Identificando Barreiras

Comunidade em Kanembwe, Ruanda | thelifeyoucansave.org

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Como psicóloga passo muito tempo tentando entender o comportamento humano. Se há um conceito que eu refiro com mais freqüência do que qualquer outro, é o do meu ex-professor da faculdade, que disse: “As pessoas não vêm à terapia para que lhes seja dito o que devem fazer. As pessoas já sabem o que devem fazer. Elas precisam de ajuda para identificar as barreiras que as estão a impedir de o fazer.” Este professor já ensinava há mais de 30 anos e, até hoje, eu não tenho certeza se este foi apenas um pensamento passageiro em seu repertório de saberes acumulados, ou se ele pretendia fazer uma observação particularmente perspicaz sobre o processo terapêutico. De qualquer forma, tornou-se o conceito que eu refiro mais frequentemente quando tento entender o meu próprio comportamento e dos outros.

Então, como é aplicado este princípio? Um exemplo comum pode ser o tabagismo. A maioria das pessoas que fumam concordam que deveriam parar; poucos negariam os riscos para a saúde associados ao tabagismo e a maioria iria se sentir melhor consigo mesmo se soubesse que tinha abandonado o vício. Eu também não acho que haja alguém que continue a fumar por falta de quem lhes diga que devem parar. Seguindo a lógica da “identificação das barreiras”, uma maneira melhor de se motivar a parar, ou a um ente querido, é ajudá-lo a identificar o que o impede de parar. Por exemplo, estarão preocupados com o ganho de peso ou com o desconforto físico da abstinência? Que não sejam capazes de desfrutar as noites de sexta-feira com os seus companheiros de bebida? Que isso cause tensão no seu relacionamento com o cônjuge que ainda fuma? Que isso o torne um “seguidor de regras” quando sempre foram do tipo rebelde? Ajudar as pessoas a lidar com o que os impede de mudar, leva a resultados mais robustos, pois aborda o comportamento em um nível mais enraizado. É também mais genuinamente solidário porque honra a ambivalência inerente a muitos processos de mudança.

Quando penso sobre a mudança necessária para se tornar uma pessoa que dá dinheiro para ajudar a acabar com a pobreza extrema, não posso deixar de referir este mesmo princípio. Certamente ouvi alguns argumentarem que a ajuda financeira é melhor aplicada localmente ou que a ajuda financeira aos países em desenvolvimento gera dependência e corrupção. No entanto, o meu palpite é que a grande maioria das pessoas que não dá dinheiro a pessoas na pobreza extrema não negligencia a doação por ter alguma objeção de princípio a fazê-lo. Em vez disso, provavelmente acreditam que deveriam dar algum do seu dinheiro, mas existem barreiras que estão a impedindo-los de o fazer.

Um exemplo de tal barreira é a “difusão da responsabilidade” (Peter Singer escreveu um excelente capítulo — Capítulo 4 — sobre as barreiras psicológicas em “Quanto Custa Salvar uma Vida” [Pt. “A Vida Que Podemos Salvar”] e a difusão de responsabilidade é uma delas). A difusão de responsabilidade se refere ao fenômeno das pessoas serem menos propensas a oferecer apoio a alguém em perigo quando outros estão presentes. O conceito é freqüentemente ligado ao assassinato de Kitty Genovese, uma jovem mulher que, em 1964, foi esfaqueada até à morte perto de sua casa em Queens, Nova Iorque, enquanto vários vizinhos viram ou ouviram partes do assassinato, mas ninguém fez nada para ajudá-la. (Até que ponto os vizinhos estavam cientes de que um assassinato estava ocorrendo, desde então tem sido debatido, mas a história de Kitty Genovese continua a ser referida na literatura de psicologia como um exemplo marcante da difusão de responsabilidade ou da apatia do espectador.) Aplicado ao contexto de identificar barreiras que impedem as pessoas de dar dinheiro a quem vive em pobreza extrema, uma pessoa pode pensar, “bem, sim, eu me sinto realmente mal pelas pessoas que são tão pobres. Não posso imaginar o quão difícil suas vidas são. Mas, eu não sou a pessoa certa para ajudar; eu não ganho muito dinheiro. Não deveria ser da responsabilidade dos ricos dar mais do seu dinheiro? Além disso, parece que há várias organizações humanitárias e religiosas lidando com estas questões. Não acho que seja necessário eu me envolver.” Mais uma vez, esta pessoa concordaria que devemos ajudar a acabar com a pobreza extrema, mas há uma barreira (neste caso, a difusão de responsabilidade) que a impede de agir.

Ao escrever para o blogue The Life You Can Save, gostaria de abordar o que penso serem as barreiras mais comuns que impedem as pessoas de dar dinheiro àqueles em situação de extrema pobreza. Minha intenção é elaborar sobre as barreiras identificadas por Peter Singer, em “Quanto Custa Salvar uma Vida” [Pt. “A Vida Que Podemos Salvar”], compartilhando a minha perspectiva como psicóloga que trabalha nos EUA e na África Subsariana e a minha perspectiva como ser humano que luta diariamente com o quanto eu mesma deveria dar. Como um leitor deste blogue que possa estar interessado em motivar a si mesmo ou outras pessoas para darem mais, penso que um primeiro passo fundamental é perguntar a si mesmo, “o que me impede de dar, ou de dar mais, àqueles em extrema pobreza?” Eu sei que para mim, entender as minhas próprias barreiras é a melhor maneira que eu tenho de motivar a mim mesma e aos outros para mudar.


Postado por Angie Vredeveld no Blogue TLYCS, a 26 de Março de 2014.

Tradução de Thiago Tamosauskas e revisão de José Oliveira

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