O preço da carne à base de plantas da Impossible Foods acabou de se aproximar do preço da carne normal

Por Kelsey Piper (Vox)

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Carne à base de plantas mais barata? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Nos últimos anos, os produtos de carne sem carne estão em ascensão entre os consumidores. Mas o mercado de carne sem carne ainda é apenas cerca de 1% do mercado da carne. Uma das maiores razões para isso é: os produtos de carne à base de plantas são consideravelmente mais caros.

Há sinais, no entanto, de que isso está mudando. Os produtos da Impossible Foods nas prateleiras das mercearias devem ficar cerca de 20% mais baratos nas próximas semanas, anunciou a empresa na terça-feira de manhã. A empresa vai sugerir aos pequenos vendedores que os preços caiam para 5,49 dólares (de 6,99 dólares) para uma embalagem de dois hambúrgueres e 6,99 dólares (de 8,99 dólares) para uma embalagem de 340g de carne moída da Impossible Foods nos EUA (os preços reais variam de acordo com o local e o vendedor).

O anúncio segue um corte de preços similar que a Impossible Foods fez para distribuidoras de restaurantes no início do ano, e é a mais recente tentativa dos fabricantes de carne à base de plantas de reduzir a grande vantagem de preço da carne.

A pandemia só veio sublinhar a importância de diminuir essa diferença de preço e tornar a carne sem carne uma alternativa popular à carne produzida na pecuária industrial. Os matadouros, há muito notórios por suas péssimas condições de trabalho, têm sido pontos críticos para a propagação do coronavírus, em alguns casos porque estes responderam à crise sanitária dizendo aos funcionários para não tirarem licença médica por nenhum motivo. E também temos os problemas de maior escala que a pandemia lembrou ao mundo: que é um risco para a saúde pública criar animais para alimentação em condições de aglomeração que podem incubar e propagar rapidamente doenças, e há o risco das nossas práticas na pecuária iniciarem a próxima pandemia global.

À luz desses problemas, os consumidores têm demonstrado maior interesse em produtos à base de plantas. Cada vez mais empresas de alimentos tradicionais têm lançado marcas de carne à base de plantas, mais e mais restaurantes de fast food e de refeições comuns têm acrescentado estas opções no cardápio, e os principais atores neste campo têm ganho bastante dinheiro.

Tendo vencido a primeira batalha – conseguir que os consumidores se interessem o suficiente para experimentar alimentos à base de plantas, e os investidores se interessem o suficiente para financiá-los – as empresas de carne de origem vegetal estão apostando em um desafio maior: conseguir produtos de carne à base de plantas tão baratos quanto os produtos de carne animal. A indústria da carne à base de plantas tem que ser maior para conseguir competir com o preço dos produtos de animais – e conseguir competir no preço é uma componente chave para fazer crescer essa indústria.  

450 gr de hambúrgueres de carne bovina da pecuária industrial no Walmart perto da minha casa custa apenas 2,80 dólares. Para dar a cada pessoa acesso a alternativas à base de plantas e para haver uma mudança significativa afastada da pecuária industrial, as alternativas à base de plantas têm que ser igualmente baratas – sem usar nenhum dos atalhos da indústria da carne.

O preço da carne à base de plantas ainda está muito longe de alcançar os preços extremamente baixos da carne animal. Mas o corte de 20% da Impossible Foods é mais um passo para tornar a carne à base de plantas uma alternativa confiável à carne animal da pecuária industrial.

E por que é que a carne é assim tão barata?

A carne na América é barata de uma forma chocante e sem precedentes.

O preço médio de alternativas para a carne vendidas na seção de venda de carne em uma loja nos EUA no ano passado foi de 9,87 dólares por 450gr. Qual o preço médio da carne de vaca? 4,82 dólares por 450gr. O frango é ainda mais barato, a 2,33 dólares por 450gr.

Essa é uma diferença grande, e pode explicar muito bem por que mesmo quando o interesse do consumidor aumenta e o sabor das carnes à base de plantas se aproxima cada vez mais do perfil do sabor da carne de animais, as carnes à base de plantas ainda só representam uma parte muito pequena das vendas.

“A indústria animal otimizou seus processos ao longo de um século”, disse-me Dennis Woodside, o presidente da Impossible Foods.

“As formas mais processadas e baratas de frango são absurdamente baratas, em relação aos padrões históricos e em relação a outros produtos alimentícios no mercado”, disse-me, no verão passado, Lewis Bollard, que pesquisa o bem-estar dos animais da pecuária no Open Philanthropy Project. “A indústria dos frangos conseguiu cortar várias despesas, ela não paga suas contas ambientais e não paga por muitos dos perigos que causa para a saúde pública. Eles conseguiram produzir um produto que é apenas artificialmente barato e com o qual é difícil de se competir”.

Mas a otimização é apenas uma parte da história. A outra é que a indústria da carne acumulou muito poder político que aproveitou para tornar a carne mais barata – e para fazer com que os americanos a comessem muito.

A pecuária é fortemente subsidiada pelo governo federal. No entanto, nem Bollard nem Zak Weston, um pesquisador do Good Food Institute, pensam que os subsídios monetários tenham sido a principal razão pela qual a carne ficou tão barata.

Mais importantes são as formas invisíveis de subsídio como não fazer valer os direitos dos trabalhadores, isentar a pecuária industrial das leis de crueldade contra os animais, não exigir que as empresas se envolvam na limpeza ambiental e não restringir práticas de risco – como o uso excessivo de antibióticos – que impõem custos ao mundo inteiro.

“Não se trata de a carne à base de plantas ser estranhamente cara ou necessitar de mão-de-obra intensiva ou algo assim”, Weston me disse anteriormente. “A indústria de proteína animal passou décadas a espremer eficiências impressionantes de cada parte do programa. A carne animal consegue externalizar muitos de seus pontos negativos – como cuidados com a saúde, a ecologia, o bem-estar dos trabalhadores e o bem-estar animal”.

Ou seja, se a indústria da carne animal fosse responsabilizada pelos custos que seus produtos e o seu funcionamento infligem à sociedade, a carne seria muito mais cara.

A carne à base de plantas está ficando mais barata, mas ainda não chega ao preço da carne animal

O corte de 20% da Impossible Foods é alto em termos absolutos, mas a paridade de preços ainda está muito longe de acontecer.

No entanto, os especialistas do setor estão otimistas.

“Desde o início que estávamos a pensar em reduzir custos e chegar à estrutura de custos da carne moída”, disse-me anteriormente David Lee, diretor financeiro da Impossible Foods. “Sabíamos que se tivéssemos o melhor produto pelo mesmo preço, então os consumidores escolheriam com seus estômagos”.

Nos últimos anos, já fizeram progressos. No ano passado, a Impossible Foods reduziu os preços para os restaurantes em 15%. Agora, estão cortando em 20% os preços recomendados para o pequeno comércio. As empresas estavam receosas de compartilhar comigo números específicos sobre seus custos, mas com base nos arquivos da Comissão de Segurança e Câmbio (Securities and Exchange Commission), Bollard estima que o custo de produção da Beyond Meat caiu de 4,50 dólares por 450g em meados de 2009 para 3,50 dólares por 450g em meados de 2020.

Em alguns pontos de venda, tais como Dunkin’, o sanduíche de salsicha da Beyond, vende-se exatamente pelo mesmo preço que o sanduíche de salsicha de carne. O gestor do Beyond Meat, Charles Muth, diz que os produtos da Beyond se saem muito melhor quando são apresentados com o mesmo preço que os de carne.

“O que gostamos de dizer sobre isso”, disse-me Muth no ano passado, “é que estamos mudando a maneira como os consumidores e compradores pensam sobre o que comem. Não queremos que o preço seja uma barreira quando eles estiverem escolhendo. Gostaríamos de retirar a questão do preço dessa conversa da melhor forma que pudermos”.

Não há um único segredo brilhante para tornar mais barato algo produzido em massa. Em vez disso, os especialistas me disseram, é uma questão de fazer com que cada elemento da cadeia de fornecimento, do processo de fabricação e do processo de distribuição funcione um pouco melhor.

Quando uma empresa é grande o suficiente, ela pode fazer compras de ingredientes em escala, obter equipamentos caros que só valem a pena se forem usados para fazer um número enorme de produtos, ter centros de distribuição em muitas partes diferentes do mundo para minimizar os custos de transporte e negociar melhores acordos para suas matérias-primas. Existe o potencial para um ciclo virtuoso no qual custos mais baixos recrutam mais consumidores, o que possibilita uma maior poupança nos custos.

Foram essas poupanças face à escala que impulsionaram os últimos cortes de preços da Impossible Foods. “Ao longo do último ano, mais do que duplicamos a nossa produção”, disse Woodside. “Quanto mais vendemos, melhor utilizamos nossas linhas de produção, melhor são os preços que conseguimos para os nossos produtos e mais fornecedores podemos trazer para o ecossistema das carnes à base de plantas”.

E embora o objetivo final de cada especialista em alimentos à base de plantas com quem falei seja a paridade de preços com a carne animal, os cortes nos preços fazem uma grande diferença até mesmo antes de chegarem a esse ponto. Carne à base de plantas mais barata significa mais opções para mais consumidores e mais restaurantes. Também significa menos demanda por produtos animais em um momento em que os preços estão altos, o bem-estar animal é ignorado e o Congresso está investigando os surtos de coronavírus nos matadouros. Há um longo caminho pela frente, mas um corte de 20% nos preços é um avanço substancial.  


Publicado originalmente por Kelsey Piper na Vox, a 2 de Fevereiro de 2021.

Tradução de Ligea Hoki. Revisão de José Oliveira.

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