A Tragédia da Ilusão Moral

peter

Peter Singer | commons.wikimedia.org

Obrigação Moral

Suponha que está a andar pela rua abaixo e que de repente repara numa criança se afogando em uma lagoa rasa. A maioria de nós irá considerar que é imperativo salvar a sua vida, independentemente da inconveniência pessoal ou o custo de arruinar roupas caras. Mas essa intuição moral é normativa? Ou melhor, será que nós temos a obrigação de salvar a criança se afogando? Para aqueles de nós que pensam que obviamente é assim, o filósofo Peter Singer aponta uma implicação perturbadora.

Todos os anos, 9 milhões de crianças menores de cinco anos morrem de causas relacionadas com a pobreza. Muitas morrem de doenças evitáveis como a malária, o sarampo, a diarréia e a pneumonia. Financiar vacinas, água limpa, e mosquiteiros pode salvar centenas de milhares de vidas por ano. Singer afirma que não doar dinheiro que  gastaríamos em luxos dispensáveis é essencialmente análogo a passar ao lado da lagoa rasa. Claro, que seria necessário uma pessoa muito diferente para ignorar os gritos da criança ou jogar um apelo da UNICEF no lixo, mas o ponto de Singer é que as consequências de primeira ordem dos dois atos são idênticas. Novamente, isto não quer dizer que qualquer um que não doa quantias substanciais de dinheiro seja uma pessoa má. Os filósofos muitas vezes distinguem o caráter moral das pessoas (a fiabilidade das nossas intenções de fazermos o bem em geral) das ações morais (ações que provavelmente terão consequências boas). O conceito de ilusão moral pode explicar o abismo desconcertante entre estas duas realidades coexistentes. A falta de relevância emocional — provavelmente como resultado da geografia e da sensação de uma comunidade moral fechada — é a variável que explica essa disparidade. Esta realidade psicológica tem implicações graves no nosso processo de decisão moral. Na verdade, o fato de não sermos emocionalmente influenciados por não estarmos a salvar vidas em países distantes, sabendo muito bem que luxos completamente dispensáveis podiam ser trocados por uma vida, é uma ilusão moral. E tudo o que seria necessário para o cálculo de decisão mudar, seria se a criança se afogando estivesse na sua presença.

Claramente o caso é que, talvez, se você pode salvar uma vida sem sacrificar nada com significância moral, então certamente você é obrigado a fazê-lo. De fato, um custo financeiro marginal é altamente improvável que diminua o seu bem-estar global. Em geral, a literatura sobre o bem-estar indica que “existe maioritariamente pequenas correlações entre o rendimento e o bem-estar subjetivo” nas sociedades mais ricas. Em virtude de nosso local de nascimento, e das oportunidades daí resultantes, a maioria de nós está na pequena percentagem superior das pessoas mais ricas do mundo. Ganhar mais de 47 500 dólares o coloca nos 1% mais ricos. Neste momento, você está em uma posição onde tem controle sobre recursos que salvam vidas, que podem ser usados instantaneamente, sem qualquer prejuízo para si próprio. O que é interessante ainda, é que ao ler isto, você quase de certeza não conseguirá entender o que é “salvar uma vida”, tanto conceitual como emocionalmente. Nos tornamos insensíveis aos comerciais e clichês ineficazes da UNICEF, e nos irritamos com ativistas presunçosos. No entanto, o que é claro é que as nossas intuições morais estão completamente desfasadas da realidade do sofrimento acontecendo ao nosso redor.

Altruísmo Entusiasmado

A ideia de que não estamos emocionalmente envolvidos por um sentido de responsabilidade moral, que poderia de outro modo ser normativo para nós, é bem exposto pelo argumento de Singer. Este é o “lado da culpa” da equação. No entanto, o filósofo de Oxford, Will MacAskill — tendo sido convencido pelo enquadramento do problema de Singer — propôs uma resposta convincente. Na tentativa de superar a barreira da relevância emocional para o processo apropriado de decisão moral, MacAskill introduz o conceito de “altruísmo entusiasmado“. Ele nos pede para imaginarmos como seria entrar em um prédio em chamas e salvar a vida de uma criança. Se você pudesse fazer isso, você não iria querer fazê-lo? O ato o faria sentir excepcionalmente bem. Neste caso, o bem real que você iria alcançar quase se alinha perfeitamente com a sua compreensão emocional do seu significado moral. Mais importante, no entanto, seria realmente aumentar o seu bem-estar pessoal. Os custos para você seriam em muito superados pela realização emocional do ato. MacAskill argumenta que o potencial para fazer um bem assim está disponível para nós agora mesmo. Custa cerca de 3 400 dólares para salvar uma vida de acordo com a Against Malaria Foundation. O problema é que preencher um cheque não é o mesmo que correr para um prédio em chamas. No entanto, pode ser que “se você conseguir interiorizar plenamente o significado ético do ato, algo como essa recompensa está disponível para nós”. MacAskill é o fundador de um movimento chamado Altruísmo Eficaz. Ele notou que fazer parte de uma “comunidade altruísta” é muito gratificante, e se correlaciona diretamente com a nossa disposição de doar. A conclusão a que tem chegado é que fazer com que os atos filantrópicos sejam emocionalmente mais gratificantes é um projeto que vale a pena.

will

William MacAskill é co-fundador do movimento Altruísmo Eficaz | Imagem retirada daqui.

A implicação das ilusões morais é que as realidades mais terríveis não estão relacionadas de forma confiável com o quanto podemos nos preocupar com elas. Talvez a questão mais convincente de todas é se estaremos em uma situação em que as gerações futuras olharão para trás e desaprovarão o nosso fracasso ao tomarmos decisões morais. MacAskill aponta que uma dessensibilização ao sofrimento, e uma separação da relevância emocional e moral do nosso comportamento é em grande parte responsável pela “banalização do mal”. A “mecanização do sofrimento” alcançado em campos de concentração nazistas, onde os oficiais estavam perfeitamente alheios à realidade que os rodeava, oferece o melhor exemplo histórico disso. Além do mais, ideologias projetadas para círculos morais exclusivistas e aspirações contrárias ao florescimento humano universal, representam perigo similar. É óbvio que devemos ter as nossas intuições morais em conformidade com um princípio mais elevado do que aquilo que nos é natural ou habitual. Assegurar continuamente que isso assim seja é a nossa grande obrigação.


Publicado originalmente por Martin Dimitrov na The McGill International Review em 18 de janeiro de 2017

Tradução de Thiago Tamosauskas. Revisão José Oliveira.

Guardar

Guardar

Guardar

Guardar

Guardar

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s