Vegetarianismo para Comedores de Carne

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Hambúrguer | Wikimedia Foundation

Brian Kateman em QZ.com escreveu que Precisamos de mais ativistas de direitos animais que sejam comedores de carne. Finalmente, a grande mídia me dá permissão ex-cathedra de dizer coisas um tanto hipócritas!

Eu acredito que provavelmente os animais possuem valor moral. Eu também como carne. Há uma tensão evidente entre estas duas posições; animais sofrem e (obviamente) morrem durante a produção de carne. Só posso dizer em minha defesa que eu tentei ser vegetariano por vários anos e que foi horrível e eu acabei subsistindo quase inteiramente à base de pão e Quorn e eu não quero voltar a isso.

Mas ao longo dos últimos anos, eu li sobre duas idéias que mudaram minha maneira de olhar para o consumo de carne e reduziram significativamente minha pegada moral com um mínimo de inconveniência. Estas não são originalmente minhas idéias e eu não levo o crédito por elas, mas eu espero que as pessoas envolvidas não se importem que eu tome a iniciativa de divulgá-las mais amplamente.

1. Coma carne bovina, não frango

Este argumento é tão simples que eu me sinto idiota por não ter pensado nele; em vez disso, eu o tomei de Julia Galef e Brian Tomasik. Suponha que eu adquira cerca de um terço da minha necessidade diária de calorias à partir da carne; somando 250.000 calorias de carne por ano. Suponha ainda que isso seja dividido igualmente entre 125.000 calorias de carne bovina e 125.000 calorias de frango.

O tamanho de um boi médio é muito grande e ele fornece cerca de 405.000 calorias; o tamanho de um frango médio é muito pequeno e fornece 3000 calorias. Assim, a cada ano, eu mato cerca de 0,3 bois e cerca de 42 galinhas, num total de 42,3 animais mortos. [1] [2]

Suponha que eu pare de comer frango e mude inteiramente para carne bovina. Agora estou matando cerca de 0,6 bois e 0 galinhas em um total de 0,6 animais mortos. Só com isso eu já teria diminuído o número de animais que estou matando de 42,3/ano para 0,6/ano, uma melhoria de 98%.

A diferença se torna ainda maior quando você compara os níveis de sofrimento. As galinhas são provavelmente os animais de criação mais miseráveis; elas são mutiladas, acondicionadas em gaiolas minúsculas, a ponto de ficar imóveis, deixadas para apodrecer em seus próprios resíduos, e criadas de forma tão intensiva que não suportam o tamanho de seus corpos e provavelmente sofrem dores músculo-esqueléticas severas. Apesar da vida dos bois também ser bastante terrível, Brian Tomasik estima que para as galinhas o sofrimento é cerca de duas vezes pior. Tendo isto em conta, a mudança de 50-50 para 100% de carne bovina reduz a sua contribuição ao sofrimento animal em até 99%. [3] [4] [5]

Eu descobri que sou indiferente entre carne e frango quanto ao paladar, por isso esta decisão foi fácil. As poucas vezes que faço uma receita na qual seja imprescindível o uso de algum tipo de frango, as tiras de frango falso da Beyond Meat são um substituto quase tolerável.

2. Use Compensações Éticas doando para instituições de caridade animais

Eu já falei antes sobre Compensações Éticas, mas acho que o argumento original vem de Katja Grace.

Instituições de caridade relacionadas aos animais são muito eficazes. A Animal Charity Evaluators, uma espécie de versão animal da GiveWell, enumera impactos realmente impressionantes de pequenas doações:

Animal Equality: 11 vidas animais salvas por dólar
Mercy For Animals: 9 animais salvos por dólar
Humane League: 3 vidas animais salvos por dólar

Estes números são altos, mas não impossíveis. Por exemplo, a Humane League gastou cerca de $ 50 mil convencendo distritos escolares a optar por ovos produzidos sem o uso de gaiolas e promovendo “Segundas-feiras sem carne” em suas lanchonetes; isso resultou em cerca de 3,2 milhões a menos de refeições contendo carne, ou seja, várias centenas de milhares de galinhas salvas.

OK. Se você seguiu o conselho na parte 1, e passou a comer carne bovina, você está matando 0,6 animais por ano. Se você doar seis centavos de dólar por ano para instituições de caridade relacionadas com os animais, você se torna ‘animal-neutro’. Doar $ 0,06 parece ser … muito mais fácil do que ser vegetariano por um ano, não? [6]

Ou então doar $ 60 e salvar mais animais do que uma vila inteira de vegetarianos(as). Neste ponto, começa a parecer que o vegetarianismo talvez seja mais uma decisão pessoal simbólica / não-consequencialista em comparação, e um comedor de carne com alguns trocados para gastar pode gozar de quase ilimitada superioridade moral, mesmo entre seus amigos mais escrupulosamente veganos. Seria bom demais para ser verdade?

Uma razão para que seja bom demais para ser verdade é se a Animal Charity Evaluators for excessivamente otimista. Mas seria muito difícil tal otimismo mudar substancialmente esta estratégia. Suponha que eles errem por uma ordem de magnitude, e você só salve um animal por dólar. Você ainda pode compensar um ano inteiro comendo carne por $ 0,60. Mesmo se eles errarem três ordens de magnitude e elevarem para $ 60 a compensação de um ano comendo carne, ainda assim a maioria das pessoas provavelmente preferiria pagar sessenta dólares a se tornar vegetariana.

A queixa mais séria é que esta estratégia seja hipócrita ou autodestrutiva. Afinal, parece que a maior parte do ganho originário dessas instituições de caridade advém de convencer outras pessoas a se tornarem vegetarianas. De um ponto de vista kantiano, “tentar tornar outras pessoas vegetarianas sem ser uma você mesmo” não é universalizável; se todos fizessem isso, não haveria ninguém para realmente ser vegetariano! É ético para os não-vegetarianos tentar espalhar o vegetarianismo entre outras pessoas? Aqui estão quatro argumentos afirmativos:

Em primeiro lugar, o consequencialismo. De um ponto de vista consequencialista, a pergunta “tudo bem fazer uma boa coisa acontecer mesmo se …” sempre tem uma resposta positiva. Você salva os animais? Sim? Então qual o problema? O verdadeiro consequencialista sequer entenderá a pergunta.

Em segundo lugar, estas instituições de caridade não necessariamente exigem que as pessoas se tornem vegetarianos completos. Podem recomendar que as pessoas reduzam a quantidade de carne que comem, ou substituam o frango pela carne como na Parte 1, ou apoie leis impondo condições de vida mais humanas para os animais em cativeiro. Algumas evidências apontam que pedir comedores de carne que diminuam o consumo de carne seja a forma mais eficaz de evangelismo animal. Um não-vegetariano que tomou alguns desses passos pode apoiar isso sem se preocupar com a hipocrisia.

Em terceiro lugar, a sua situação não é necessariamente a mesma das outras pessoas. Uma razão de eu não ser vegetariano é que eu realmente odeio legumes. Outras pessoas podem amar legumes e só precisam de um empurrãozinho para consumir mais deles. Eu posso endossar que as pessoas se tornem vegetarianas se for mais fácil para elas, sem necessariamente endossar o vegetarianismo para mim.

Em quarto lugar, e eu acho o mais importante, é a análise econômica. Em vez de universalizar o princípio de “tornar-se vegetariano”, suponha que nós tentemos universalizar o princípio “encontrar alguma maneira de tornar-se animal-neutro”, isto é, viver a sua vida de tal forma que no balanço final você não esteja matando animais. E suponha que todos saibam que existem duas estratégias para fazer isso: tornar-se vegetariano ou compensar seu estilo de vida doando para organizações de defesa que convertem outras pessoas a sê-lo.

E suponha que, ao ouvir que só precisam fazer uma doação de $ 60 para compensar seu estilo de vida, 90% das pessoas escolhessem a doação em vez da conversão pessoal. Isso faz com que o custo de divulgação suba. Ou seja, quando eu doar meus $ 60, a organização de defesa irá usá-lo para converter Alice, que decide doar $ 60, que a organização de defesa utiliza para converter Bob, que decide doar $ 60, que a organização utiliza para converter Carol … e assim por diante até a décima pessoa, que finalmente decide se tornar vegetariana. Se isso acontecesse, nossa premissa que estima a doação de $ 60 para converter um vegetariano seria falsa. Na verdade, custaria 10 doações de $ 60, ou uma de $ 600.

Enquanto as pessoas souberem que têm a opção de compensação através de doação, a possibilidade de que as pessoas prefiram doar a tornarem-se vegetarianas altera o preço da compensação. Isso significa que, se o custo de uma compensação é atualmente de $ 60, é porque nós estamos atingindo pessoas cujo preço reserva é genuinamente $ 60; elas preferem tornarem-se vegetarianas a pagarem por uma compensação de $ 60 (provavelmente por razões morais / simbólicas). Essas pessoas são as mais fáceis de atingir; uma vez que se esgotem, o preço de compensação vai subir, e as pessoas para quem o vegetarianismo é apenas uma inconveniência leve vão preferir tornarem-se vegetarianas em vez de pagar. No momento que estas últimas pessoas se esgotem, o preço da compensação será proibitivo e só as pessoas para quem o vegetarianismo é uma inconveniência extraordinária continuarão a tomar este caminho. Uma vez que não existam mais potenciais vegetarianos para converter, o custo de compensação irá se converter em custo de salvar os animais através de ação política, melhoria tecnológica (por exemplo, carne cultivada), ou alterações nas condições de criação.

Esta dinâmica torna-se ainda mais interessante se você adicionar a suposição (injustificável, mas interessante) de que alguém que não se torne vegetariano fosse obrigado a compensar a sua escolha através da conversão de duas outras pessoas ao vegetarianismo. Então você começa uma espécie de esquema Ponzi virtuoso que termina com um grande número de vegetarianos (embora não necessariamente em uma quantidade razoável de tempo).

Eu tento doar algum dinheiro para instituições de caridade animal eficazes todo ano, além das quais eu já me comprometi a doar por outras razões, a fim de compensar a carne que me recuso a cortar da minha dieta.

Notas de Rodapé

1. Eu uso o termo “matar” porque é uma maneira simples de olhar as coisas, mas a maior parte do custo moral de comer carne está em fazer os animais passarem anos vivendo num terrível sofrimento em fazendas industriais. O abate final é provavelmente uma misericórdia em comparação. Quando eu digo que algo “impede quarenta animais de serem mortos”, a versão mais longa e mais precisa seria “previne quarenta animais de viver, em intenso sofrimento, para em seguida, serem mortos”. Isto faz levantar algumas questões mais filosóficas como – é melhor viver uma vida de sofrimento terrível do que nunca ter nascido? – mas eu respondo confortavelmente que “não”.

2. Este mesmo argumento vai contra a ingestão de outros pequenos animais como peixes. Embora, em teoria, peixes selvagens capturados devam viver uma boa vida e, em potencial, serem eticamente mais aceitáveis que os animais criados em fazendas. Dada a limitada capacidade de captura selvagem, cada peixe selvagem consumido pode esgotar um número fixo deles e influenciar outras pessoas a consumir peixes de criação.

3. O consumo de ovos levanta algumas das mesmas questões como o consumo de frango, e Julia Galef sugere que ovos são uma das piores coisas que você pode comer. Eu acho que ela faz uma avaliação pessimista; ovos são terríveis em uma base de calorias para calorias, mas se estamos falando de quais produtos de origem animal devemos exortar as pessoas a desistir, isso é contrabalanceado por ninguém, exceto por Gaston obtendo muitas calorias dos ovos. Alguém que come um ovo com café da manhã todos os dias mata cerca de um frango por ano; alguém que tem um jantar de frango uma noite sim e outra não, mata cerca de quarenta frangos por ano. Embora as galinhas chocadeiras provavelmente levem uma vida pior que a dos frangos, a diferença não é esmagadora. Evitar o consumo de ovos incidental, como os ovos em pães e bolos, é difícil e provavelmente não tem o maior valor de intervenção pró-animal, dado o baixo número de ovos envolvidos.

4. Esta análise não considera se bois, por terem o maior cérebro ou serem mais “evolutivamente avançados” do que frangos ou peixes, tenham assim maior valor moral. Eu não sei como lidar com essa questão, exceto que me surpreenderia muito se eles tivessem quarenta vezes o valor moral dos frangos.

5. A existência de supostos produtos de animais sem crueldade (“ovos livres da gaiolas!” “Bois alimentadaos com pasto!”) complica um pouco as coisas. A opinião unânime das pessoas que entendem desse tipo de coisa é que as galinhas ao ar livre são uma espécie de farsa; a regulamentação só especifica que estas galinhas tenham “acesso” ao ar livre, mas os agricultores exploram a lei ao pé da letra ao empilhar milhares de frangos em celeiros industriais com uma única porta pequena do estaleiro que a maioria esmagadora das galinhas nunca irá ver. Galinhas ou ovos “livres de gaiolas” parece melhor que a alternativa, mas ainda demasiado horrível. “Carne de boi alimentado com pasto” geralmente envolve um pasto de alguma forma e não é uma farsa total, mas provavelmente não é tão agradável como você poderia pensar. Eu tento comprar carne de bois criados em pasto, e eu acho que as normas ligeiramente mais exigentes na produção de carne bovina comparada à produção de frango fornecem outro bom argumento em favor do consumo de carne bovina, mas eu não tento me enganar em pensar que esta decisão sozinha vá muito longe.

6. Se você também come frango, o custo compensado sobe para $4.

Originalmente postado em slatestarcodex.com por Scott Alexander em 23 de setembro de 2015

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão e adaptação de Ronaldo Batista

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