O Valor do Dinheiro

Imagens de Eloise Schieferdecker thelifeyoucansave.org

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No início deste ano, passei alguns meses trabalhando para uma ONG na Uganda.  A maioria das pessoas com quem trabalhei vivia na pobreza extrema (utilizando a definição do Banco Mundial de 1,25 dólares por dia ou menos). Não era incomum para mim encontrar pessoas que comiam apenas uma refeição por dia, crianças vestindo roupas esfarrapadas ou pessoas que tivessem que arrastar baldes de 10 litros de água para ferver e ter algo para beber.

Como psicóloga, eu estava lá para ajudar a estabelecer um programa de saúde mental na ONG. Enquanto eu passava a maior parte do meu tempo ensinando e treinando, eu também fui convidada para dar ‘apoio’ a vários refugiados que estavam passando por estresse pós-traumático (‘apoio’ está entre aspas porque eu não iria estar lá o tempo suficiente para fazer uma terapia centrada no trauma com responsabilidade, mas pelo menos queria honrar o pedido para me reunir com eles e dar-lhes dicas sobre como lidar, tanto quando possível, com questões de saúde mental).

As histórias que ouvi foram profundamente perturbadoras: mulheres sequestradas, espancadas e violentamente estupradas; mulheres que contraíram HIV por causa do estupro; pessoas assassinadas por suspeita de filiações políticas que nunca tiveram; crianças abandonadas pelos pais apenas para serem abusadas sem piedade por aqueles que os levaram; pais vendendo os seus filhos por 100 dólares para serem crianças soldado.

Com o tempo logo comecei a notar um certo padrão. Enquanto as pessoas com quem eu me encontrava falavam muito abertamente sobre suas histórias de trauma, elas não gastavam muito tempo se concentrando nelas. Em vez disso, o que parecia consumi-las eram os fatores de tensão diários de não ter comida suficiente, não ter acesso a cuidados médicos e não poder pagar as mensalidades escolares de seus filhos. Em um certo ponto da conversa eu costumava dizer: “Enquanto conselheira, psicóloga, como posso eu ajudá-lo melhor enquanto estiver aqui?”  Eu estava esperando respostas como: “Você poderia me ensinar sobre estresse pós-traumático?” ou, “Como posso me livrar dos meus pesadelos?”  Em vez disso, era muito mais comum eles responderem com, “Eu preciso de 5.000 xelins (2 dólares) para ir ao médico”, ou “Eu preciso pagar as mensalidades escolares dos meus filhos”.  Inicialmente, eu tentava redirecioná-los, dizendo: “Sim, eu entendo que essas coisas são muito importantes para você. Mas eu sou uma psicóloga; Eu falo com as pessoas sobre seus pensamentos e sentimentos…” Mas cada vez que esta resposta era recebida com confusão ou decepção, eu percebia que havia algo errado na minha abordagem.

Embora o estranhamento tenha sido certamente causado em parte pelas diferenças entre a Uganda e o aconselhamento de estilo ocidental, para mim a lição muito maior foi que eu estava a encorajá-los a articular objetivos que estavam além da sua capacidade de imaginação presente. Lembrei-me da pirâmide de Maslow, que identifica cinco níveis diferentes das necessidades humanas, com necessidades básicas como a alimentação e a segurança na parte inferior, e as necessidades de nível superior (incluindo as que normalmente são abordadas em psicoterapia ocidental), como relacionamentos e realização pessoal no topo da pirâmide. A implicação é que só se pode trabalhar para satisfazer as necessidades em um determinado nível desde que as necessidades do nível abaixo tenham sido satisfeitas. “Claro”, Eu me lembro de pensar, “eles precisam comer, tirar os estilhaços de seu ombro e colocar o filho na escola, antes que tenham o luxo de trabalhar em qualquer outro objetivo.”

piramide de maslow

Em ‘Quanto custa Salvar uma Vida‘, Peter Singer discutiu como a nossa vontade de ajudar aqueles em situação de pobreza extrema é muitas vezes reduzida quando o dinheiro é a única maneira viável de ajudar. Eu certamente posso relacionar esta tendência com minha experiência na Uganda. Não é uma coisa bonita de se admitir sobre mim, mas houve certamente vezes em que fui tentada a recusar os pedidos de ajuda quando os pedidos envolviam dinheiro. Lembro-me de pensar: “aqui estou eu, alguém com um conhecimento especializado ao dispor, e a melhor maneira que eu posso ajudá-lo é dando-lhe 2 dólares?” Até certo ponto, eu me senti banalizada, e meu palpite é que muitos de nós se sentem assim quando, repetidamente, recebemos pedidos de doações a organizações, mas raramente somos convidados a ajudar de outras maneiras.

Uma das maneiras com que fui capaz de mudar a minha perspectiva sobre isso foi por recordar um ponto abordado por Mackey McNeill em seu livro ‘The Intersection of Joy and Money‘. Ela incentiva os leitores, não só a considerar o que o seu dinheiro irá lhes comprar materialmente, mas a essência do que esse dinheiro irá lhes proporcionar. Por exemplo, com 30 dólares posso comprar uma camisa nova para o trabalho, mas também posso comprar o aumento de confiança em uma apresentação importante que eu tenho que fazer na próxima semana. Quando eu aplico este conceito à minha experiência no Uganda, grande parte da minha frustração pode ser superada quando percebo que, enquanto as pessoas estavam pedindo dinheiro para uma necessidade material, a essência do que elas estavam pedindo era a libertação da ansiedade sobre a sua próxima refeição, a paz de espírito que seus problemas médicos seriam resolvidos, e a confiança na possibilidade de seu filho ter um futuro mais esperançoso do que o seu próprio. Talvez a próxima vez que você receber um convite para dar dinheiro – e o dinheiro seja a única maneira viável de ajudar – você poderá agora pensar nisso não como uma simples doação monetária, mas sim sobre a essência daquilo irá fornecer. Eu também acho que é importante lembrar como somos privilegiados até mesmo por podermos nos preocupar com coisas muito além daquelas questões muito básicas tal como a alimentação, o abrigo e os cuidados médicos.

Postado originalmente por Angie Vredeveld 21 de maio de 2014: http://www.thelifeyoucansave.org/Blog/ID/85/The-Value-of-Money

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