de incidentes ocorrem todos os anos, embora nem todos envolvam agentes patogénicos potencialmente causadores de pandemias.

Em 2014, um investigador contaminou acidentalmente um frasco de gripe aviária bastante inofensiva com uma estirpe muito mais mortífera. A gripe aviária mais mortífera foi depois enviada para o outro extremo do país, para um laboratório que não tinha autorização para lidar com um vírus tão perigoso, onde foi usada para experiências em galinhas.

O erro foi descoberto apenas quando os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças conduziram uma extensa investigação na sequência de um outro erro – a potencial exposição de 75 funcionários federais a antraz vivo, após um laboratório que deveria ter inactivado as amostras de antraz, ter acidentalmente preparado amostras activadas.

O programa Agentes e Toxinas Seleccionados do CCPD exige que “o roubo, a perda, a libertação que cause uma exposição profissional ou a libertação para fora de barreiras de biocontenção primárias” de agentes na sua lista de observação sejam relatados imediatamente. Entre 2005 e 2012, a agência recebeu 1059 relatórios de fugas – uma média de um incidente a cada par de dias. Aqui estão alguns exemplos:

  • Em 2008, um dispositivo de esterilização avariou e abriu-se inesperadamente, expondo a agentes patogénicos não revelados um trabalhador não vacinado que estava por perto.
  • Em 2009, numa nova instalação de bioinvestigação de alta segurança – classificada para lidar com o Ébola, a varíola e outros agentes patogénicos perigosos – teve uma falha nos chuveiros de descontaminação. A câmara de pressurização perdia pressão e a porta de voltar para o laboratório abria-se enquanto os cientistas se encostavam nela para tentar mantê-la fechada. Acabaram por chamar engenheiros civis para lidar manualmente com os chuveiros químicos.
  • Em 2011, uma trabalhadora de um laboratório que estudava estripes perigosas da gripe aviária não conseguiu tomar banho depois de um empreiteiro ter desligado a água acidentalmente. Esta removeu o seu equipamento de protecção e saiu sem tomar um banho de descontaminação. (Foi escoltada até outro edifício e tomou banho lá, mas os agentes patogénicos poderiam ter sido libertados entretanto).

Agora, a grande maioria desses erros nunca infecta ninguém. E embora 1059 seja um número surpreendente de acidentes, na verdade reflecte uma taxa bastante baixa de acidentes – trabalhar num laboratório de agentes biológicos controlado é seguro em comparação com muitas ocupações, como o transporte de cargas ou a pesca.

Mas um acidente de camião ou na pesca irá, na pior das hipóteses, matar algumas dezenas de pessoas, enquanto um acidente com um agente patogénico pandémico poderá potencialmente matar alguns milhões. Considerando os riscos envolvidos e os piores cenários, é difícil olhar para esses números e concluir que as nossas medidas de precaução contra desastres são suficientes.

Revendo os incidentes, parece que há muitos tipos de falhas diferentes – avarias nas máquinas que fazem parte do processo de contenção; a regulamentação que não é suficiente ou não é cumprida. O erro humano que leva a que sejam manipulados vírus vivos, em vez de mortos.

Agora imaginemos esse tipo de erro a envolver vírus potenciados por meio de investigações de ganho de função. “Se uma nova estirpe potenciada de gripe escapasse de um laboratório e levasse a uma pandemia, depois causando milhões de mortes seria um sério risco”, disse-me, no ano passado, Marc Lipsitch, professor de epidemiologia da Universidade de Harvard.

A análise de custo-benefício para agentes patogénicos que podem matar as pessoas expostas ou umas quantas outras é muito diferente da análise de custo-benefício para agentes patogénicos que podem causar uma pandemia – mas os nossos procedimentos actuais não levam isso em consideração. Como resultado, permitir investigações de ganho de função significa correr riscos inaceitáveis com milhões de vidas. É boa hora para se repensar isso.


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 1 de Maio de 2020.

Tradução de Luis Campos. Revisão de José Oliveira.

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