Por Stefan Shaw e Louise Kihlberg (Giving What We Can)
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Terramoto na Turquia e na Síria, como ajudar? (Arte digital: José Oliveira | Fotografia: Spencer Davis, Nadiia Ganzhyi e Dave Goudreau)
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As notícias que nos chegam actualmente da Síria e da Turquia são devastadoras. O número de vítimas vai aumentando quase hora a hora à medida que é actualizado. À altura em que escrevemos, já há mais de 20 000 mortes relatadas. As imagens são ainda piores, nomeadamente as fotografias de socorristas a resgatarem dos escombros crianças aflitas e a sangrar. E talvez o pior de tudo, imaginar pessoas ainda soterradas por ruínas a pedirem ajuda, enquanto os seus entes queridos tentam alcançá-las com as suas próprias mãos.
Com as imagens e as notícias, o sofrimento humano chega-nos sem quaisquer filtros. O que está a acontecer ali vai além da nossa imaginação.
Muitas pessoas em todo o mundo querem ajudar e estão à procura de formas de apoiar as operações de salvamento através de donativos.
Os desafios da ajuda em caso de catástrofes
A experiência mostra que as catástrofes mais graves, acompanhadas de imagens de partir o coração, despertam em muitas pessoas o desejo de ajudar. Em países de todo o mundo, isso pode levar a enormes quantidades de donativos.
No entanto, um volume muito elevado de donativos, desencadeados por uma grave catástrofe, pode por vezes levar a que organizações individuais recebam mais dinheiro e bens do que aqueles a que possam, efectivamente, dar bom uso.
O terrível terramoto no Haiti, em 2010, é um exemplo disso mesmo. A esmagadora resposta de apoio mundial significou que milhares de milhões [BR. bilhões] de fundos de ajuda tiveram de ser gastos no Haiti, mesmo quando já não havia qualquer utilidade significativa para o dinheiro. Estas organizações são muitas vezes legalmente obrigadas a utilizar os donativos para os fins definidos pelo doador — mesmo que isso já não tenha qualquer utilidade para os beneficiários.
As catástrofes “silenciosas”
Ao mesmo tempo que ocorrem estes acontecimentos actualmente na Turquia e na Síria, outras catástrofes “silenciosas” estão a ocorrer em todo o mundo. Ao contrário dos terramotos, estas não aparecem de repente — estiveram sempre presentes. Raramente aparecem nas notícias internacionais porque falta uma perspectiva digna de notícia e faltam imagens poderosas que captem a atenção.
Uma destas catástrofes silenciosas são as crianças pequenas que morrem diariamente de doenças evitáveis. Mais de 1300 crianças morrem diariamente só devido à malária, o que pode ser prevenido através de intervenções simples como redes mosquiteiras. Estas mortes são como um terramoto que ocorre todos os dias. E porque este sofrimento, em grande parte, passa despercebido aos olhos do mundo, os donativos neste tipo de intervenções são menores — embora a vida de uma criança possa ser salva neste caso com apenas alguns milhares de dólares, e muitas mais crianças possam ser salvas da dor e do sofrimento.
Mas também se pode olhar para isto de forma diferente: Precisamente porque a elevada taxa de mortalidade infantil devido à malária não é objecto de notícias contínuas e a quantidade de donativos é baixa, com os seus donativos individuais neste domínio, uma pessoa pode alcançar grandes resultados.
É por isso que a Giving What We Can continua a recomendar as suas instituições de caridade altamente qualificadas, mesmo à luz das actuais catástrofes. A verdade brutal e desoladora é que não temos recursos suficientes para ajudar todos. Acreditamos que a nível individual temos mais probabilidades de fazer um bem maior ao doarmos a estas catástrofes “silenciosas” permanentes.
O que devemos considerar ao decidir doar para a crise na Turquia e na Síria
É compreensível que desejemos fortemente contribuir para crises graves, mesmo quando não é aí que o dinheiro poderia fazer a diferença mais significativa.
Se optar por doar à situação na Turquia e na Síria, aqui estão algumas dicas gerais para garantir que o seu dinheiro tenha o maior alcance.
Apoie uma organização com competências e experiência.
Antes de doar o seu dinheiro a uma instituição de caridade, deve pesquisar para assegurar que esta está a desenvolver um esforço bem coordenado com uma abordagem e experiência profissionais. Se não conseguir encontrar uma avaliação independente por parte de terceiros, considere fazer um donativo a uma instituição de caridade com melhores provas que certifiquem o seu trabalho.
Aja eficazmente, não de forma reactiva.
Aja de forma ponderada em vez de tomar uma decisão precipitada. Em vez de doar às organizações que o contactam mais rapidamente através de campanhas de divulgação, dedique algum tempo a encontrar organizações com um elevado nível de competência e com o potencial mais significativo para fazer a diferença com as suas contribuições.
Certifique-se que a sua contribuição será utilizada onde for mais necessária — mesmo que não seja para esta crise específica.
Crises que recebem muita atenção podem levar a uma abundância de doações da caridade, o que pode significar que o dinheiro não seja o factor limitativo na quantidade de ajuda que pode ser dada (em vez disso, pode haver outros factores operacionais). Se não reservar o seu donativo para uma catástrofe específica, a organização pode escolher onde é que o seu dinheiro pode fazer a diferença mais significativa. A experiência mostra que por vezes o dinheiro fica por utilizar (como no Haiti em 2010).
Escolha instituições de caridade com elevada transparência.
Assegure-se de que o seu donativo será utilizado eficazmente, analisando a forma como a organização relata os seus esforços e os seus resultados.
Agradecemos ao Stefan Shaw e à Louise Kihlberg pela autoria deste post.
Stefan Shaw é o Fundador e Chefe de Filantropia da Effektiv Spenden.
Louise Kihlberg trabalha com comunicações para Ge Effektivt na Suécia.
Pode consultar o artigo de Stefan em alemão e o artigo de Louise em sueco.
Publicado originalmente por Stefan Shaw e Louise Kihlberg no blog da Giving What We Can, consultado a 10 de Fevereiro de 2023.
Tradução de José Oliveira.
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