Quanto vale divulgar o altruísmo eficaz?

people-coffee-notes-tea

Reunião de trabalho (Imagem retirada daqui).

Como sabemos se vale a pena divulgarmos o altruísmo eficaz? Ou, mais concretamente, em que medida o trabalho de divulgação do altruísmo eficaz pode ter um impacto positivo?

Por vezes este tipo de questões são muito difíceis de responder, ora porque não temos dados para analisar, ora porque esses dados são demasiado subjectivos para conseguirmos avaliar o seu impacto em concreto.

Por exemplo, temos os dados das visitas ao nosso site onde divulgamos o altruísmo eficaz, mas que conclusões podemos tirar daí? À partida quanto mais pessoas souberem sobre a existência do altruísmo eficaz, melhor. Mas, ao certo, será melhor quanto? Se pretendermos avaliar em que medida estamos a ter um impacto positivo no mundo, que diferença fará o nosso site ter 1 075 visitantes (em 2015) ou ter 4 916 visitantes (em 2016)?

stats-ae_site

Número de visitantes no site de altruísmo eficaz (2015 e 2016).

Mesmo sabendo que, com um número semelhante de publicações, a diferença de visitantes de um ano para o outro foi de quase 5 vezes mais (e que isso é uma subida excelente), não podemos saber se, de 2015 para 2016, alguma coisa de substancial melhorou no mundo 5 vezes por causa disso, ou 4 vezes, ou sequer duas vezes. No entanto, podemos à partida considerar que talvez seja uma estimativa demasiado pessimista (e até irrealista) pensar que nada tenha mudado para melhor.

Seja como for, esse é um tipo de dados que não nos deixa tirar essas conclusões com exactidão.

Vejamos agora outro indicador: o número de membros da Giving What We Can. Como os membros da GWWC dão pelo menos 10% do seu rendimento a instituições de caridade eficazes, apesar dos totais, mesmo que nós não tenhamos acesso ao que cada membro dá (10% de que quantia?), nem para onde essa pessoa dá (quais organizações em concreto?), podemos, no entanto, fazer uma avaliação qualitativa. Por exemplo, poderíamos dizer que o crescente número de membros da GWWC indicia um impacto extremamente positivo no mundo — afinal de contas, dividindo os donativos totais pelo número de membros, vemos que, em média, cada membro já doou mais de 7 mil dólares (o que pode equivaler a 2 vidas salvas).

gwwc-pledge2016

Infografia a partir dos dados disponibilizados pela Giving What We Can.

Assim, consultando os dados disponíveis, podemos comparar o número de membros da GWWC em países que apresentem semelhanças (neste caso em termos de população e de PIB per capita) para tentarmos chegar a algumas conclusões:

No caso do Brasil

Ao compararmos o Brasil com o Paquistão (ambos com um número de habitantes semelhante, cerca de 200 milhões), vemos que a diferença do número de membros não é muita (8 no Brasil e 6 no Paquistão), note-se que o PIB do Paquistão é cerca de 3 vezes inferior ao do Brasil. Mas ambos têm grupos de altruísmo eficaz, o Brasil tem dois que ainda registam actividade (o de Belo Horizonte e o de São Paulo) e o Paquistão tem apenas um. Talvez isso seja relevante pois outro país que tem características semelhantes ao Brasil (em termos de população), a Indonésia, mas com um PIB cerca de 2 vezes superior ao do Paquistão, tem apenas um membro da GWWC — e essa diferença poderá atribuir-se ao facto de a Indonésia não ter qualquer grupo a promover o altruísmo eficaz.

País Membros da GWWC Habitantes Membros por

milhão de Hab.

PIB per capita Grupos AE
PAQUISTÃO 6 189 milhões 0,03 4 906.30$ 1
BRASIL 8 204 milhões 0,04 15 645.90$ 2
INDONÉSIA 1 255 milhões 0,004 11 148.54$ 0

No caso de Portugal

Ao procedermos ao mesmo tipo de comparação entre Portugal e os países com população e PIB semelhantes, vemos também uma aparente correlação entre a existência de grupos de divulgação do altruísmo eficaz e o número de membros da GWWC. Onde há mais grupos (5 na Suécia e 3 na Bélgica) há também mais membros (39 na Suécia e 10 na Bélgica) e embora estes países tenham PIBs superiores a Portugal (quase o dobro), no caso de países com o PIB semelhante a Portugal (a República Checa e a Grécia) o número de membros não é superior ao de Portugal (4 e 1 respectivamente), visto que Portugal tem 6 membros da GWWC. E aqui também o número de grupos parece estar relacionado com o número de membros, pois para os 4 membros da República Checa há 1 grupo e para o único membro da Grécia não se encontrou qualquer grupo activo. No caso da Bolívia, em que o PIB é mais de 4 vezes inferior ao de Portugal e ao da Grécia, regista-se (como na Grécia), um único membro da GWWC e nenhum grupo de altruísmo eficaz .

País Membros da GWWC Habitantes Membros por

milhão de Hab.

PIB per capita Grupos AE
SUÉCIA 39 9,9 milhões 4 48 198.67$ 5
PORTUGAL 6 10,4 milhões 0,6 27 885.27$ 1
REPÚBLICA CHECA 4 10,5 milhões 0,4 32 076.10$ 1
BOLÍVIA 1 10,7 milhões 0,1 6 953.68$ 0
GRÉCIA 1 10,8 milhões 0,1 26 391.30$ 0
BÉLGICA 10 11,2 milhões 1 44 147.87$ 3

Feita esta comparação, mesmo não sendo possível estabelecer uma correlação directa, (os grupos existem e geram novos membros? ou os novos membros é que criaram os grupos? ou ambas as coisas? e em que medida? e que influência tem a riqueza da população?, etc.) podemos, de qualquer modo, imaginar se a realidade seria a mesma se não houvessem espaços de divulgação nesses países (e no nosso caso o site de altruísmo eficaz, o grupo AE em português — em que participam os membros do grupo de S. Paulo —, o grupo de Belo Horizonte e o de Portugal). Mais uma vez, com aquilo que se conhece, seria difícil de justificar como a divulgação do altruísmo eficaz feita por esses grupos poderia ter um impacto nulo, já para não dizer negativo.

Assim, mesmo que por vezes seja difícil perceber exactamente o impacto positivo que temos em concreto, se os dados de que dispomos nos indicarem de algum modo que esse impacto existe, e se não tivermos a indicação de algo que possa ter mais impacto, desde que nos questionemos sobre isso a cada passo, então parece que estamos no bom caminho.

Ou seja, mesmo com uma probabilidade muito reduzida de ter determinado impacto positivo, quando não se antecipa uma outra intervenção com um impacto semelhante, e visto que esse tipo de impacto pode ser extremamente positivo (no caso de se contribuir para que mais uma pessoa se torne num altruísta eficaz), então essa intervenção parece justificar-se.

Parece-me que é esse o caso quando avaliamos a divulgação do altruísmo eficaz no Brasil e em Portugal, pois não só se pode contribuir para aumentar esse impacto extremamente positivo, como se pode contribuir para manter o impacto que, mesmo com uma origem diferente, tenha sido previamente atingido.

Assim, mesmo que a cada membro da GWWC correspondesse apenas 2 pessoas salvas, poderíamos pensar no seguinte: quanto do nosso tempo estaríamos dispostos a dispensar na divulgação do altruísmo eficaz para que mais uma pessoa assumisse o compromisso da GWWC e pudesse salvar mais 2 pessoas? A partir de que ponto seria esse tempo mal gasto?


Texto de José Oliveira (15 de Janeiro de 2017)

Agradeço a recolha de dados feita pelo Daniel de Bortoli

Guardar

Guardar

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s