Comer carne porque plantas também sofrem?

stanley“E quem disse que plantas também não sentem dor?”

“Mas também temos que matar plantas para comer.”

“Existem estudos provando que plantas também sofrem.”

Estes são alguns dos argumentos fracos que as pessoas usam quando se encontram dentro do dilema moral proposto pelos vegetarianos. Curiosamente essa falácia é cometida por pessoas que em muitos outros aspectos da sua vida possuem uma postura absolutamente ética e, se pararmos para pensar,  o simples fato dessas pessoas pensarem em termos de dor e sofrimento alheio, ainda que com certa ironia, já mostra uma certa preocupação meta-ética.

Psicologia à parte, essa retórica é tão comum que tem até nome: Falácia do Nirvana ou Falácia da Solução Perfeita. Ela surge quando o interlocutor se recusa a pensar em termos de mudanças marginais e compara alternativas reais com alternativas idealizadas. Essa falácia pode ser formalmente expressa da seguinte forma:

Premissa 1: X é o que está sendo proposto.

Premissa 2: Y é a situação perfeita, mas inatingível.

Falsa Conclusão: Portanto X deve ser rejeitado ainda que seja a melhor alternativa disponível.

Existem realmente estudos que tentam demonstram que algumas plantas reagem eletricamente a estímulos, mas isso está longe de ser um consenso científico. Sem um sistema nervoso central não podemos honestamente dizer que uma árvore sente dor quando lhe arrancam um galho. Por outro lado sabemos que os animais que consumimos possuem sistema nervoso como o nosso e reagem à dor assim como nós reagimos.

Mas vamos dar a eles o benefício da dúvida. Vamos supor que as plantas realmente possam sofrer, isto para se entender a falsa dicotomia que a falácia do nirvana origina:

 “Se não posso evitar o sofrimento que provoco com meu modo de vida, então não vale a pena me esforçar para minimizar essa dor e sofrimento.”

Pensamento perigoso. Esse caso é semelhante a uma pessoa que quebra a dieta com um pedaço de chocolate, e tendo falhado no pouco, desiste de vez e come tudo o que puder. A verdade é que usualmente não somos tão radicais assim em nenhum aspecto de nossas vidas, mas apenas quando queremos justificar algo.

Do ponto de vista utilitarista basta lembrar que os animais criados para serem comidos, além de viverem uma vida de confinamento e maus tratos antes de acabar em nossos pratos, precisam eles mesmos comer toneladas de plantas antes de morrer. De fato uma parte imensa da terra cultivável hoje é usada para alimentar a indústria da pecuária. Fica fácil entender desta forma porque quem come carne causaria muito mais morte e sofrimento no mundo, mesmo se descobríssemos que de fato os vegetais possam sentir dor.

Nas palavras de Edmund Burke: “Ninguém comete um erro maior do que aquele que nada faz por achar que só pode fazer pouco”. Se não podemos acabar com a violência no mundo isso não significa que devemos deixar de evitá-la. Agir de outra forma não seria somente imoral e irresponsável, seria também ter preguiça de pensar.

Essa preocupação com o a diminuição do sofrimento no mundo, seja de plantas ou animais, faz com que o movimento do Altruísmo Eficaz tenha preocupação de buscar as melhores soluções possíveis. Embora muitos adeptos do movimento sejam vegetarianos ou veganos, pelas mais diversas razões, mesmos muitos comedores de carne entendem a importância desta causa.

 A Animal Charity Evaluators, por exemplo, trata de avaliar especificamente as instituições que são mais eficazes a diminuir esse tipo de sofrimento.


Por Thiago Tamosauskas. Revisão José Oliveira

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