Definir o Altruísmo Eficaz

Por William MacAskill (EA Forum)

Definir AE

Como (re)definir altruísmo eficaz? (Arte digital: José Oliveira | Fotografias: Pixabay)

Hilary Greaves e Theron Pummer reuniram uma excelente colecção de ensaios sobre o altruísmo eficaz, que será lançado em breve.

O altruísmo eficaz ainda é bastante mal compreendido nos meios académicos, por isso aproveitei a oportunidade para escrever o que penso sobre como o altruísmo eficaz deveria ser definido e porquê, e para responder a alguns dos equívocos mais comuns sobre o altruísmo eficaz. Espero que havendo uma definição precisa também ajude a evitar futuras diluições ou desvios do conceito, ou confusão sobre aquilo que é o altruísmo eficaz. O ensaio pode ser encontrado (com alguns erros que serão corrigidos) aqui. Abaixo, componho uma versão abreviada, destacando os pontos que espero serem mais interessantes para o público do EA Forum e tento eliminar algum do jargão filosófico; para uma discussão completa, porém, o ensaio é melhor.

 

A definição de altruísmo eficaz

Sugiro dois propósitos principais para a definição. O primeiro é corresponder à prática real daqueles que neste momento se descrevem a si mesmos como estando envolvidos no altruísmo eficaz. O segundo é garantir que o conceito tenha tanto valor público quanto possível. Isso significa, por exemplo, que o conceito seja suficientemente amplo para que possa ser apoiado por muitas visões morais diferentes ou útil para estas, mas ainda assim que possa ser suficientemente preciso para permitir que os utilizadores do conceito façam mais para melhorar o mundo do que teriam feito de outra forma. Isto, claro, é um acto de equilibrismo muito complicado.

A minha proposta de definição (que tornará a definição do CEA um pouco mais rigorosa) é a seguinte:

O altruísmo eficaz é:

1) o uso de provas e de raciocínio cuidadoso para descobrir como maximizar o bem com uma dada unidade de recursos, compreendendo tentativamente “o bem” em termos bem-estaristas imparciais, e

2) o uso dos resultados de 1) para tentar melhorar o mundo.

1) refere-se ao altruísmo eficaz como um projecto intelectual (ou “campo de pesquisa”); 2) refere-se ao altruísmo eficaz como um projecto prático (ou “movimento social”).

A definição é:

  • Não normativa. O altruísmo eficaz consiste em dois projectos, em vez de um conjunto de afirmações normativas.
    .
  • Maximizadora. O objectivo desses projectos é fazer o maior bem possível com os recursos que lhe estão dedicados.
    .
  • Alinhada com a ciência. O melhor meio para descobrir como fazer o maior bem é o método científico, amplamente interpretado para incluir a confiança em argumentos rigorosos e em modelos teóricos cuidadosos, bem como nos dados.
    .
  • Tentativamente imparcial e bem-estarista. Como uma hipótese por tentativas ou como uma primeira aproximação, fazer o bem é acerca de promover o bem-estar, contando de igual modo o bem-estar de todos. Mais precisamente: para quaisquer dois mundos A e B com todos e apenas os mesmos indivíduos, de número finito, se houver um mapeamento de indivíduos de um para um de A para B, de tal modo que cada indivíduo em A tenha o mesmo bem-estar que as suas contrapartes em B, então A e B são igualmente bons.[1]

As ideias de que o AE tem a ver com maximizar e estar alinhado com a ciência (entendidos amplamente) são incontroversas. Os dois aspectos mais controversos da definição são que este não é normativo e que é tentativamente imparcial e bem-estarista.

 

O altruísmo eficaz como não normativo

A definição poderia ter sido normativa, fazendo afirmações sobre o quanto alguém é obrigado a sacrificar: por exemplo, poderia ter afirmado que todos são obrigados a usar tanto dos seus recursos quanto possível de qualquer maneira pela qual se faça o maior bem; ou poderia ter indicado alguma obrigação mais limitada de sacrifício, tal como a de que todos são obrigados a usar pelo menos 10% do seu tempo ou dinheiro de qualquer maneira pela qual se faça o maior bem.

Há quatro razões pelas quais me parece que a definição não deve ser normativa:

1) uma definição normativa era impopular entre os líderes da comunidade; num questionário a esses líderes em 2015, 80% dos entrevistados afirmaram que a definição não deveria incluir uma componente de sacrifício e apenas 12,5% achavam que deveria conter a componente de sacrifício.

2) a posição normativa é apoiada apenas por um subconjunto da comunidade; no questionário de 2017, com 1843 membros da comunidade de altruísmo eficaz, incluiu a pergunta: “Pensa no altruísmo eficaz mais como uma «oportunidade» ou como uma «obrigação»?” Em resposta, 56,5% escolheram “dever moral” ou “obrigação”, e 37,7% escolheram “oportunidade” (naquele ano, não havia opção para escolher “ambos”).

3) a definição não normativa é muito mais ecuménica entre as visões morais. A maioria das visões morais plausíveis concordaria que há alguma razão para promover o bem, e que o bem-estar é de algum valor e, portanto, a questão de como se pode fazer o máximo para promover o valor bem-estarista com uma dada unidade de recursos precisa ser resolvida como um aspecto da resposta à questão de como viver uma vida moralmente boa. Em contraste, qualquer tipo de afirmação sobre as nossas obrigações de maximizar o bem será muito mais controversa, particularmente se tentarmos fazer uma declaração geral abrangendo pessoas de níveis de rendimento e situações pessoais muito diferentes.

4) Finalmente, a definição concentra-se no aspecto mais distintivo do altruísmo eficaz: a questão aberta de como podemos usar recursos para melhorar o mundo o máximo possível. Essa questão é muito mais negligenciada e provavelmente mais importante do que a questão de quanto e de que forma o altruísmo é exigido a cada um.

 

O altruísmo eficaz como tentativamente imparcial e bem-estarista

A segunda decisão controversa é sobre o que consideramos como “o bem” que o altruísmo eficaz está a tentar promover; a minha proposta de definição é tentativamente imparcial e bem-estarista.

Existe um amplo espectro de alternativas que poderia ter adoptado. No espectro mais amplo, poderíamos definir o altruísmo eficaz como a tentativa de fazer o maior bem, de acordo com qualquer visão do bem à qual o indivíduo em questão adira. No espectro mais estreito, poderíamos definir o altruísmo eficaz como a tentativa de fazer o maior bem numa compreensão muito particular do bem, tal como o utilitarismo hedonista total. Qualquer das escolhas enfrenta problemas graves. Se permitirmos que qualquer visão do bem conte, então os supremacistas brancos poderiam contar como praticantes do altruísmo eficaz, o que é uma conclusão que não queremos. Se nos restringirmos a uma visão particular do bem, então perderemos qualquer pretensão ao ecumenismo, e também apresentamos de forma desadequada a própria comunidade de altruísmo eficaz, que tem um acentuado desacordo sobre aquilo em que consistem os bons resultados.

A minha solução preferida é o bem-estarismo imparcial tentativo, definido acima. Isso exclui visões parciais sobre as quais, por exemplo, o bem-estar dos seus compatriotas conta mais do que o de estrangeiros e exclui visões não bem-estaristas nas quais, por exemplo, a biodiversidade ou a arte têm valor intrínseco. Mas inclui o utilitarismo, o prioritarismo, o suficientarismo, o igualitarismo, as diferentes visões da ética populacional, as diferentes versões de bem-estar, incluindo visões sobre as quais ser capaz de apreciar a arte e um ambiente natural próspero é parcialmente constitutivo de uma vida boa e diferentes visões de como fazer comparações de bem-estar entre diferentes espécies.

Este bem-estarismo é “tentativo”, no entanto, na medida em que é apenas considerado como uma hipótese de trabalho. O objectivo final do projecto altruísta eficaz é fazer o maior bem possível; a ênfase actual no bem-estar apoia-se na ideia de que, dado o estado actual do mundo e a nossa incrível oportunidade de beneficiar os outros, as melhores maneiras de promover o valor bem-estarista são, de modo geral, as mesmas maneiras de promover o bem. Se essa visão mudasse e aqueles que fazem parte da comunidade do altruísmo eficaz estivessem convencidos de que a melhor maneira de fazer o bem poderia envolver a promoção de bens não bem-estaristas, então pensaria que deveríamos rever a definição para falar simplesmente de “fazer o bem” em vez de “beneficiar os outros”.

Acredito que este entendimento é apoiado pelas opiniões dos líderes do AE. No questionário dos líderes do AE de 2015 mencionado anteriormente, 52,5% dos entrevistados eram a favor da definição, incluindo o bem-estarismo e a imparcialidade, com 25% contra. Assim, a inclusão do bem-estarismo imparcial tem amplo apoio, mas não um apoio tão convincente quanto outros aspectos da definição. E, quando olhamos para todas as principais organizações AE, elas estão firmemente concentradas em promover o bem-estar, em vez de promover fontes de valor não bem-estaristas.

Além disso, essa restrição apenas reduz o ecumenismo do altruísmo eficaz: o bem-estar é parte do bem na maioria ou em todas as visões morais plausíveis. O altruísmo eficaz não reivindica ser uma versão completa da vida moral. Mas, para qualquer visão que nos leve a ter razões para promover o bem, e que diga que o bem-estar é parte do bem, o projecto de descobrir como podemos promover melhor o bem-estar será importante e relevante.

 

 

[1] Note que, ao ler-se literalmente, o uso de “beneficiar os outros” na definição do CEA excluiria algumas visões bem-estaristas, tais como a visão em que alguém pode fazer o bem ao criar vidas boas mas isso não envolve beneficiar aqueles que de outro modo não existiriam. Neste caso, a precisão filosófica foi sacrificada em favor da legibilidade.


Texto originalmente publicado por William MacAskill no EA Forum, a 19 de Julho de 2019.

Tradução de José Oliveira.

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