Trocas

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Quais as consequências de cada decisão de consumo que fazemos? | imagem retirada daqui.

Trocas

Julia Wise 1

Os economistas gostam de pensar sobre trocas (tradeoffs ou custos de oportunidade, como lhes chamam). Qualquer dinheiro que gastamos não pode ser gasto em outra coisa qualquer, então se uso 2,50 dólares para comprar um milk shake [Pt: batido] de morango, isso significa que não estou usando os mesmos 2,50 dólares para adquirir o de chocolate ou o de chocolate com menta.

Isso é bem fácil de se entender. No entanto, isso significa também que eu não estou comprando uma passagem de ônibus [Pt. autocarro], uma lâmpada, ou qualquer outra coisa com esses 2,50 dólares. E se compro esse milk shake [Pt: batido] de morango, de acordo com os padrões da economia, significa afirmar que não há nada no mundo que eu preferisse fazer com esse dinheiro.

Eu não acho que, normalmente, sejamos tão racionais assim.

Por um lado, é desagradável pensar em negativas. Gostamos de pensar naquilo que o nosso dinheiro nos compra de fato, em vez da variedade infinita de coisas que não nos compra. Além disso, há tantas alternativas que não podemos realmente considerá-las todas cada vez que gastamos dinheiro.

Certa vez vi uma proposta irreverente em que se chamava a atenção das pessoas para isso de uma maneira horrível ao se rotular todos os preços na Moeda de Crianças Mortas.2 Se custa 800 dólares para salvar a vida de uma criança, cada 800 dólares gastos em qualquer outra coisa… bom, você entendeu.

Eu costumava obrigar-me a pensar assim. Antes de gastar qualquer dinheiro, eu me perguntava o que essa quantia poderia fazer por uma mulher na África que precisava do dinheiro para cuidar da sua família. (Não precisava ser ela, mas era quem eu sempre imaginava.) Será que valorizava mais os meus sapatos novos do que os mantimentos mensais dela? Mais do que a vacinação de seus filhos ou seus gastos escolares? Poderia fazer essa troca?

Às vezes fazia e depois me sentia horrível. Até que, o meu marido e eu decidimos traçar uma linha clara sobre que dinheiro seria doado e qual seria nosso. A cada ano decidíamos que pedaço do nosso orçamento iria para as melhores instituições de caridade que encontrávamos. O resto era nosso para gastarmos em qualquer outra coisa que quiséssemos. Ao longo dos anos aumentamos o limite do nosso orçamento para a caridade, e agora é 50% dos nossos rendimentos. Tomar essa decisão uma vez por ano é bem mais fácil do que fazer isso toda vez que você está na fila para pagar.2

Conheci recentemente um jovem que estava pensando seriamente sobre o assunto. “Mas não será certo pensar sobre as trocas?” ele perguntou. “Não deveríamos estar pensando nelas o tempo todo?”

Eu acho que é bom passar um tempo pensando dessa forma. Quando você vive em outro país, se torna capaz de compreender os preços sem converter de volta para a sua própria moeda. Da mesma forma, quando começa a pensar em todos os seus gastos em Moeda de Vacinação ou Moeda de Rede Anti-mosquito, acaba tornando-se um hábito. Sua despesa não pode deixar de ser afetada.

Eu também acho que só podemos suportar uma certa quantidade de dor. Não posso passar os próximos 60 anos a contar crianças mortas em cada recibo. Eu teria um colapso.

Portanto, meu conselho é gastar um tempo realmente observando estas trocas. Observe se você realmente valoriza o milk shake [Pt: batido] mais do que a vacinação de uma criança. Pense sobre qual escolha você gostaria que se tomasse caso fosse seu filho que estivesse precisando de ajuda. E então, depois de um tempo, faça um orçamento que represente esses valores. Reserve algum dinheiro para coisas desnecessárias que fazem você feliz. Faça aquilo que irá levá-lo até à idade de 90 anos sendo um doador generoso e estratégico. Porque isso, no final, é o que vai ajudar mais pessoas.

[Continuar a ler aqui.]

Notas:

1 Este artigo foi inicialmente publicado no blogue da Julia Wise em Março de 2012 em: http://www.givinggladly.com/2012/03/tradeoffs.html.

2 Esta proposta satírica foi descrita em Dead Children Currency [Moeda de Crianças Mortas] por Scott Alexander, em: http://www.raikoth.net/deadchild.html


Artigo de Julia Wise que faz parte do “Manual do Altruísmo Eficaz“.

Tradução de Thiago Tamosauskas e revisão de Celso Vieira e José Oliveira.

 

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