Carrick Flynn é o candidato do altruísmo eficaz, apoiado por um bilionário

Por Miranda Dixon-Luinenburg e Dylan Matthews (Vox, Future Perfect)

AE na política.fx

Altruísmo eficaz, na política? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Este ano, o Oregon ganhou um novo distrito eleitoral, o sexto distrito do estado, e a corrida competitiva para a eleição captou a atenção nacional. Isto deve-se em grande parte à presença de um candidato, um advogado e activista anteriormente desconhecido chamado Carrick Flynn, que tem experiência no trabalho de desenvolvimento internacional. E essa atenção deve-se, em grande parte, aos milhões de dólares que Flynn atraiu de uma fonte controversa: o jovem bilionário da criptomoeda, Sam Bankman-Fried.

Bankman-Fried, que fundou a FTX câmbio de criptomoeda, comprometeu-se publicamente a doar 99 por cento da sua riqueza durante a sua vida e surgiu como um dos maiores doadores na comunidade do altruísmo eficaz (AE), com um interesse particular na protecção contra pandemias. Isso levou a um papel crescente no financiamento político — ele foi um dos maiores apoiantes da campanha presidencial de Joe Biden — e é o principal doador de um comité de acção política que doou 10 milhões de dólares à campanha de Flynn.

Esse dinheiro externo para a campanha de Flynn atraiu fortes críticas dos seus oponentes na corrida eleitoral, embora Flynn declare que não se encontrou, nem sequer falou com Bankman-Fried. A sua ligação é principalmente um envolvimento comum no altruísmo eficaz, um movimento filosófico e social que surgiu da Universidade de Oxford no final da primeira década de 2000, um movimento que contribuiu para impulsionar a decisão de Flynn de concorrer ao Congresso e que poderia ajudar a orientar o seu trabalho no caso de vir a ser eleito.

A afirmação básica do AE (que também influencia o trabalho aqui no Future Perfect) é que o raciocínio baseado em provas pode ser usado para descobrir como dar prioridade a recursos limitados e encontrar as formas mais eficientes de melhorar a vida do maior número possível de pessoas e animais. Isto inclui encontrar formas de mitigar ou de prevenir riscos catastróficos para o futuro da humanidade, uma área que permanece cronicamente subfinanciada e negligenciada pelos governos.

As pandemias são precisamente um risco assim negligenciado, e evitá-las tornou-se uma grande preocupação do AE, partilhada por Flynn. A preparação para pandemias é uma prioridade de longa data para ele — Flynn começou a trabalhar na comunidade de biossegurança em 2015, e quando a Covid-19 nos atingiu, ele abandonou imediatamente as suas outras prioridades para se concentrar nesta. Ficou frustrado por, mesmo durante uma pandemia mortal, o Congresso ter mostrado indiferença, na melhor das hipóteses, face às propostas de peritos sobre prevenção e diz que espera poder desempenhar um papel no Congresso como promotor deste assunto.

Caso Flynn ganhe as primárias no seu Partido Democrata, a 17 de Maio, e depois as eleições gerais no final deste ano, será um teste para saber se as ideias do AE — e o dinheiro — podem ser eficazes no governo, e não apenas na filantropia. Flynn falou por Zoom com Miranda Dixon-Luinenburg e Dylan Matthews da Vox, na semana passada, sobre a sua campanha e as suas prioridades. (Declaração de intenções: a Miranda é uma ex-colega da esposa de Flynn, Kathryn Mecrow-Flynn). Segue-se uma transcrição ligeiramente editada.

Miranda Dixon-Luinenburg

Falou da preparação para pandemias como sendo uma grande motivação para a sua campanha. Fale-nos um pouco sobre o seu trabalho anterior nessa área. 

Carrick Flynn

Envolvi-me na prevenção de pandemias, como uma área, por volta de 2015, quando me mudei para Oxford. Estava a trabalhar com Andrew Snyder-Beattie, que é agora o responsável do programa de biossegurança no Open Philanthropy Project.

Depois mudei-me para Georgetown, onde estava a trabalhar em semicondutores e algumas coisas ligadas à IA. Durante esse tempo, ainda estava um pouco envolvido [no biorrisco], mas basicamente desisti disso. Depois, quando a Covid surgiu, Andrew regressou e disse-me: “Carrick, é este o momento, quero o meu Esquadrão Classe A. Volta. Tens de aceitar”. Por isso saí de Georgetown, voltei e tentei o meu melhor no [trabalho de preparação para pandemias].

Foi constituída uma equipa muito boa. Pegámos nas recomendações técnicas de cerca de 145 dos melhores especialistas mundiais nestas áreas, para as resumir em componentes de política acessíveis. Juntamos-lhe um orçamento. E depois procurámos convencer a Casa Branca e o Congresso a adoptá-lo. A Casa Branca aproveitou logo a oportunidade — eles adoraram-no. É por isso que está no plano de prevenção de pandemias de Biden. Alteraram-no um pouco, mas o essencial ainda lá está.

Depois fomos tentar convencer o Congresso. Ninguém se opôs a ele, mas não encontrámos quem o defendesse. Estavam estranhamente desmotivados. Contratámos muitos lobistas, pessoas muito sérias que fazem isto profissionalmente para a indústria dos cuidados de saúde, e tentámos fazer com que passasse. Só que não foi aprovado.

Antes de concorrer ao Congresso, muitas pessoas sugeriram que eu me candidatasse, por muitas razões. Para mim, porém, o que realmente estava na minha mente era apenas saber [que esse projecto de lei] está lá. É um projecto de lei tão bom. Provavelmente iria evitar praticamente qualquer pandemia. É caro, mas é várias ordens de magnitude mais barato do que o custo de uma pandemia, para não mencionar o custo horripilante em vidas. E parece que precisava mesmo de alguém que o promovesse.

Dylan Matthews 

Tenho curiosidade em saber como se fala com os eleitores de questões como a preparação para uma pandemia, ou como o futuro a longo termo. A minha experiência das eleições para a Câmara dos Representantes é que as pessoas falam normalmente acerca da educação dos seus filhos, dos cuidados de saúde e acerca dessas coisas materiais imediatas. Como é que justifica que isso vale o tempo que terá de dispensar, e que isso faz parte daquilo que significa representá-los? 

Carrick Flynn 

A minha primeira prioridade é a prevenção de pandemias. Há uma janela aberta para isso que já está a fechar-se e precisamos de fazer com que passe o mais rapidamente possível. Portanto, se eu for eleito, a primeira coisa que vou fazer é dar tudo por tudo para que isso passe.

Em termos mais gerais, penso que o crescimento económico, a abordagem dos estudos de progresso — assegurar que estamos a investir em boa investigação, que estamos a recuperar bons empregos, que não estamos a ter leis e regulamentos que estejam a tornar as pessoas artificialmente pobres ou a resultar em pessoas sem habitação — estas coisas são realmente muito importantes. 

Além disso, muitas das preocupações tecnológicas também se fundem com preocupações económicas em termos de automatização: o desemprego daí resultante, mas também as oportunidades, ou seja, se conseguirmos obter estas tecnologias fantásticas, haverá indústrias totalmente novas. Se tivermos um bom crescimento económico e indústrias totalmente novas, então podemos ultrapassar a perigosa lacuna na qual dependemos dos combustíveis fósseis. Podia-se chegar às tecnologias limpas; não temos de fazer nenhum tipo de decrescimento. Podemos chegar a um ponto em que podemos realmente começar a capturar o carbono.

Estou no Oregon. Tivemos fogos florestais. Temos inundações a toda a hora por causa dos danos ambientais. Quando eu tinha nove anos, fiquei sem casa devido a uma inundação durante cerca de sete meses. A minha mãe ficou sem casa, 11 anos depois, quando eu estava na faculdade, por causa de outra inundação, junto ao mesmo rio. Ambas foram inundações de “500 anos”. Trata-se de um problema climático grave. Concentrarmo-nos nessa estabilidade, bem como na prosperidade, é algo que todos aprovam e que suscita a atenção de todos.

Se falar um pouco com as pessoas sobre o que lhes interessa, quase toda a gente começa a convergir para algo como os seus filhos, ou os seus netos. Penso que quando reflectem um pouco sobre o assunto, é isso que realmente lhes interessa. E depois as questões que mais lhes ocorrem tornam-se naquelas que realmente mais lhes importa. Penso que respeitar isso e envolver-me nisso e tentar fazer com que isso resulte é algo que é muito importante para mim.

Dylan Matthews 

Então, nós os três a ter esta conversa fazemos todos parte do mundo do altruísmo eficaz. Todos nós falamos esse vernáculo. Por isso, todos nós lemos relatórios de causas ao longo dos anos, fazendo a defesa de diferentes tipos de intervenção para tornar o mundo num lugar melhor.

O que o convenceu de que esta é realmente a coisa de maior impacto que poderia estar a fazer, entre as muitas maneiras através das quais poderia estar a ter impacto? Pensa que é importante ter alguém com uma sensibilidade AE no Congresso?

Carrick Flynn 

Penso que é realmente importante ter pessoas que estejam muito empenhadas em concentrar-se numa priorização cuidadosa e em abordagens baseadas em provas cuidadosas. Não tenho a certeza de que isso signifique necessariamente que se tenha de ser mesmo do AE.

Quanto a mim em particular — a ideia, na verdade, não foi minha. Tinha voltado para o Oregon porque podia trabalhar a partir de casa, e não queria continuar a viver em Washington, DC. Depois abriu-se um novo distrito congressional, de certa maneira, à minha frente. E todo o tipo de pessoas de todas as áreas diferentes da minha vida dizia: “Tens de te candidatar. Tens de te candidatar.Tens de te candidatar”. E eu não sou um político. Mas um número suficiente de pessoas disse-me isso e eu comecei a perguntar a outras pessoas, pessoas que eu realmente respeito, se isto seria algo que eu deveria considerar. Muitas destas pessoas estão muito interessadas na forma de pensar altruísta eficaz

Eu recebi um “sim” tão forte e retumbante, e eles teriam razões para pensar que isto era bom. Isso ajudou muito, falar com as pessoas em cuja opinião eu realmente confio.

Uma das razões pelas quais a questão da prevenção de pandemias foi útil é que eu penso que a prevenção de pandemias vale literalmente biliões de dólares [Br. triliões de dólares] no valor esperado que se obtêm caso se consiga fazer passar esta proposta. As pandemias são tão más e há razões para pensar, com as alterações climáticas e os avanços tecnológicos, que isto vai continuar a acontecer e a ficar pior. O seu custo é tão baixo. Se eu fosse eleito e tivesse alguma pequena hipótese de conseguir passar esta proposta, o valor disso seria tudo, compreende? Seria certamente o suficiente para me fazer superar a relutância pessoal.

Miranda Dixon-Luinenburg

A mentalidade altruísta eficaz é muito global: tenta ajudar todos os seres humanos, todos os animais, pessoas do futuro e que ainda não nasceram. Muito do seu trabalho anterior tem estado relacionado com problemas à escala global. Mas no Congresso, também representaria 700 000 pessoas específicas e as suas preocupações específicas, e teria a responsabilidade de lhes dar atenção, e às suas questões locais. Tenho curiosidade em saber como pensa fazer essa mudança.

Carrick Flynn 

Para mim, não me parece uma mudança. O meu objectivo é sempre tentar e fazer uma grande quantidade de bem. E isso significa quase sempre que se tem algum domínio em que se está a trabalhar, e que se está a tentar fazer uma grande quantidade de bem nesse domínio.

Quando estive no Quénia, estava realmente a tentar ajudar as crianças daquela escola e as mulheres daquela maternidade. Não é pela exclusão de todos os outros, é só que, este é o meu trabalho agora. Quando estive na Índia, estava a tentar ajudar as crianças rurais a acederem a programas de saúde, a obterem fortificações nutricionais, a realimentação face à fome, a vacinação, etc. Na minha mente, estas pessoas eram os meus eleitores, e eu estava completamente empenhado nisso.

Agora estou no Oregon e estou em casa. Tem muito que se lhe diga o facto de se estar em casa. Tenho esta oportunidade de ajudar as pessoas aqui e ajudá-las a realizar as coisas com que se preocupam — face aos seus filhos e ao futuro dos seus netos — e de ajudar a economia aqui, mas não apenas aqui. Isto vai ajudar todos os EUA, isto pode ter excelentes efeitos a nível global. Não parece haver qualquer tipo de tensão. Parece sempre uma continuação do objectivo e da abordagem.

Dylan Matthews 

O Comité de Acção Política de Sam Bankman-Fried já gastou mais de 10 milhões de dólares nesta corrida eleitoral, o que é mais do que qualquer outro grupo independente gastou em qualquer outra eleição primária do Congresso. Os seus críticos acusaram Sam Bankman-Fried mais ou menos de tentar comprar a corrida eleitoral em seu favor. Queria dar-lhe uma oportunidade de responder a isso dando a sua interpretação do envolvimento dele. 

Carrick Flynn 

Primeiro, nunca o conheci, nunca falei com ele. Não tenho informações que os outros não tenham. Na verdade, não tenho qualquer informação que não seja pública, com uma excepção, acho eu, que é a informação que penso que as outras pessoas pensam que têm, que é pensarem que estou envolvido na criptomoeda ou algo desse género. Não é esse o caso. Eu não estou envolvido na criptomoeda. Não sei muito sobre isso. Nunca analisei os regulamentos sobre isso. Não penso que seja uma prioridade.

Dito isto, a minha opinião é especulativa, mas o que direi é que me parece que Sam Bankman-Fried é alguém que quer legitimamente evitar que as pandemias se repitam. Eu estou de acordo. Adoro isso, grande objectivo. Vamos a isso. Percebo porque é que ele gostaria de me apoiar nesta tarefa, já que fiz disto a minha primeira prioridade e já tenho um historial nesta matéria. Ele também apoiou outros candidatos e congressistas já eleitos que têm boas políticas de prevenção de pandemias, com menos dinheiro, mas percebo por que razão iria querer dar mais à pessoa com mais experiência.

Além disso, a corrida eleitoral é bastante renhida. Provavelmente estou a ganhar, mas não por muito. Por isso, talvez queira investir mais fundos nela.

Em termos dos problemas com o financiamento de campanhas em geral, não tinha conhecimento em grande detalhe. Na verdade, não sabia como funcionava um Comité de Acção Política, e não sabia o que se passava quando de repente havia pessoas a fazer anúncios sobre mim. Entrei na campanha sem saber como funcionava.

Não parece bem. Ao ver-se de perto, não se pensa: “Oh, este sistema funciona mesmo!” É mais do tipo: “Oh, isto é profundamente errado”. E há outras formas [do sistema] também estar errado. Os indivíduos podem autofinanciar-se. Isso é um problema porque empurra pessoas pobres como eu para fora da corrida. (Esse é outro mito. Ganhei 40 000 dólares no ano passado. Eu não sou o candidato rico, e dei muito desse dinheiro à caridade). Temos coisas em que há uma máquina do partido local que consagra um sucessor e depois eles têm este aparelho à sua volta. Nenhuma destas coisas é boa. 

Se for eleito, tenho toda a intenção de apoiar a reforma do financiamento de campanhas. Definitivamente, apoiaria de imediato qualquer lei desse tipo. Estou satisfeito que dentro deste mau sistema, tudo o que foi dito sobre mim, quer por mim, quer por outros apoiantes em meu nome, tenha sido verdade e tenha sido positivo. Não tem havido ataques contra ninguém. Tem sido inteiramente: “Aqui estão as posições políticas, e aqui estão as verdadeiras prioridades”.

Quanto aos grupos de interesse especial, não gosto disso como instituição. Mas possivelmente o melhor que poderia imaginar seria um para “acabar com as pandemias”.

Dylan Matthews 

Para que conste, qual é a sua opinião sobre a regulamentação da criptomoeda? Tem sequer alguma opinião sobre a regulamentação da criptomoeda? Essa é a outra acusação frequente, de que é um testa de ferro para que o Bankman-Fried consiga fazer passar a sua regulamentação preferida. 

Carrick Flynn 

Sim, também ouvi dizer isso. Não sei o suficiente sobre criptomoeda para saber o suficiente sobre a regulamentação. Depois de ter sido acusado dessas coisas, comecei a recuar e a tentar ler sobre o assunto. Era denso, não me interessava muito. Se for congressista e isto surgir, vou empenhar-me a sério, vou aprender sobre este tópico e vou realmente descobrir como votar. Não o farei com base na especulação. Não quero gastar o meu tempo nisso, não acho que seja assim tão importante.

Como heurística, eu decidiria da mesma forma como se deve decidir sobre a regulamentação financeira normal. Irá roubar pessoas da classe trabalhadora e da classe média? Será que isto é algo que permite uma grande exploração? Se for, tem de se regulamentar e, caso contrário, já se sabe, força. Os mercados financeiros são necessários. É disso que se trata. Mas em termos do que isso realmente significa para a criptomoeda, não faço a menor ideia.


Publicado originalmente por Por Miranda Dixon-Luinenburg e Dylan Matthews na Vox, Future Perfect, a 14 de Maio de 2022. 

Tradução de Rosa Costa e José Oliveira.

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